2020/09/10

Dos incêndios do teatro português: A Companhia de Teatro Rey Colaço- Robles Monteiro





(Assinatura de Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro)


(Imagens de algumas representações teatrais) 


O Arquivo Histórico do Ministério da Educação (AHME) é detentor de documentação fundamental para a compreensão da evolução histórica do atual Teatro Nacional D. Maria II. Através da Repartição de Instrução Artística (RIA) e principalmente através da Direção Geral do Ensino Superior e Belas Artes (DGESBA), podemos traçar com algum detalhe a história deste teatro nacional. Desde a nota da exploração do então Teatro Nacional Almeida Garrett pela “Sociedade Artística do Teatro Nacional Almeida Garrett”, datada de 11 de maio de 1914, passando pelas sucessivas revisões de contratos de adjudicação pela concessionária “Companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro”, despacho da reabertura do teatro antes da conclusão das obras, datado de 29 de janeiro de 1930, cedência pelo Teatro Nacional de São Carlos (TNSC) de uma roca de pedal e uma sanfona a Robles Monteiro, datada de 27 de janeiro de 1931 até ao deferimento de autorização para a realização de uma conferência literária por Mme. Marcelle Tynaire, datada de 21 de fevereiro de 1931, são vários os motivos para os quais se dá agora uma breve notícia histórica.
(Imagem de alguns atores e de uma cortina de teatro onde está escrito "Os Maias")




Fundada pelo casal Amélia Rey Colaço e por Manuel Robles Monteiro, a Companhia de teatro durou 53 anos (1921-74), sendo considerada a companhia de teatro mais duradoura da Europa. A estreia da Companhia ocorreu com a representação em cena a 18 de junho de 1921 no Teatro Nacional de São Carlos (TNSC) com a peça “Zilda” de Alfredo Cortez, demarcando-se da tradição dos espetáculos do Teatro Nacional, de onde acabavam de sair, para formar esta nova companhia. Em 1921, candidataram-se à exploração do então Teatro Nacional Garrett (futuro Dona Maria II), ganhando o concurso, malgrado as condições pouco apelativas do concurso quanto à concretização da função de um Teatro Nacional, aos custos associados, considerando as parcas ou nulas contrapartidas financeiras. Logo a 30 de dezembro desse mesmo ano estreiam-se em palco com “Peraltas e Sécias” de Marcelino Mesquita. Foi a Companhia residente do Teatro Nacional Dª Maria II (TNDM II) de 1929 a 2 de dezembro de 1964, quando ocorreu o incêndio que destruiria o edifício e todo o recheio do teatro nacional. Ainda assim, a 15 de dezembro, 13 dias depois do nefasto acontecimento, a Companhia apresentou-se nas Portas de Santo Antão (Coliseu de Lisboa), com a peça “Macbeth” de William Shakespeare sem cenários e de luto. Depois do incêndio, ocuparam o Teatro Avenida, o Capitólio no Parque Mayer e o Teatro da Trindade, ao Bairro Alto.

 

(Imagem de uma atriz e respetivo figurino para uma representação teatral)



Durante a década de `30, construíram um repertório nacional de 116 peças portuguesas, das quais 63 foram estreias nacionais. Durante as décadas seguintes levaram a cena (mise en scene, na terminologia francesa) grandes autores contemporâneos nacionais e estrangeiros, como José Régio, Bernardo Santareno, Francisco Rebello, Luís de Sttau Monteiro, Eugene O`Neill, Brech, Pirandello, Cocteau, Arthur Miller, Ionesco, Francisco Garcia Lorca, entre outros. As representações mais modernas eram fortemente censuradas pelo regime político, obrigando a fortes negociações por parte de Amélia Colaço e Robles Monteiro. Esta caraterística foi uma constante ao longo da vida da Companhia, cujo percurso “resume paradigmaticamente a história do teatro português sob o fascismo – no que fez, no que não fez e no que não lhe foi permitido fazer” (REBELLO 2000: 137).





