2014/01/29

Órgão da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas: a revista "A mulher e a criança"



         

 

 


(Fotografia de várias mulheres fundadoras da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas)



Portugal, na primeira década do Séc. XX, está em nítida mudança político-social – o papel da mulher na sociedade e suas afirmações são valores posto em causa. Desta forma, começam-se a esboçar movimentos feministas que, a seu modo, vão traduzindo ideologias e movimentos culturais organizados. A emancipação da mulher é, assim, entendida como tomada de consciência do valor da pessoa e, acima de tudo, como definição do papel da mulher na sociedade. A revisão da estrutura social portuguesa e, sobretudo, do papel da mulher foi progressivo e moderado.

 

“Com certo vigor, a dado passo, o movimento feminista em Portugal é, no entanto, sempre um movimento moderado, nunca declaradamente subversivo nem violento, mais atento à satisfação das suas reivindicações pela força da persuasão, do direito e da educação do que pela força dos gritos e das manifestações.” (Silva, 1983: 875)

 

Luta-se conscientemente pelos direitos e valores femininos e em 1907, um grupo de mulheres instruídas fundou o Grupo Português de Estudos Feministas[1], com o objetivo de difundir ideais de emancipação feminina, fundar uma biblioteca especializada, publicar estudos destinados a instruir e a educar a mulher portuguesa nas suas funções de mãe vs. educadora. No entender de Pires (2012:174), “a educação e instrução da mulher e a independência económica são assim dois dos campos de intervenção mais expressivos desta associação”.

 

Este grupo foi dirigido por Ana de Castro Osório e outras intelectuais (existiram algumas publicações rarefeitas). Em torno deste efémero grupo, segundo Samara (2010:41), forma-se um importante núcleo feminista que vai fundar a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, doravante denominada por LRMP.


 

“Foi com a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (LRMP) que o feminismo se cruzou com o republicanismo, embora tivesse partilhado outros combates como o do direito à educação. A sessão preparatória da fundação da Liga em Agosto de 1908 foi presidida por Ana de Castro Osório e secretariada por Bernardino Machado e Magalhães Lima, tendo lugar no Centro António José de Almeida. A ideia de criação da Liga tinha tido origem nos republicanos, nomeadamente António José de Almeida, que convidavam as senhoras a prestarem o seu concurso, de forma organizada ao combate republicano.” (Samara, 2010:41).

 

Sexta-feira, 28 de agosto de 1908, assiste-se à sessão preparatória da fundação da LRMP. Um grupo de ativistas femininas reúne-se, no Centro António José de Almeida, sob a presidência de Ana de Castro Osório, que foi secretariada por Bernardino Machado e Magalhães Lima. Nesta reunião, foram lançadas as bases da criação da LRMP, organização feminina inspirada nos ideais maçónicos e ligada ao Partido Republicano Português:

 

“Abrimos a nossa Revista com o discurso pronunciado na reunião preparatória da Liga Republicana das Mulheres Portuguêsas, pela nossa illustre Presidente e presada companheira de redação, D. Anna de Castro Osorio, porque elle diz bem qual a ideia que presidiu á formação da Liga, e os fins que ella se propõe realizar […] Deixae-me primeiro agradecer a imerecida honra que me foi feita pelos srs. Drs. Bernardino Machado, Magalhães Lima e António d’Almeida, […].” (Osório, 1909:1)

 

Ainda que a ideia seja lançada em 1908 por Ana de Castro Osório e António José de Almeida e apoiada por Bernardino Machado e Magalhães Lima, acarinhada pelo Partido Republicano, a sedimentação da LRMP será consolidada, mais tarde, com os Estatutos da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, aprovados em assembleia geral de 24 de Julho e 4 de Agosto de 1910 (A mulher e a criança, A. 2, n. 15 agosto de 1910, p. 8). Os estatutos da LRMP são descritos em seis capítulos:

― Capítulo I - Fins da associação;

― Capítulo II - Dever das sócias, Direitos das sócias e Penalidades;

― Capítulo III - Assembleia geral e Eleições;

― Capítulo IV – Direcção;

― Capítulo V – Conselhos fiscais;

― Capítulo VI – Cobradora e empregada e Transitório.



