2012/03/26

Educação de Adultos - O caso do ensino recorrente

(Imagem da capa do Curso Técnico de Secretariado - Informática para Secretariado
Ministério da Educação - Ensino Secundário recorrente por Unidades Capitalizáveis)


A educação de adultos em Portugal, tal como a conhecemos hodiernamente, é recente. Em finais de 1975, com a reestruturação dos serviços da Direcção-Geral da Educação Permanente, começa-se a definir o sistema nacional de educação de adultos, o chamado Plano de Educação de Adultos. Em 1976, a Portaria n.º 419/76, explicita, no seu preâmbulo, a nova conceção da educação:

 

“Tem-se verificado, porém, que a perspetiva adotada de encorajar um processo de aprendizagem relativamente aos adultos, que faça destes - individualmente ou em grupo - sujeitos da sua própria educação e agentes criadores de uma verdadeira cultura nacional, não se compadece com a manutenção em vigor das portarias que regulam os programas e exames da chamada ‘4ª classe para adultos’.

 

Neste sentido, não é relevante a existência de programas rígidos - contendo marcos de um saber teórico desenraizado da prática das populações. Opta-se aqui pela definição de capacidades a desenvolver e a demonstrar pelos adultos, em função das suas zonas de interesses ou de intervenção.” (Portaria n.º 419/76)

 

A Portaria acima mencionada define normas orientadoras do processo de aprendizagem e, simultaneamente, estabelece critérios da avaliação final de educação de adultos. Esta nova conceção de educação assenta na elaboração de programas intersubjetivos, ou seja, os marcos teóricos de aprendizagem devem ser canalizados para as necessidades reais da população, diremos dos interesses e aptidões a desenvolver pelas comunidades escolares.

 

Os cursos gerais de ensino secundário recorrente, por sua vez, são criados pelo Despacho nº 273/ME/92, de 10 de Novembro. Por seu turno, o Despacho n.º 41/SEED/94, de 14 de Junho, cria, em regime experimental, cursos técnicos de ensino secundário recorrente.

 

“Considerando que o Decreto-Lei nº 74/91, de 9 de Fevereiro, no artigo 10.º, determina que os planos curriculares do ensino secundário recorrente sejam estabelecidos em função das características e necessidades dos destinatários, devendo os mesmos incluir componentes de carácter regional e de natureza artística e profissional; Tendo em conta o disposto nos Despachos nºs 273/ME/92, de 10 de Novembro, e 41/SEED/94, de 14 de Junho; Assim, ao abrigo do disposto no nº 2 do artigo 8º do Decreto-Lei n.º 74/91, de 9 de Fevereiro, e no nº 8 do Despacho Normativo nº 193/91, de 5 de Setembro […].” (Portaria nº 144/98)

 

Como verificamos, a Portaria n.º 144/98 de 6 de março (D.R. Série B, n.º 55, 1998), tal como a portaria anteriormente referida, n.º 419/76, consolidam a mesma preocupação: os programas devem ser estabelecidos em função das características e necessidades dos destinatários.

 

“O ensino recorrente de adultos insere-se numa política de educação que visa permitir a frequência dos ensinos básico e secundário aos indivíduos que já não se encontram em idade escolar normal no ciclo de estudos que vão frequentar. […]. Os planos curriculares e os programas e métodos de estudo são organizados de forma diversificada, tendo em conta os grupos etários a que se destinam. O ensino recorrente faculta a obtenção de certificados e diplomas equivalentes aos do ensino regular.” (Mesquita, 2007:49)

 

Mesquita (2007:49) reforça a ideia de que os planos curriculares são organizados de forma diversificada de modo a suprimir lacunas educacionais dos grupos etários a que se destinam. Assim sendo, a pergunta urge: o que é e em que consiste o ensino de adultos, nomeadamente, o ensino recorrente?