(Imagem da capa da obra "Vinte Anos no Teatro Nacional Dona Maria II")



Em 1931, estreou mundialmente “Um sonho, mas talvez não”, de Luigi Pirandello, com a presença do autor; estreou ainda uma placa giratória no palco, com “D. Sebastião” (1933), de Tomaz Ribeiro Colaço e em 1940 “O padre Setúbal” de Maeterlinck, escrita propositadamente para a Companhia. A partir de 1934 a Companhia fez várias digressões pela designada província, encenando grandes espetáculos ao ar livre, como o “Auto de Santo António” no adro da Sé de Lisboa (1934), a “Castro” no mosteiro de Alcobaça (1935), ou “Sonho de uma noite de Verão” (1944) no parque de Palhavã. Concomitantemente, organizou vários ciclos de conferências no Nacional, com oradores nacionais e estrangeiros a fim de alargar os horizontes culturais além da arte estritamente teatral.

Amélia Rey Colaço foi desde sempre uma figura proeminente na vida da Companhia, não só na arte estrita de representação, mas e sobretudo, no que dizia respeito à escolha de repertórios, pela distribuição dos papéis e na maioria dos casos pela montagem e decoração ( a designada encenação teatral), cujo requinte constituía uma imagem de marca. A Robles Monteiro, embora com representações mais esporádicas, cabiam outras funções de carácter administrativo e organizacional. Após a sua morte, em 1958, este papel foi sendo assumido por Amélia e pela filha Mariana Rey Monteiro, que dividia também com a mãe a direção de grupo.

A Companhia foi responsável pelo lançamento de atores de grande renome do futuro panorama teatral, como Raúl de Carvalho, Maria Lalande, Eunice Muñoz e Cármen Dolores, entre outros. Embora bem consolidada no panorama artístico nacional, a Companhia era muito exigente em matéria de coesão e disciplina, lançado para esse efeito o “Regulamento dos ensaios e espetáculos” datado de 1965.



(Imagens de páginas do Regulamento de ensaios e espetáculos)



Em 1967, novo incêndio assola a Companhia no Teatro Avenida, aquando da representação de “Feliz Aniversário” de Pinter, obrigando toda a Companhia a deslocar-se para o Capitólio (1968-70). Já no Parque Mayer, a Companhia enfrenta novo incêndio, quando se encontrava em representação “Equilíbrio Instável” de Edward Albee. Numa fase final, a Companhia deslocou-se para o Teatro Trindade, partilhando as representações com uma companhia de Ópera e Opereta. As crescentes dificuldades financeiras e o desinteresse do público – a que não seriam estranhos os tempos conturbados que se viviam no Portugal de abril de 1974 -, levaram a fundadora Amélia Rey Colaço a encerrar a Companhia em maio de 1974, após 53 anos de atividade ininterrupta.





(Documento de encerramento da Companhia de Amélia Rey Colaço)


Embora extinta a Companhia em ano de revolução, para os mais saudosos ainda é bom recordar a participação de Mariana Rey Monteiro, no papel da matriarca Dona Efígénia Augusta Lorena Marques Vila, presidente da administração da Sociedade Vinícola Marques Vila, Lda., na primeira telenovela portuguesa, Vila Faia, (RTP, maio a setembro de 1982), contracenado entre outros, com os consagrados Ruy de Carvalho, Nicolau Breyner, António Feio, Tozé Martinho e Rosa Lobato Faria – estes quatro últimos já falecidos -, Ana Zanatti, Francisco Nicholson, Glória de Matos, Vítor Norte e Margarida Carpinteiro, provas inequívocas que o teatro e a arte de representação nacionais continuam com vitalidade e em grande performance criativa.






M.M.


Outras propostas de leitura:

BARROS, Júlia Leitão de (2009). Fotobiografias século XX: Amélia Rey Colaço. Lisboa: Círculo de Leitores.

MARQUES, Paulo (2008). Amélia Rey Colaço: a Imperadora (1898-1990). Lisboa: Parceria A. M. Pereira Livraria Editora/Público.

REBELLO, Luiz Francisco (2000). Breve história do teatro português, 5ª ed. Mem Martins: Publicações Europa-América.

___ (2010). Três espelhos: uma visão panorâmica do teatro português do Liberalismo à Ditadura (1820-1926). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

SENA, Jorge de (1988). Do teatro em Portugal. Lisboa: Edições 70.