(Imagem da capa da revista "A mulher e a criança" Órgão da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas)

 

A ata da reunião de assembleia geral realizada em 24 de julho, de 1910, para revisão e modificação dos estatutos, datada em Lisboa, 24 de julho de 1910 foi assinada por Ana de Castro Osório, Ana Maria Gonçalves Dias e Maria Veleda. Os Estatutos da LRMP estão datados de 4 de agosto de 1910 e foram assinados por Maria Veleda, Ana Maria Gonçalves Dias e Georgina de Figueiredo.

 

Os objetivos da LRMP são, essencialmente, sociopolíticos e pedagógicos. O Art. 1 do Capítulo 1 resume os fins da Liga: (i) orientar, (ii) educar e (iii) instruir a mulher portuguesa:


 “Orientar, educar e instruir, nos princípios democráticos a mulher portuguesa, como mãe de família, esposa, filha, educadora, tornando-a um indivíduo autónomo e consciente, pois que só um novo regímen libertado de preconceito poderá trazer à sociedade portuguesa a consciência e responsabilidade do povo livre e altivo.” (LRMP, 1910:8)


Como sabemos, o projeto LRMP foi apoiado pelo Partido Republicano, que incentivava a luta reivindicativa das mulheres pela igualdade de direitos que lhe permitisse uma maior intervenção na vida social, económica e política do país. Também lhe interessava criar mais uma frente de combate à monarquia, sobretudo, porque o sexo feminino era conotado com o obscurantismo religioso e o conservadorismo político.

 

A exaltação da mulher, através de ideais republicanos e democráticos, impulsionou a aliança entre feminismo e politica. A Liga, desta forma, encontra terreno fértil para editarem A mulher e a criança, revista distribuída gratuitamente às associadas e destinada a todo o público feminino – toda a mulher, per si, constituiu a vanguarda revolucionária do movimento social da emancipação feminina, um importante núcleo da propaganda republicana e um precioso reduto na defesa e consolidação dos ideais da liberdade e democracia.

 

A LRMP foi, contudo, a primeira organização político-partidária feminina - a ideia da criação da Liga, lançada em 1908, assinala a divisão entre as intelectuais monárquicas e republicanas adeptas da causa da emancipação feminina.

 

Em 1909, segundo A mulher e a criança, Ano 1, n.º1 de Abril, a comissão dirigente e proprietária é constituída por Ana de Castro Osório, Maria Benedita Mouzinho de Albuquerque Pinho e Fausta Gama. Com a implantação da República em 5 de Outubro de 1910, as feministas republicanas que militavam na Liga julgaram ter chegado o momento de apresentarem as suas reivindicações ao novo regime político. Ana de Castro Osório demitiu-se da Direção da Liga e da revista A mulher e a Criança em abril de 1911:


“A presidente da assembleia geral recebeu o pedido da demissão da presidente da direcção e nossa muito querida camarada, D. Anna de Castro Osorio, devido a ter de retirar brevemente para o Brazil […] reunida a assembleia geral em 21 de abril, para apreciar estas desistências, resolveu-se acceitá-l’as […].” (LRMP, 1911:12)


Maria Veleda foi, então, eleita para a substituir nos dois cargos, imprimindo à direção da coletividade um carácter mais revolucionário e combativo na luta pelos direitos de todas as mulheres.

 

 

P. M.

 

 

Bibliografia


ESTEVES, João (2010). “Dos salões literários ao associativismo pacifista, feminista, maçónico, republicano e socialista” [on-line]. Lagos da República [Camara municipal de Lagos].

[Consulta: 2 jan. 2014].