 

O ensino recorrente correspondeu a uma vertente da educação de adultos, em contexto escolar, proporcionando uma segunda oportunidade de formação que permita conciliar a frequência de estudos com uma atividade profissional, compreendendo cursos científico-humanísticos. Os cursos organizam-se por disciplina, em regime modular (três módulos capitalizáveis por ano), segundo um referencial de três anos, e podem ser frequentados nas modalidades (i) presencial e (ii) não presencial.[1]

 

“Verificamos que no ensino recorrente, devido à especificidade dos seus alunos, na maioria trabalhadores estudantes, haveria necessidade de se implementar um espaço alternativo de discussão. Este serviria de prolongamento do espaço físico da sala de aula. Aqui, os alunos, moderados pelo professor, sempre que necessário, podem tecer comentários, tirar dúvidas e esclarecerem-se uns aos outros. Isto é, contribuem, em conjunto, para uma aprendizagem colaborativa.” (Gomes, 2006:3)

 

O público que frequentou esta modalidade de ensino foi, no entender de Gomes (2006:3) um estrato específico de alunos, tornando, assim, indispensável a criação de espaços e estruturas escolares alternativas que, a seu modo, primavam por um objetivo comum – a aprendizagem colaborativa.


Todos os cursos do ensino recorrente conferiam aos formandos diplomas do ensino secundário, certificavam a qualificação profissional e davam acesso a estudos de nível superior. Grosso modo, este processo educacional apresenta-se como uma modalidade especial de educação que, em termos sociais, protagonizava o acesso a direitos fundamentais de educação e cultura.

 

O ensino recorrente, nos contextos políticos de então, foi a resposta a uma realidade concreta - o insucesso escolar -, provenientes de consideráveis assimetrias sociais, que, a todo o custo convinha minimizar por vários motivos, a saber:

 

a.    Credenciar a comunidade que não usufruiu, na idade própria, da escolaridade dita “normal”;

b.    Reintegrar adultos e jovens no mundo do trabalho, através da especialização profissional;

c.    Flexibilizar e adequar vivências, necessidades, problemas e interesses de grupos sui generis;

d.    Criar condições necessárias a uma formação centrada no aluno, respeitando o seu ritmo individual de aprendizagem;

e.    Disponibilizar métodos e meios - unidades capitalizáveis (UC) - para cumprir a missão da escola e o itinerário individual de cada aluno.

 

Segundo o N.º 2, do Artigo 5 (oferta formativa) do D.R., 1.º Série, n.º 70 de abril de 2011, o ensino secundário recorrente visa proporcionar uma segunda oportunidade de formação que permita conciliar a frequência de estudos com a atividade profissional e compreende: a) cursos científicos-humanísticos, b) cursos tecnológicos e c) cursos artísticos especializados.

Estes cursos possibilitam a aquisição de conhecimentos e competências ao nível do ensino secundário, permitindo a obtenção de um certificado escolar de 12º ano  e, no caso dos cursos tecnológicos e dos cursos do ensino artístico especializado, uma qualificação profissional de nível 3. No âmbito da Reforma do ensino secundário, existiram os seguintes cursos do ensino secundário recorrente:

Cursos Científico-humanísticos:

-  Curso de Ciências e Tecnologias;

-  Curso de Ciências Socioeconómicas;

-  Curso de Ciências Sociais e Humanas;

-  Curso de Línguas e Literaturas;

-  Curso de Artes Visuais.

 

Cursos Tecnológicos

-  Curso de Construção Civil e Edificações;

-  Curso de Eletrotecnia e Eletrónica;

-  Curso de Informática;

-  Curso de Design de Equipamento;

-  Curso de Multimédia;

-  Curso de Administração;

-  Curso de Marketing;

-  Curso de Ordenamento do Território e Ambiente;

-  Curso de Ação Social;

-  Curso de Desporto.

 

Cursos Artísticos Especializados

-  Curso de Comunicação Audiovisual;

-  Curso de Design de Comunicação;

-  Curso de Design de Produto;

-  Curso de Produção Artística.