                                                                                                                        

2020/09/07

Exposição virtual: "A Revista Je sais tout"


A revista mensal francesa, Je sais tout, foi criada por Pierre Lafitte em Paris, a 15 de fevereiro de 1905, contando com 405 números publicados. A publicação saia ao dia 15 de cada mês e esteve em circulação até 1931 com este titulo, interrompendo entre agosto e dezembro de 1914. Foi impressa nas gráficas Gustave de Malherbe & Cª. O seu formato tinha 17.5 cm por 24.5 e contava com mais de 100 páginas com diversas ilustrações.
Aqui se publicaram as obras de Maurice Leblanc, nomeadamente Arsène Lupin, bem como do famoso Arthur Conan Doyle, criador do inesquecível detetive Sherlock Holmes. O primeiro conto com a personagem Lupin, saiu precisamente no primeiro número da revista, um ladrão-cavalheiro que praticava roubos contra os ricos.
A primeira revista tinha um cariz mais enciclopédico e, na capa, apresentava uma família em que cada membro segura um telefone junto ao ouvido. No entanto, evoluiu para um novo conceito de revista de cultura geral generalista, tendo como alvo um público familiar.
Teve três fases de publicação, sendo a primeira entre 1905 e 1914, com Henri Barbusse como redator chefe, substituído por Jacques des Gachons. Entre 1915 e 1922, após a interrupção da guerra, continuou no mesmo formato. Entre 1922 e 1939 houve algumas alterações uma vez que a revista foi comprada pela Hachette e teve uma nova casa impressora. Até aos anos 70 a revista continuou com outras temáticas e outro título.
A Biblioteca da Secretaria-Geral da Educação e Ciência possui alguns exemplares desta revista, a que poderá aceder aqui.



(Capa da publicação com uma imagem onde se pode observar um desenho de uma mulher e de um homem que estão a comunicar através de um antigo modelo de telefone)

Revista Je sais tout (*)

1ª edição de 15 de fevereiro de 1905


(Capa da publicação com uma imagem onde se pode observar um desenho de um homem cuja cabeça é um globo terrestre com rosto)

Revista Je sais tout (*)

1ª edição de 15 de março de 1905


(Capa da publicação com uma imagem onde se pode observar um homem sentado no meio de vários livros)

Revista Je sais tout (*)

Edição de 15 de junho de 1905


(Capa da publicação com uma imagem onde se pode observar um desenho de um homem que segura um pedaço de papel, alusivo a Arsène Lupin)

Revista Je sais tout (*)

Edição de 15 de dezembro de 1906


(Capa da publicação com uma imagem onde se pode observar um rosto masculino)

Revista Je sais tout (*)

Edição de 15 de junho de 1914


(Capa da publicação com uma imagem onde se pode observar um desenho de um soldado agarrado a uma bandeira)

Revista Je sais tout (*)

Edição de 15 de junho de 1917



(*) Imagens retiradas da internet

MJS e MEE

2020/09/03

Alguns dos melhores museus ... em Leiria

“Entre o Castelo e o rio Lis nasceu e cresceu Leiria. Enamorada por dois rios, o Lis e o Lena, banhando-se nas areias douradas do Atlântico, povoada de belas matas, a cidade de Leiria propicia a quem a visita locais inesquecíveis e de raro encanto.
Capital de distrito e localizada no centro litoral do país, a atração pelo concelho de Leiria está à vista: rios, praia, pinhal, lagoas, salinas, abrigos rupestres, arquitetura religiosa e civil, a monumentalidade das construções medievais, museus, termas, tradições populares nas suas manifestações mais puras, artesanato e muita, muita e rica gastronomia."

Este museu foi criado em 1917 devido aos esforços de Tito Larcher (1865 – 1932), como Museu Regional de Obras de Arte, Arqueologia e Numismática de Leiria. Em 2006, o Convento de Santo Agostinho (1577) passou a alojar esta instituição. Tem dois espaços expositivos, um permanente onde se conta a história de Leiria e outro, temporário, que acolhe diversas temáticas

Este museu reúne o maior núcleo das obras de José Malhoa (1855 – 1933), um dos mais conhecidos pintores portugueses, e uma importante coleção de pintura e escultura dos séculos XIX e XX. Aqui pode observar-se igualmente uma secção de cerâmica típica das Caldas da Rainha com um conjunto de 60 esculturas de terracota da autoria de Bordalo Pinheiro.