 

Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (1910). “Estatutos da Liga Republicana das Mulheres Portuguezas”. in: A mulher e a criança, A. 2, n. 15 (ago. 1910), p. 8-11

 

Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (1910). “Ultima hora”. in: A mulher e a criança, A. 2, n. 22 (mar. 1911), p. 12

 

Osório, Ana de Castro (1909). “Liga republicana das Mulheres Portuguêzas.” in: A mulher e a criança, A. 1, n. 1 (abr. 1909), p. 1-4

 

PIRES, Ana Maria Barros (2012). “A liga Republicana das Mulheres Portuguesas e a enfermagem no século XX”: leituras na imprensa feminista [online]. Revista de Enfermagem Referência, Vol. serIII, n. 8 (2012), p. 171-178 .

[Consulta: jan. 2014]

 

SAMARA, Maria Alice Dias de Albergaria (2010). As repúblicas da República: história, cultura política e republicanismo. Lisboa: [s.n.]. (Dissertação de Doutoramento em História Contemporânea Institucional e Política de Portugal).

 

SILVA, Maria Regina Tavares da (1983). “Feminismo em Portugal na voz de mulheres escritoras do início do século XXI.” in: Análise Social, Vol. 19, n. 77-78-79 (1983), p. 875-907

[Consulta: jan. 2014].

 


 





[1] Em 1907 surgiu o Grupo Português de Estudos Feministas, fundado e dirigido por Ana de Castro Osório e que marcou o início da liderança desta escritora no movimento feminista. E embora tenha sido uma experiência limitada a um núcleo restrito de intervenientes, com objetivos modestos, constituiu um marco ao ser a primeira agremiação que assumiu a palavra feminista na sua designação e ao evidenciar a preponderância das ativistas republicanas e maçónicas. Presidida por Ana de Castro Osório, teve a adesão de várias professoras e das médicas Adelaide Cabete, Carolina Beatriz Ângelo e Sofia Quintino, e procurou difundir os ideais feministas e doutrinar as portuguesas através da constituição de uma biblioteca especificamente virada para os seus interesses, propondo-se publicar estudos que tivessem por assunto a propaganda feminista no seu aspeto geral, de forma a contrariar o predomínio asfixiante das coleções românticas dirigidas às mulheres. (Cf. Esteves, 2010).

2014/01/22

Atividades culturais na Biblioteca Nacional

(Imagem de um mapa antigo)



Aceda aqui às atividades culturais a decorrer na BNP até Fevereiro, com particular destaque para o III Workshop Internacional de História da Cartografia Ibérica: do mediterrâneo ao mundo. Organizado em parceria com o Centro Interuniversitário de História das Ciências e Tecnologia - Pólo Universidade de Lisboa, o workshop irá decorrer nos dias 27 e 28 de março na BNP.


2014/01/15

Peça do mês de janeiro




Telégrafo
O telégrafo, inventado em 1837 pelo norte-americano Samuel Morse, foi o primeiro aparelho que permitiu a comunicação à distância através de fios e de eletricidade. Em 1844, Morse transmitiu a primeira mensagem telegráfica pública e demonstrou como o telégrafo era capaz de enviar sinais rapidamente e a grandes distâncias. É constituído por um circuito que, quando a chave "liga-desliga" desse circuito é fechada, um "sinal elétrico" percorre o interior do circuito com a velocidade da luz, estabelecendo uma corrente elétrica no aparelho recetor. O aparelho recetor, por sua vez, pode ser uma lâmpada, uma campainha ou um "ponteiro" capaz de se mover para de produzir marcas numa fita de papel. Está inventariado com o número ME/ESDJC/1444 e pertence ao espólio museológico da Escola Secundária D. João de Castro.
Samuel Finley Breese Morse (1791-1872), foi inventor, físico e pintor de origem norte americana. Durante a década de 1830 criou o telégrafo - “Recording Electric Telegraph”. Era formado por uma aparelho emissor e um recetor, permitindo comunicar com uma única tecla que fechava um circuito elétrico quando premida, emitindo um sinal sonoro, luminoso ou um sinal marcado em papel. Desta forma, traduzia sob a forma de pontos e traços o alfabeto, a pontuação e os números. Assim nasce o chamado Código Morse, um sistema de representação de letras, números e sinais de pontuação que combinava traços, pontos e pausas para transmitir informações através de impulsos telegráficos. O telégrafo continuou a ser aperfeiçoado, nomeadamente com o trabalho de Thomas Edison. A evolução natural das formas de comunicação fez com que o telégrafo primitivo desaparecesse.