Como verificamos, a modalidade de opções de ensino é englobante e os seus destinatários não são menos abrangentes. Segundo o Relatório de base de Portugal (OCDE, 2003:16) esta modalidade de ensino:

“Destina-se à escolarização de indivíduos que já não se encontram na idade escolar normal de frequência dos ensinos básico (a partir dos 15 anos) e secundário (a partir dos 18 anos). Existe oferta de ensino recorrente para todos os níveis escolares não superiores. O ensino recorrente organiza-se segundo um plano de estudos, adequado ao nível etário a que se destina e atribui certificados e diplomas equivalentes aos conferidos pelos ensinos básico e secundário regular: certificado de iniciação profissional (nível I) e certificados de qualificação profissional (nível II e III).” (OCDE, 2003:16)

 

A abrangência deste relatório é assinalável, o ensino básico e o secundário, não obstante, existem algumas alterações políticas em todo este percurso educacional. Por conseguinte, a Portaria nº 550-E/2004, de 21 de maio, criou diversos cursos científico-humanísticos, tecnológicos e artísticos especializados e aprovou os respetivos planos de estudo, estabelecendo os princípios orientadores da organização e da gestão do currículo, bem como a avaliação e certificação dos cursos de ensino recorrente de nível secundário, nos termos estabelecidos pelo Decreto-Lei nº 74/2004, de 26 de março, retificado pela Declaração de Retificação nº 44/2004, de 25 de Maio.

 

O Decreto-Lei nº 24/2006, de 6 de fevereiro, retificado pela Declaração de Retificação nº 23/2006, de 7 de abril, introduz alterações ao Decreto-Lei nº 74/2004, de 26 de março, que importa neste momento materializar, ajustando as regras de organização, funcionamento e avaliação dos cursos do ensino recorrente de nível secundário definidos pela portaria suprarreferida.

 

Atendendo aos reajustamentos políticos da história da educação, a Secretaria-Geral do Ministério da Educação e Ciência apresenta um acervo significativo de documentos – programas escolares do ensino secundário recorrente – que, a seu modo, protagonizam e a história da educação em Portugal a partir da década de noventa. O referido fundo está disponível na interface própria do Ministério da Educação e poderá ser consultado in loco.

 

 

Bibliografia

 

DECRETO-LEI N.º 50/2011 de 8 de Abril. Diário da República, nº 70 de 8 de abril de 2011 – I Série

 

DECRETO-LEI Nº 74/2004 de 26 de março. Diário da República, nº 70 de abril de 1011 – I Série.

 

GOMES, Álvaro Manuel Maia (2006). Adaptação e implementação do Fórum Dyn3W: uma experiência na disciplina de Bases de Programação do ensino recorrente (10.º ano) [on-line]: Dissertação submetida à Faculdade de Ciências da Universidade do Porto para a obtenção do grau de Mestre em educação multimédia

<http://nautilus.fis.uc.pt/cec/teses/alvaro/tese_completa.pdf> [Consulta: fevereiro 2012]

 

MESQUITA, Maria João Silva Teixeira Guedes (2007). b-Learning no ensino secundário recorrente: uma proposta baseada na construção do conhecimento [on-line]: Dissertação apresentada à Universidade de Aveiro para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Gestão de Informação, realizada sob a orientação Dr. Luís Borges Gouveia, Professor Associado da Universidade Fernando Pessoa.

 <http://www2.ufp.pt/~lmbg/monografias/mmesquita_msc_ua07.pdf> [Consulta: fevereiro 2012]

 

OCDE (2003) Os sistemas de qualificação e do seu impacto na aprendizagem ao longo da vida : relatório de base de Portugal [on-line]: Ministério da Educação, Ministério da Segurança Social, da Família e da Criança

<http://www.oecd.org/dataoecd/17/19/33776836.pdf> [Consulta: fevereiro 2012]

 

PORTARIA Nº 144/98 de 6 de março. Diário da República, nº 55 de 6 de março de 1998 – I Série B.

 

PORTARIA Nº 419/76 de 13 de julho. Diário da República, n.º 162 de 13 de julho de 1976 – I Série.

 

 

P.M.



[1] A modalidade de frequência presencial assentava em denominadores de avaliação contínua, cuja assiduidade era pontuada para a avaliação final. A outra modalidade, a não presencial, dava aos alunos autonomia de aprendizagem, sendo que os alunos realizavam provas de avaliação em datas predeterminadas.