O Museu do Vidro reúne uma coleção ligada à produção vidreira portuguesa da Marinha Grande, incluindo peças desde o século XVII até aos dias de hoje. Para além disso, possui uma grande quantidade de peças de vidro de artistas nacionais e estrangeiros.

A partir da exposição realizada para celebrar os 100 anos de cinema em Portugal, surgiu a ideia de constituir um Museu da Imagem. Só em 2003 abriu ao público, tendo-se instalado definitivamente nos Antigos Celeiros da Mitra, junto das muralhas do Castelo de Leiria. Contem três áreas distintas: pré-cinema, fotografia e cinema. Aqui pode observar teatros de sombras, lanternas mágicas, fotografia, projetores, entre outros.

Criado em 1983, o Museu da Cerâmica encontra-se na Quinta Visconde de Santarém, Caldas da Rainha, próximo da antiga fábrica Bordalo Pinheiro. Inclui várias peças da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro representativa da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, num período entre 1884 e 1905. Tem um núcleo de peças da Fábrica do Rato (1767 – 1779) e várias cerâmicas nacionais e estrangeiras, incluindo Júlio Pomar, Manuel Cargaleiro e Cecília de Sousa.

Este museu dedica-se ao estudo, conservação e divulgação da Renda de Bilros de Peniche. Remontando provavelmente ao século XVII, a renda era elaborada pelas mulheres dos pescadores à porta das suas casas. A arte mantem-se viva devido aos rendilheiros que continuam a tradição.

MJS


2020/08/31

Alguns dos melhores museus... na Guarda


“A Guarda é a cidade mais alta de Portugal. A sua situação altaneira justifica a designação de “escudo da Estrela”. Aqui, respira-se ar limpo, leve e sadio. O clima é de montanha e a fertilidade dos vales garantem sabores divinos.
Herdeira de um património cultural rico e único, a Guarda encerra nas suas muralhas mais de 800 anos de História. No ponto mais alto da cidade ergue-se a Torre de Menagem, símbolo máximo de toda a estrutura defensiva, e sinal da altivez destas gentes que, ao longo dos séculos, defenderam a fronteira. Uma visita a este espaço, ajudará a compreender a importância que a Guarda teve na consolidação das fronteiras do atual território Português.” Câmara Municipal da Guarda 

Fundado em 1940, tem várias coleções relacionadas com a história da cidade: arqueologia, numismática, arte sacra, pintura, armaria, entre outros. Atualmente tem alargado o seu âmbito à arte contemporânea.

Este museu projetado por uma equipa de arquitetos do Côa, procura o equilíbrio estético entre a arte pré-histórica e a paisagem de vinha do Douro. Inaugurado em 2010, não substitui a visita ao Parque Arqueológico. Funciona como um centro de acolhimento que divulga a arte rupestre, fornecendo igualmente serviços educativos.

O Museu do Brinquedo em Seia tem uma coleção de mais de 8000 elementos, nacionais e estrangeiros. Dos mais antigos aos mais atuais, trata-se de um repositório de lembranças da infância que influencia a sociedade.

Instalado na Quinta Fonte do Marrão em Seia, é um dos maiores museus do mundo relacionado com este tema. Aqui se pretende recolher, preservar e exibir tudo o que se relaciona com o pão em Portugal nas diversas vertentes, etnográfica, social, histórica, etc.

Inaugurado em 1985, situa-se no Solar dos Condes de Vinhó, em Gouveia. A sua coleção principal foi doada por João Abel Manta, filho do pintor. O núcleo principal é constituído por pinturas, desenhos e esculturas de grandes artistas do século XX português, com destaque para Abel Manta. A partir de 2007 institui-se o Prémio Abel Manta de Pintura.

Museu inaugurado em 2017 em Vilar Formoso, a porta de entrada por excelência dos refugiados da Segunda Guerra Mundial. Pretende relembrar o papel do Portugal no acolhimento a estes refugiados e tem seis núcleos expositivos: “Gente como nós”, “Início do pesadelo”, “A viagem”, “Vilar Formoso – Fronteira da Paz”, “Por terras de Portugal” e “A partida”.