MJS

2014/01/08

Congresso Internacional “A Biblioteca da Universidade: permanência e metamorfoses”


(Logotipo dos 500 anos da Biblioteca da Universidade de Coimbra)



No âmbito das comemorações dos 500 da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, está a ser organizado um Congresso Internacional que se realizará entre 16 e 18 de Janeiro de 2014, no auditório da Reitoria da Universidade de Coimbra. Este congresso visa a reflexão sobre o presente e o futuro das bibliotecas com público universitário. Os temas em destaque serão: o valor das bibliotecas universitárias; a biblioteca universitária em contexto: as mudanças e os desafios; a biblioteca universitária e a sociedade da informação e conhecimento; o impacto do acesso aberto na comunidade científica; e ainda as bibliotecas digitais. Para mais informações aceda aqui ao site do congresso.

2014/01/02

O Mecenato Musical do Conde de Farrobo


(Imagem do exterior do Teatro Thália)


Aceda aqui à comunicação da autoria da Dr.ª Idalina Nunes, especialista da biografia de Joaquim Pedro Quintella, 2º  Barão de Quintela e 1º Conde de Farrobo, responsável pela construção do Teatro Thalia. Apresentado nas Tardes do Thalia  a 25 de Maio de 2013, este texto ilustra uma vertente melómana do Conde de Farrobo.


2013/12/26

Bibliotecas e Livrarias - uma prática comum?




(Imagem de uma estante com livros)




Livrarias e bibliotecas, hoje em dia, terão assim tantas diferenças? E semelhanças?

Quando olhamos em redor e observamos determinadas livrarias agirem à semelhança de bibliotecas e vice‐versa, não estaremos a assistir ao diluir de uma fronteira que até aqui parecia claramente definida? Estarão as livrarias a ganhar terreno e a tomar o papel natural que até aqui cumpria às bibliotecas? Poderá a sobrevivência destas estar em causa? Terão as bibliotecas algo a aprender com as livrarias? Estarão as bibliotecas atentas às necessidades e desafios que lhes são colocados?

O ponto de partida para encontrar respostas a estas questões poderá ser o princípio de que a biblioteca não pode ser entendida como mero depósito ou armazém de livros, do mesmo modo que a atual livraria não deverá ser encarada como simples negócio de transação de livros.

Tempos houve em que as livrarias não pareciam apreciar particularmente que se mexesse nos livros; muito menos as bibliotecas mostravam preocupar‐se com questões de marketing e de imagem. Hoje, constatamos que as livrarias – nomeadamente as especializadas – possuem um espaço de auditório onde promovem debates, organizam apresentações e lançamentos de livros, sessões de autógrafos... enfim, assumem um papel muito mais ativo, participativo e interveniente do que o de simplesmente venderem livros. Talvez preocupadas com a crise que enfrentam, as livrarias perceberam que, se pretendessem sobreviver e vencer num mercado cada vez mais competitivo e concorrencial, teriam de ir buscar e adotar algumas das técnicas do mundo do marketing e da gestão. Mas como? Fomentando antes de mais a promoção, o envolvimento, incutindo a própria necessidade de procura do espaço em si mesmo, enquanto local agradável e acolhedor, onde se pode adquirir, consultar um livro, ou simplesmente folhear uma revista ou jornal.

Numa época marcada por tantos e constantes apelos à atenção das pessoas, não é tarefa fácil encorajar e fomentar hábitos de leitura. E esse é precisamente o principal papel e missão da biblioteca. Para tanto, é fundamental que esta não se feche em si própria. É necessário que esteja atenta, que colha experiências, que as identifique, que as selecione e que as adapte da forma que melhor sirvam os seus propósitos. Daí a importância do domínio de técnicas de comunicação que ajudem a sublinhar a importância e a utilidade dos serviços de uma biblioteca e a captação de públicos. A biblioteca (em particular a biblioteca pública) deverá funcionar no quadro de uma lógica empreendedora, partindo dela própria a iniciativa de captação de públicos, de utilizadores. Não existindo uma única solução, ou uma solução à medida, haverá, porém, a possibilidade de aprender e de melhorar observando experiências bem-sucedidas, importando e adotando modelos que viabilizem o sucesso. E por que não importá‐los das suas “congéneres” livrarias?