 

2012/03/13

Peça do mês de Março



Peça de Carpintaria

 

Trabalho prático realizado por alunos no âmbito da disciplina de Marcenaria. Trata-se de uma miniatura de uma mesa de carpinteiro com utensílios e ferramentas, típicas de uma carpintaria, de grande pormenor e realismo. Data da década de 60/ 70 do século XX.

Pertence à Escola Secundária Tomás Cabreira, com o número de inventário ME/400476/117

A Escola Comercial de Tomás Cabreira foi criada em 1921, resultando da nova designação dada à Escola Comercial de Faro, estabelecida em 1818. Em 1930, através da fusão da Escola das Artes e Ofícios Pedro Nunes e da Escola Comercial de Tomás Cabreira, foi criada uma só instituição denominada Escola Comercial e Industrial de Tomás Cabreira. Em 1951, esta última fundiu-se com a Escola Técnica Elementar Serpa Pinto, dando origem à Escola Comercial e Industrial de Faro. Em 1979, passou a ter a designação pela qual é hoje conhecida, Escola Secundária de Tomás Cabreira.

Tratando-se de uma Escola Comercial e Industrial, eram lecionados vários cursos de caráter técnico, como é o caso de Serralheiro, Contador-Eletricista, Carpinteiro-Marceneiro, Comércio e Formação Feminina.

A peça apresentada faz parte do espólio museológico da Escola e é significativa do trabalho desenvolvido pelos seus alunos, que conseguiram aliar a criatividade ao conhecimento da perspetiva e ao domínio técnico. Numa junção do trabalho artesanal e industrial, o marceneiro e as peças por ele produzidas transformam a madeira em algo de único, como é o caso desta maquete

 

Bibliografia e informação adicional:

http://museuestc.no.sapo.pt/


 Para consultar a história da Escola Secundária Tomás Cabreira:

 

http://www.estc.pt.vu/

http://estc3.no.sapo.pt/documentos/cronologia-e-patronos/H_crono.htm

http://www.esec-tomas-cabreira.rcts.pt/aaaetc/indexjornal.htm


MJS


2012/03/09

"Mãos que prestam" - Curso de Economia Doméstica

 

(Imagem do livro Mãos que Prestam onde é possível visualizar duas mulheres que cozinham e que cuidam das crianças)

“Com este livro, esperamos oferecer à Rapariga Portuguesa, em especial à Aluna das Escolas Comerciais e Industriais, um guia de bom-senso. À professora, um apoio e um auxiliar.” (Silva & Buescu, s.d.:6)

 

Um verdadeiro manual para a futura “dona de casa” que se quer prendada, diríamos no mínimo, hoje, ao folhearmos Mãos que prestam, uma edição da Porto Editora, dos anos sessenta, outrora pertença da Biblioteca e Museu do Ensino Primário e que integra, atualmente, a coleção de Manuais Escolares da Secretaria-Geral do Ministério da Educação e Ciência. O livro, melhor, o manual que ora damos a conhecer – pois de verdadeiro manual se trata – dirige-se às raparigas dos Cursos de Formação Feminina; Geral do Comércio e Auxiliar de Laboratório Químico e custava, à época, a quantia de “Preço: 45$00”.

 

As autoras (Maria da Conceição Tavares da Silva e Maria Leonor Buescu) esmeraram-se por, fiéis aos cânones do tempo, seguir a fiel doutrina de – conforme referem no texto preambular: “[…] formar a Mulher de Hoje, diferente da de Ontem – unicamente votada às tarefas do Lar e da Maternidade – a qual, sem deixar de ser Esposa e Mãe, é também Profissional e Cidadã.” De início, fica de imediato sublinhado que o livro é “dedicado à geração da Mulher do Futuro” e pretende:

 

“[…] sistematizar um conjunto de conhecimentos práticos que, empiricamente adquiridos, exigiriam tempo e esforço que o ritmo da vida moderna, em muitos casos, recusa; coordenar um certo número de noções de ordem prática com princípios de ordem moral e, desse modo, espiritualizar, por assim dizer, as tarefas tantas vezes reduzidas pela rotina à monotonia e votadas ao desinteresse […]” (Silva & Buescu, s.d.:6)

 

 

  

(Capa do livro Mãos que Prestam. Curso de Economia Doméstica)

 

 

O próprio título é, em si mesmo, bastante claro e sugestivo. Pretende-se formar e educar futuras boas esposas e mães, verdadeiras “fadas do lar”, hábeis e desembaraçadas, capazes de cuidar da família com verdadeira dedicação e afinco, aprimoradas em tudo o que concerne ao Lar.