MJS


2020/08/27

Eugénio dos Santos (1711 - 1760): patrono da Escola Técnica Elementar Eugénio dos Santos



                                            
Eugénio dos Santos (1711-1760)
A Escola Eugénio dos Santos, edificada no Bairro de Alvalade em Lisboa, começou a ser construída em 11 de julho de 1949 e concluída, um ano mais tarde, em 15 de novembro de 1950. Desde início que esta escola lisboeta adotou Eugénio dos Santos como patrono.

Eugénio dos Santos nasceu em Aljubarrota, freguesia no concelho de Alcobaça, no mês de março de 1711. Crescendo no seio de uma família de pedreiros, foi com natural interesse que acompanhou o trabalho dos seus parentes, e se foi interessando pelas dinâmicas e utilidades de todos os instrumentos envolvidos.

A sua formação decorreu na Aula de Fortificação e de Arquitetura Militar, na agora Academia Militar, em Lisboa e, com 25 anos, estava já a exercer funções importantes na construção das fortificações de Estremoz, onde foi o principal responsável pelo desenvolvimento do Paiol de Santa Bárbara. Aqui, nomeado ajudante do Exército no Alentejo, trabalhou com o engenheiro António Carlos Andreas.

Eugénio dos Santos foi um dos principais responsáveis no período pós-terramoto de 1755, que abalou e destroçou a capital portuguesa. Arquiteto de formação e de profissão, deu azo para que os planos do Marquês de Pombal conhecessem forma e matéria, assistindo-se a uma forçada modernização da disposição da cidade. Para além dos méritos que granjeou em Lisboa, contemplou todo o país com uma vasta gama de obras públicas e militares, tornando-se um dos primeiros e mais importantes arquitetos do século XVIII.


“Eugénio dos Santos projectou também o ex-libris da cidade de Lisboa, considerado o seu expoente máximo a nível mundial, a praça do Comércio. Pelos padrões de então uma praça deveria ser fechada, seguindo os padrões das praças francesas e de La Plaza Mayor das cidades espanholas. O arquitecto lutou para que a praça fosse aberta para o rio, o Tejo, por onde saíram as naus que abriram o caminho do mar e uniriam os povos todos do mundo” (Rosa, 2007).

O seu reconhecimento profissional aumentou de forma considerável após o terramoto de 1755, ao tornar-se um dos principais obreiros da reedificação da cidade de Lisboa em estreita colaboração com o diretor das obras, o engenheiro-Mor Manuel da Maia, e com o engenheiro húngaro, Carlos Mardel.

Entre muitas outras obras, Eugénio dos Santos e Carvalho traçou o plano de recuperação da capital, dirigiu, com Carlos Mardel, as obras do Mosteiro de S. Bento da Saúde (atual Assembleia da República), riscou os novos planos dos edifícios da Alfândega, do Arsenal, da Fábrica do Tabaco e da Ribeira das Naus e compôs o anteprojeto da estátua de D. José I a construir no Terreiro do Paço, em Lisboa. No Porto, projetou a Cadeia e Tribunal da Relação, porventura uma das mais singulares obras do período dos "almadas".

“O arquitecto viria a falecer a 25 de agosto de 1760, aos 49 anos, na cidade de Lisboa, onde seria homenageado com uma escola homónima em Alvalade. A sua morte seria um tanto ou quanto abrupta, tendo caído em esquecimento poucos anos depois, e só recebendo novas honras investigativas e de reconhecimento no século XX” (Brandão, 2017).

Eugénio dos Santos e Carvalho casou com D. Francisca Teresa de Jesus da Costa Negreiros em 1747, descendente de uma influente família de arquitetos da corte. Morreu em Lisboa, na Rua da Rosa das Partilhas, freguesia das Mercês, a 5 de agosto de 1760. Foi sepultado na Igreja de S. Francisco.


Esta prática urbanista de grande rigor compositivo e teórico marca de forma decisiva o perfil urbano da cidade de Lisboa e do urbanismo português da época, tornando-se um elemento de referência no Mundo.