Uma das receitas do sucesso das modernas livrarias parece passar pela localização e escolha do modelo a seguir. A combinação megastore e centro comercial, por exemplo, parece resultar quando se trata de ir ao encontro das necessidades e expetativas de uma ampla diversidade de público. O vasto leque de oferta que se consegue proporcionar e a forma apelativa como se exibem os diferentes produtos, propiciam um envolvimento tal que induz, não só à compra, mas também a uma mais prolongada permanência no interior do espaço comercial. A loja surge como espaço de lazer e de entretenimento. Para este fim também concorre um período alargado de funcionamento e uma equipa de profissionais que ciclicamente se reveza, adaptando-se às necessidades e disponibilidade do público.

De modo similar, constata‐se que as bibliotecas de hoje começam a adotar, a ser criadas e a funcionar à luz de conceitos modernos como estes, em que a gestão de marketing não é fator despiciendo. Apresentam‐se como lugares luminosos, apelativos e acolhedores, que convidam o leitor a entrar, a circular, a demorar‐se, a descobrir e a tomar parte das mais diversas atividades. Decidir sobre a implantação e localização de uma biblioteca implica também conhecer os hábitos, os motivos, as necessidades e mesmo os trajetos dos seus potenciais utilizadores, uma vez que estes irão refletir‐se na futura utilização do espaço e nos serviços e equipamentos que aquela irá disponibilizar. Da situação da biblioteca – próximo de um campus universitário, de uma zona comercial ou residencial – resultará o público que vier a acolher. No caso das zonas interiores de um país, por exemplo, é particularmente importante que a biblioteca procure constituir-se enquanto polo gerador de uma nova centralidade, capaz de gerar a aproximação das pessoas com os livros, tornando‐se um lugar de referência, não só para quem estuda e investiga, mas também para quem apenas deseje passar de forma útil e descontraída algum tempo livre – lendo um livro, folheando uma revista ou jornal, escutando um disco ou visionando um filme, ou, simplesmente usufruindo da cafetaria.

Na linha dos cafés da Belle Époque, a moderna livraria parece herdar a tradição de espaço cultural e de tertúlia ao promover a realização de eventos que vão desde o lançamento de livros, passando por encontros com escritores e personalidades das mais diferentes áreas, recitais de música e de leitura, exposições, etc. É preciso também que esta ideia vingue no espaço da biblioteca. A aposta incide claramente numa forte diversificação: oferta para todos e todos os gostos. Enquanto instrumento da vida cultural a biblioteca, nomeadamente a biblioteca pública, revela‐se cada vez mais como mediateca; um local onde se pode ler, consultar e requisitar livros, mas onde também é possível encontrar discos, filmes e outros suportes de difusão de conhecimento, informação e comunicação (Internet), de um modo geral.

Nesta lógica de pluralidade de funções, o acolhimento e a organização interna desempenham um papel determinante. A aposta no acolhimento é muito importante, pois as pessoas são naturalmente cativadas pela forma como são recebidas e por ambientes acolhedores e agradáveis. E tudo isso leva‐as a permanecerem um maior número de horas. As livrarias, por exemplo, já o terão entendido. Mais do que preocupar‐se em estimular e fomentar hábitos de leitura – missão principal da biblioteca – a livraria preocupa‐se em vender e, se possível, num ambiente apelativo e acolhedor que leve o visitante a ficar mais tempo, a demorar‐se, a sentir‐se compelido a comprar. A aposta numa equipa profissional, competente e treinada, atenciosa e empenhada, que conheça bem os produtos e que, se possível, domine algumas áreas do saber, contribui em muito para conquistar e fidelizar o cliente.