 Caso dúvidas houvesse, atente-se, a título de exemplo, no seguinte:


Programa do 1.º ANO

 

INTRODUÇÃO: Objecto e finalidade da Economia Doméstica. A boa dona de casa; sua influência nas condições económicas e morais da Família.

 

O VESTUÁRIO: Características de um vestuário saudável, económico e elegante. Arranjo e limpeza das roupas interiores e exteriores. Lavar e passar a ferro roupas de casa e interiores. Sabões, lixívias e outras substâncias desengordurantes. Passajar, remendar, apanhar malhas. Limpeza e conservação do calçado.

 

PRÁTICAS DE CULINÁRIA: Arranjo, limpeza e disposição dos utensílios de cozinha. Lavagem de loiças. Os combustíveis, seu estudo económico.

(Diário do Governo, n.º 8, 1.ª Série, de 12 de Janeiro de 1962).

Nada é descurado ou ficará por abordar – as “Práticas de Culinária”; o “Arranjo da Mesa”; a “Arte Doméstica” e “O Governo da Casa”, serão matérias abordadas nos dois anos seguintes. Deste modo, pretende-se que ao longo de três anos nada fique por ensinar à futura Mulher: Profissional, Esposa e Mãe. Nestas condições, e nas palavras das autoras, pretende-se oferecer à Rapariga Portuguesa “um guia de bom-senso. À Professora, um apoio e um auxiliar”.


O livro, na sua condição de manual, apresenta-se claramente estruturado, profusamente ilustrado, enumerando de modo claro, sistemático e exemplificativo os diversos itens e assuntos abordados ao longo das páginas.

 

A questão da instrução e da educação das mulheres, ou da educação feminina, e o estatuto da Mulher na sociedade é um assunto importante, amplamente debatido, porventura inserido no centro de um debate mais alargado em que o peso das tradições, e mesmo dos preconceitos, pode gerar alguma tensão e oposições. Normalmente, o eixo da controvérsia situa-se no suposto princípio de igualdade entre os sexos e na questão da liberdade e igualdade de direitos e deveres.

 

(Três imagens do livro Mãos que Prestam
- no canto superior esquerdo, 2.ª feira - barrela, com a imagem de uma mulher a lavar a roupa;
- no lado direito, 3.ª feira - remendar, com a imagem de uma mulher a costurar à mão;
- no canto inferior esquerdo, 4.ª feira - passar a ferro, com a imagem de uma mulher a passar a ferro.)

 

Se hoje nos parece, à luz dos nossos parâmetros, no mínimo, caricato e exagerado é preciso situar a obra no devido contexto histórico. Na altura em que é editado, Portugal vivia ainda sob o regime do Estado Novo, período durante o qual a educação e a instrução da Mulher eram definidas e orientadas em moldes muito limitados e controlados. Nascida e criada num ambiente familiar, era dentro de casa que a maioria das raparigas tomava a sua instrução, as mais das vezes fortemente centrada nos valores religiosos e morais apregoados pelo regime, sendo a instrução elementar e a educação familiar voltada para a preparação e realização das atividades domésticas e pouco mais. A ausência do lar da mãe para trabalhar, não era bem vista. Não esqueçamos igualmente que, por esta mesma altura, o ensino ministrado separava ainda os sexos e a sociedade – moralista e conservadora – tinha bem definido quais os papéis atribuídos ao homem e à mulher. A conceção católica do matrimónio aliada a uma imagética multissecular e conservadora conduz ao protótipo da imagem que se quer da mulher: feminina, recatada e pudica, mãe extremosa e companheira fiel e diligente.