“A planta de Eugénio dos Santos é constituída por uma malha assaz complexa de ruas que garante a dinamização do conjunto. Os dois polos da Baixa, o Terreiro do Paço e o Rossio, são definidos substantivamente e assumem o seu papel definitivo, ao ser possível alinharem-se os seus lados poente que em todos os outros projectos se desencontravam, à maneira antiga” (França, p. 26).

Assistiu ainda à obra do Hospital das Caldas e foi também arquiteto de vários paços reais. Foi ainda arquiteto e diretor da Alfândega Interina, do Real Arsenal, da Nova Alfândega, da Fábrica do Tabaco e da Ribeira dos Paus, tendo elaborado o projeto para o Tribunal e Cadeia da Relação no Porto em 1750, construídos só depois da sua morte, a 5 de agosto de 1760. Juntamente com Carlos Mardel, dirigiu as obras de edificação e decoração do Mosteiro de S. Bento da Saúde, atual Assembleia da República. A ele se deve a estátua de D. José I no Terreiro do Paço.

Depois de ter realizado inúmeras obras públicas de grande impacto e arrojo estético, a sua figura caiu no esquecimento, sendo recordado apenas com breves referências. Só o século XX voltaria a dar a importância devida a este notável arquiteto português de Setecentos.



BIBLIOGRAFIA:


AGRUPAMENTO DE ESCOLAS RAINHA DONA LEONOR (2018). Regulamento interno do Agrupamento 2018/2022 [em linha]. Lisboa: A.E.R.D.L. [Consult. 28 de jul. de 2020]. Disponível:

BRANDAO, Lucas (2017). Eugénio dos Santos reergueu Lisboa quando a natureza a traiu [em linha]. Lisboa: Comunidade Cultural e Arte. [Consult. 28 de jul. de 2020]. Disponível https://www.comunidadeculturaearte.com/eugenio-dos-santos-reergueu-lisboa-quando-a-natureza-a-traiu/

CARVALHO, Rómulo de (1996). História do Ensino em Portugal: desde a Fundação da Nacionalidade até ao fim do Regime de Salazar-Caetano. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2.ª edição.

FRANÇA, José-Augusto (1989). A reconstrução de Lisboa e a arquitectura pombalina. Lisboa: Biblioteca Breve.

INFOPÉDIA (2019). Eugénio dos Santos [em linha]. Porto: Porto Editora. [Consult. 28 de jul. de 2020]. Disponível https://www.infopedia.pt/apoio/artigos/$eugenio-dos-santos

MARQUES, Inês Maria Andrade (2012). Arte e habitação em Lisboa 1945-1965: cruzamentos entre desenho urbano, arquitectura e arte pública [em linha].
Barcelona: Tesis doctoral presentada per a la defensa del grau de doctor. [Consult. 28 de jul. de 2020]. Disponível: http://hdl.handle.net/10803/145901


ROSA, Luís Manuel da Silva (2007). O arquitecto Eugénio dos Santos [em linha]. Lisboa: Tinta Fresca: Jornal de Artes, Cultura & Cidadania, N.º 84, (3 out. 2007). [Consult. 28 de jul. de 2020].  Disponível: http://www.tintafresca.net/News/newsdetail.aspx?news=56acec09-113f-4e25-97bf-593ced306a13&edition=84


 P. M. 

2020/08/24

Escola Técnica Elementar Eugénio dos Santos

(Imagem da fachada da Escola Técnica Elementar Eugénio dos Santos. Retirada da internet)


A Escola Técnica Elementar Eugénio dos Santos foi o primeiro estabelecimento concebido para o grau de ensino não primário do bairro de Alvalade. A obra foi iniciada em 11 de julho de 1949 e ficou concluída em 15 de novembro de 1950. O seu primeiro diretor foi António Gonçalves Matoso.[1] Segundo o jornal A Voz (1950, p. 1), pretendia-se inaugurar a Escola Técnica Elementar Eugénio dos Santos em novembro de 1950, não obstante, só viria a acontecer oficialmente, com a presença do Presidente das República, Marechal António Óscar de Fragoso Carmona, no dia 6 de janeiro de 1951.