Também nas bibliotecas tem‐se vindo a tornar cada dia mais importante o papel desempenhado pelo bibliotecário de referência, pois este funciona como o “cartão‐de visita” da instituição, exigindo‐se dele um número de valências técnicas e humanas, que lhe permitam desenvolver a grande responsabilidade de efetuar a função de charneira entre os serviços da instituição que representa e o público. A existência dos mais variados recursos de informação e comunicação torna imperativo a existência de profissionais de documentação competentes e integrados, que medeiem com eficácia entre as várias fontes e recursos de informação e as necessidades e questões específicas levantadas pelos utilizadores. De igual modo, constata‐se que uma livraria lucra quando dispõe de funcionários capazes de dar assistência na escolha de livros, a aceitar encomendas por telefone, a facilitar trocas ou devoluções. Tudo isso influi e contribui para aumentar o prestígio de uma entidade e para, em termos globais, projetar uma imagem de qualidade. A adoção de conceitos e técnicas de comunicação, marketing e imagem é, claramente, um dos pontos fortes quando olhamos para as modernas livrarias. Desde a montra ao interior tudo é pensado criteriosamente e nenhum pormenor é deixado ao acaso.

Se as bibliotecas têm algo a colher da experiência das livrarias, do circuito comercial, esse algo parece residir na forma como o produto é exposto, no modo hábil e eficaz de apelar ao consumo. No exterior, montras consagradas a um tema da atualidade, à obra de um escritor recentemente galardoado ou uma promoção especial. No interior, balcões e escaparates exibindo de frente as últimas novidades, placards com recortes de jornais e displays com revistas chamando a atenção para os mais vendidos, as obras exibidas de um modo simples e cativante (destaque dado a um assunto, a uma determinada faixa de público, a uma reedição), sinalização abundante, estantes de fácil acesso e leitura. É importante que as pessoas se sintam compelidas a entrar, a deambular, a pegar e a comprar. Mais do que da quantidade, depende da forma atrativa como os produtos são expostos, o fazer com que as pessoas se tornem frequentadoras assíduas. Daí que se revele importante que tanto livrarias como bibliotecas procurem conhecer o(s) público(s) e as suas preferências de leitura, nomeadamente procurem perceber as dinâmicas que o move: “o que”, “quando” procura, e “de que modo” o prefere fazer. Aqui cabe destacar a possibilidade de deixar ao arbítrio de cada um a possibilidade de ser o próprio a servir‐se. O permitir o livre acesso às estantes (prática comum nas livrarias), é também já prática seguida por muitas bibliotecas, nomeadamente pelas bibliotecas públicas e generalistas. Não obstante, há que considerar que nem todas as pessoas que visitam ou frequentam uma biblioteca o fazem com propósitos claramente definidos. Umas preferem pesquisar por assuntos e não por títulos específicos, outras poderão optar por “varrer” as estantes e deixarem‐se surpreender pelo que encontrem. O sucesso desta prática depende não só de uma adequada planificação e organização do espaço, mas também do tipo de estantes e balcões utilizados, do número e dimensão das prateleiras, do uso de bancos e de material de sinalização apropriado, do estilo, da cor e da ergonomia do mobiliário selecionado. Da conjugação destes e de outros elementos resultará o tipo de ambiente criado e deste dependerá a reação do visitante.
No modo como as modernas livrarias constroem e gerem o seu espaço facilmente se detetam analogias com diferentes práticas comerciais – zonas abertas e arejadas, intercalas por “pequenas ruas e travessas” por onde as pessoas circulam livremente e descobrem por elas próprias. A disposição dos livros – nomeadamente tratando‐se de novidades – é, normalmente, feita de forma altamente sugestiva e apelativa, sempre que possível exibindo a capa, deixando esta “constantemente a falar”. Outra técnica muito adotada é a de colocar os destaques junto à área de entrada, local igualmente estratégico para a exibição de periódicos, tais como revistas e jornais.

A arrumação dos livros é da maior importância. Ao contrário do que é prática comum em muitas bibliotecas, onde não raro impera a tradicional e algo controversa Classificação Decimal Universal, as livrarias optam por “sistemas de classificação” muito básicos. Nestas, é muito comum encontrar as obras arrumadas por grandes rubricas, por categorias, como por exemplo: Arte, História, Literatura, Ciências Sociais e, dentro destas, em divisões, por subclasses; por hipótese, “Arte” desdobrando‐se em: Arquitetura, Pintura, Fotografia, Cinema... ou, ainda, noutro exemplo, “História” em: Medieval, Moderna, Contemporânea, de Portugal, universal, etc. Esta ordem das coisas não parece impedir quem procura de encontrar o que pretende. As livrarias, porventura por adotarem sistemas mais simplificados do que a generalidade das bibliotecas, encorajam muito o chamado “browsing”, o “self‐service”, o livre acesso que confere às pessoas inteira liberdade de percorrerem estantes e balcões sem constrangimentos de qualquer espécie e terem o gosto de descobrir por si próprias. A localização e a arrumação das obras nas prateleiras é também um fator determinante, pois está comprovado que a prateleira inferior, por exemplo, é particularmente esquecida e que uma disposição das obras com as lombadas alinhadas na mesma direção facilita e estimula a pesquisa. Em conclusão, parece evidente que livrarias e bibliotecas não são realidades tão afastadas e que, embora prosseguindo fins e objetivos diferentes, dada a sua natureza, partilharão, ainda assim, uma espécie de prática comum que as aproxima. Hoje em dia, conforme referido e sublinhado, o domínio de técnicas de marketing e de comunicação, de gestão de vendas, de publicidade, revela‐se fundamental quando está em causa a captação de público(s). E este é, ou deverá ser, “o” objetivo perseguido tanto por livrarias quanto por bibliotecas. Estas últimas, nomeadamente, poderão retirar importantes benefícios se estiverem atentas a determinadas práticas e experiências e procurarem conhecer o que se passa no circuito comercial livreiro. No entanto, há que ter o cuidado de não resvalar em excessos e ir demasiado longe ao procurar estabelecer o modelo, ou o conceito, de uma “biblioteca organizada como uma livraria”. A biblioteca poderá e deverá apresentar‐se como um local cativante, acolhedor, mas nunca perdendo a referência de que é acima de tudo um local de investigação, de estudo, de trabalho. Ainda que se encontrem paralelismos que permitem identificar, importar e adaptar determinadas técnicas, conceitos, ideias e experiências a que as livrarias recorrem para o domínio das bibliotecas, há que não perder de vista que uma biblioteca não é na sua essência um negócio, do mesmo modo que uma livraria não (sobre)vive facultando documentos para empréstimo e respondendo a dúvidas e questões de clientes. Ainda que ambas se constituam como entidades dinâmicas e intervenientes dentro dessa grande esfera que é o mercado ou mundo da cultura, cada qual prossegue um fim e uma missão diferente. A razão ou o objetivo último da existência da biblioteca não é o de gerar lucro, receita. Neste particular aspeto não entra em competição direta com outros intervenientes. Independentemente do número de visitas que registe, o papel primordial da biblioteca é o de encorajar e fomentar hábitos de leitura em todos os grupos e faixas etárias. Todavia, enquanto parte integrante de uma sociedade em rápida e constante mudança, é natural que nela se reflitam todo o tipo de pressões e mutações que naquela ocorrem. Nesta medida é importante e fundamental que a biblioteca colha experiências, que as avalie, pondere e as adapte da forma mais adequada às suas conveniências e circunstâncias, com o fim último de servir os propósitos da sua existência: ir ao encontro do, e servir, o público em geral.


JMG



FONTES E BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

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CABRAL, Maria Luísa (1996). Bibliotecas acesso, sempre. Lisboa: Edições Colibri.

GASCUEL, Jacqueline (1987). Um espaço para o livro: como criar, animar ou renovar uma
biblioteca. Lisboa: Publicações Dom Quixote.

JARTON, Cyril. “La librairie dans la spirale du marché”. Le monde de l’éducation, de la culture et de la formation; Nº 246 (1997), p. 57‐60.