As instalações da Escola Técnica elementar Eugénio dos Santos são as primeiras construídas das dezoito escolas criadas pelo Decreto 36.406 de 11 de julho de 1947, destinadas ao curso do ciclo preparatório do ensino técnico profissional.

(Imagem da fachada da Escola Técnica Elementar Eugénio dos Santos. Retirada da internet)


Com uma área coberta de 2.800 m2 e com 6.600 m2 de superfície de pavimentos distribuída em três corpos. Esta situada no Bairro de Alvalade e poderá comportar uma população de 1000 alunos do sexo masculino.


 “Trata-se de um magnífico edifício construído segundo todos os requisitos da moderna pedagogia tão luminosamente concretizada no Estatuto do Ensino Técnico Profissional. A nova escola de Eugénio dos Santos destinada a rapazes é a primeira duma série que se projecta, dentro de um plano grandioso de renovação das instalações do nosso ensino. Já está em construção outra – a da Marquesa de Alorna – destinada ao sexo feminino; e dentro em breve serão lançados os alicerces de mais oito […].” (A Voz, 1950).


A Escola Eugénio dos Santos foi uma construção emblemática do regime, é significativo que se tenha escolhido Alvalade para acolhê-la. Surgia como a primeira experiência de importante reforma do ensino levada a cabo em 1947/1948: reforma do ensino técnico profissional. Esta modalidade educativa ministrava-se em dois graus: um, o ensino técnico elementar, então criado, e que consistia num ciclo preparatório com a duração de dois anos; outro, o ensino técnico propriamente dito, constituído pelo conjunto de cursos profissionais, industriais e comerciais.


(Imagem da fachada da Escola Técnica Elementar Eugénio dos Santos. Retirada da internet)



Pensada para uma frequência de 1000 alunos, a escola Eugénio dos Santos, era exclusivamente masculina, mantendo a separação dos sexos em vigor no ensino primário. A escola implantou-se na proximidade da zona de indústria ligeira e de artesanato do bairro e o seu projeto foi elaborado em 1949 por um arquiteto dos Serviços Técnicos da JCETS –  Junta das Construções para o Ensino Técnico e Secundário, José Costa e Silva adaptando um anteprojeto tipo já elaborado.

A escola compreende três corpos principais – edifícios de aulas (três pisos), de educação física (dois pisos) e de oficinas (6 salas justapostas com um piso) – que se conectam entre si por zonas de recreio e galerias abertas. Os acidentes do terreno condicionaram o seu desenvolvimento em vários níveis, o que implicou a realização de terraplanagens e o tratamento cuidado dessas galerias de ligação.

“A opção seguida, no tocante à implantação dos edifícios, não foi a de favorecer a rua corredor, com edificado contínuo de ambos os lados da rua, mas sim a de agenciar os três edifícios em separado no espaço: um edifício de educação física, marginando a avenida de Roma; um edifício de aulas, marginando a rua Luís Augusto Palmeirim e um edifício de oficinas, junto do impasse da rua Marquesa de Alorna, a nascente. Talvez pelo facto de se estar cumprindo um anteprojeto tipo, ou pelo facto de a escola não se implantar em lote previsto para o efeito, não houve pruridos em deixar que, sobre o lado confinante com a artéria de maior importância, a avenida de Roma, se mostrassem apenas fachadas laterais – do corpo de aulas e do de educação física – e o próprio recreio dos alunos […]” (Marques, 2012, p. 17).


Como verificamos, a opção arquitetónica desenvolve-se em redor de um amplo pátio aberto sobre a via pública: a entrada principal foi orientada para uma rua de menor movimento, a rua Luís Augusto Palmeirim, a sua expressão arquitetónica mostra-se ainda presa ao cânone instaurado pelas construções liceais da década de 1940.

 
Nessa frontaria todos os detalhes – as cantarias, o ferramos forjado – agudizam o aspeto tradicionalista do conjunto, destacando-se um escudo com as armas de Portugal de autoria do escultor Álvaro de Brée. Desse escudo e de outros dois relevos adossados nas fachadas laterais dos corpos edificados confinantes com a avenida de Roma.