NUNES, Luís Filipe de Abreu (1987). Como organizar uma pequena biblioteca. Lisboa: BAD.

RAYMOND, J. “Librarians have little to fear from bookstores”. Library Journal; Vol. 123, Nº 15
(1998), p. 41‐42.

SILVA GARCIA. “A arquitectura e a biblioteca”. Bibliomédia; (Mar. 1992), p. 13‐19.

THORHAUGE, Jens. “A nova biblioteca: alguns tópicos. Bibliomédia; (Out. 1998), p. 50‐54.

VENTURA, João J. B. (2002). Bibliotecas e esfera pública. Oeiras: Celta Editora.

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Vol. 96, Nº 1120 (1995), p. 21‐27.


Na Internet:
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Management of libraries and information centers. (dez. 2010) [on‐line]
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librarians from Marylaine Block, your librarian without walls [on‐line]
http://marylaine.com/exlibris/xlib43.html. [Consulta: 19 jun 2013]


2013/12/18

Peça do mês de dezembro




Gramofone
Equipamento utilizado em contexto das práticas pedagógicas ao nível de várias disciplinas, nomeadamente da Música. Um gramofone é um aparelho composto por uma base que acomoda um prato circular giratório, acionado através de uma manivela, com um pino central onde se encaixa o disco. Do lado direito, encontra-se um braço com uma agulha que permite fazer a leitura do disco. Ao girar o disco, a agulha entra em contacto com a superfície deste e faz a sua leitura. O som sai amplificado pela corneta, fundamental para emitir o som de forma clara e audível ao ser humano. Está inventariado com o número ME/400890/1 e pertence ao espólio museológico da Escola Secundária António Inácio da Cruz, em Grândola.
A história desta instituição, inaugurada em 1964, encontra-se profundamente ligada à do seu patrono, António Inácio da Cruz (1876 – 1955). Nascido em Grândola, foi um homem que se dedicou à cultura, membro da Sociedade de Geografia e autor de vários artigos e patentes. Após a morte dos pais, Inácio da Cruz deixou todo o seu legado e os seus bens à Santa Casa da Misericórdia de Grândola. Através de vontade expressa no seu testamento, pretendia integrar os seus bens numa fundação que permitisse aos estudantes mais carenciados o acesso à instrução e consequente financiamento dos estudos. Como tal, a fundação foi criada em 1956 e em 1964 foi inaugurada a Escola que ficou com a designação do seu patrono. Nesta data lançaram-se as bases de uma Escola Agroindustrial, que esteve em atividade até Novembro de 1970. Nesta altura foi criada a Escola Técnica de António Inácio da Cruz. Em Outubro de 1977, a Fundação foi extinta. No ano seguinte, todos os estabelecimentos de ensino passaram a ter a designação de Escolas Secundárias, mantendo as nomenclaturas anteriores. Desta forma chegamos à atual Escola Secundária António Inácio da Cruz.
Este aparelho tem origem no cilindro de gravação, criado por Edison. Ao inventar o disco plano em 1887, Emile Berliner desenvolveu uma máquina para a sua reprodução designada por gramofone. Este disco, com uma pista magnética em espiral, tinha maior durabilidade e capacidade e foi utilizado para a gravação e reprodução de música. A agulha do gramofone lia a informação do disco através das vibrações da pista magnética, reproduzindo-a através do amplificador cónico metálico.
O sucesso e a difusão do gramofone por todo o mundo foram imediatos. Inicialmente funcionava com um mecanismo semelhante aos dos relógios, sendo necessário movimentar manualmente uma corda, mas a partir de 1920 passou a ter um motor elétrico e um novo tipo de amplificador. Inicia-se assim uma nova fase no processo de gravação e reprodução de sons.
A sua utilização ao nível das instituições escolares permitiu igualmente uma outra dinâmica em sala de aula. A aprendizagem das línguas estrangeiras podia ser feita através da reprodução sonora facilitando o processo de ensino-aprendizagem. Para além disso, as áreas ligadas à música, dança, teatro e ginástica, adquirem um novo fôlego com a introdução deste invento.

MJS