No prosseguimento da política de expansão da rede escolar e com o objetivo de assegurar as condições que permitam o efetivo cumprimento da escolaridade obrigatória e o seu alargamento para oito anos, previsto na Lei de Reforma do Sistema Educativo. Tendo em atenção as disposições do Decreto-lei 47480, de 2 de janeiro de 1967, e do Decreto-lei 48541, de 23 de agosto de 1968: manda o Governo da República Portuguesa, pelos Ministros das Finanças e da Educação Nacional criar um conjunto de escolas preparatórias do ensino secundário, entre elas, consta a renomeada Escola Preparatória de Eugénio dos Santos. Onze anos mais tarde, em 1993, a escola passa a chamar-se Escola EB 2+3 Eugénio dos Santos.

Em 2004 assistimos à criação do Agrupamento de Escolas Eugénio dos Santos, integrando cinco unidades educativas: três escolas básicas do 1.º ciclo (EB1 Bairro S. Miguel, EB1 Fernando Pessoa e EB1 Rainha D. Estefânea), uma escola básica do 1.º ciclo com jardim-de-infância (EB1/JI Santo António) e a Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos Eugénio dos santos (EB 2,3), Escola Sede. A sua dispersão não é relevante, atendendo a que 4 escolas se situam no Campo Grande, Alvalade e São João e Brito (Cf. Direção-Geral da Educação, 2010).

O antigo agrupamento de Escolas Eugénio dos Santos agregou-se no ano letivo 2013/2014 à Escola Secundária Rainha Dona Leonor (ESRDL), formando um novo agrupamento – Agrupamento de Escolas Rainha Dona Leonor (AERDL).

Segundo o Agrupamento de Escolas Rainha Dona Leonor (2018), esta unidade orgânica de ensino público foi homologada por despacho do diretor-geral dos Estabelecimentos Escolares, em 24 de abril de 2013, dotada de órgãos próprios de gestão, constituída por um estabelecimento de educação pré-escolar e escolas dos três ciclos do ensino básico e um estabelecimento de ensino secundário. O Agrupamento de Escolas Rainha Dona Leonor (AERDL) é constituído pelos seguintes estabelecimentos de educação e ensino: a) Escola Secundária Rainha D. Leonor (sede); b) Escola Básica Eugénio dos Santos; c) Escola Básica Rainha Dona Estefânia/Hospital; d) Escola Básica do Bairro de São Miguel; e) Escola Básica dos Coruchéus e, finalmente, f) Escola Básica Santo António.




BIBLIOGRAFIA:

AGRUPAMENTO DE ESCOLAS RAINHA DONA LEONOR (2018). Regulamento interno do Agrupamento 2018/2022 [em linha]. Lisboa: A.E.R.D.L. [Consult. 29 de jul. de 2020]. Disponível: http://www.aerdl.eu/site/images/Doc_Agrupamento/Doc_orientadores/Regulamento_Interno_-2018.pdf

CARVALHO, Rómulo de (1996). História do Ensino em Portugal: desde a Fundação da Nacionalidade até ao fim do Regime de Salazar-Caetano. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2.ª edição.

DIAS, Luís Pereira (1998). As outras escolas: o Ensino Particular das Primeiras Letras entre 1859 e 1881. Lisboa: Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação.

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P. M. 


[1] António Gonçalves Matoso nasceu em Vila Cova de Alva, Arganil, em 1895 e faleceu em Lisboa, em 1975. Dedicou grande parte da sua vida profissional ao ensino, tendo sido professor liceal de História, metodólogo e, em 1951, foi o primeiro diretor da Escola Técnica Elementar de Eugénio dos Santos, em Lisboa. Porém, foi como autor de manuais de História para o ensino liceal, adotados durante várias décadas, desde 1938, que se tornou uma figura de referência da historiografia e do ensino da História. Entre vários títulos, evidenciam-se o Compêndio de História de Portugal, que conheceu 11 edições, em 11 anos, entre 1938 e 1949; o Compêndio de História Universal, publicado pela primeira vez também em 1938, foi reeditado 9 vezes, até 1967; a História da Civilização, editada 12 vezes, desde 1938 até 1964. Destacam-se ainda, na sua produção bibliográfica os títulos História de Portugal, Erros de História: resposta a um crítico, Compêndio de geografia económica, mesteirais que ajudaram a fazer Portugal, entre outros.