 

“Na divisão das funções entre os cônjuges, a economia doméstica é reservada à mulher. Ela deverá ocupar-se das coisas da casa, da limpeza, da alimentação, do vestuário e da própria educação dos filhos. Tudo isto sob o signo da poupança e moderação no gasto.” (Reis, 1990:367)

 

Ao homem, ao “chefe de família” (na nomenclatura da época) caberia a responsabilidade de trabalhar fora do lar para prover ao sustento e manutenção material, ao passo que a sua companheira olhava pela economia caseira. Esta situação tradicionalíssima e multisecular, representa o perpetuar de um imaginário que materializa na mulher a representação da mãe cuidadosa e da governanta atenta que se esforça, ela própria, por assegurar o bem-estar da rotina quotidiana e o bom curso da maioria das tarefas domésticas.


(Imagem do livro Mãos que Prestam onde é possível visualizar a organização das peças de roupa em várias bolsas para lenços e meias, por exemplo)


 Entre outras, e em Portugal, em meados do século passado, são igualmente publicadas revistas (“Modas e Bordados”; “Menina e Moça”; “Eva”, etc.) que se destinam a um público claramente feminino e que propagam o retrato da “mulher ideal”. Dela se espera uma posição de recato, de apagamento, de servilidade. A literatura que se publica, escrita na sua maioria por homens, assim sugere e exemplifica.

 

A partir dos anos setenta, a sociedade de consumo ocidental que começou a desenhar-se no pós-guerra, começa a dar sinais de mudança.

 

“O novo regime do trabalho doméstico, não necessitando já de uma presença permanente no lar, permitiu a disponibilização quotidiana de uma força de trabalho feminina para a produção extradoméstica de bens e serviços. Este novo regime apelou também para essa força de trabalho, porque um segundo salário se tornou, muitas vezes, necessário para que as famílias – e as donas de casa – pudessem ter acesso a produtos, equipamentos e serviços que substituíram, total ou parcialmente, o trabalho doméstico tradicional.” (Duby e Perrot, 1991:492)

 

Em Portugal, à semelhança de outros países ocidentais, só a partir das décadas de setenta e oitenta, após a implantação do regime democrático, se começa a registar alguma (lenta e progressiva) abertura para a libertação doméstica da mulher. Para tanto, muito contribuiu o aperfeiçoamento e a divulgação de produtos e aparelhos auxiliares nas tarefas domésticas e a possibilidade de vir a adquirir fora progressivo número de tarefas e serviços, como a confeção de vestuário e a preparação ou o serviço de refeições. Nos grandes meios urbanos litorais, estendendo-se progressivamente ao interior, as mulheres passam a desempenhar novas funções e a ocupar postos de trabalho, outrora nas mãos de homens. Lenta, e progressivamente, a sociedade começa a mudar…

 

JMG

 

  

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

 

DUBY, Georges & PERROT, Michelle (1991). História das mulheres no Ocidente (Vol. 5). Lisboa: Afrontamento.

 

MIALARET, Gaston & VIAL, Jean. (s.d.). História mundial da educação (Vol. 3). Porto: Rés-Editora.

 

REIS, António (1990). Portugal contemporâneo (Vol. 4). Lisboa: Alfa.

 

SERRÃO, Joel & MARQUES, A.H. de Oliveira (1992). Nova história de Portugal (Vol. 12). Lisboa: Presença.

 

SILVA, Maria Lucinda Tavares da & BUESCU, Maria Leonor (s.d.). «Mãos que prestam» : curso de economia doméstica. Porto: Porto Editora ; Lisboa: Emp. Lit. Fluminense.

 

2012/02/28

COSTA, António da, Necessidade de um Ministério de Instrução Pública. Lisboa: Imprensa Nacional, 1868


(Capa da obra Necessidade de um Ministério de Instrução Pública por D. António da Costa, Lisboa, Imprensa Nacional, 1868)



Até meados do século XIX não existia, na estrutura governativa portuguesa, um ministério específico para os assuntos educativos. Estes eram tratados no âmbito daquilo que D. António da Costa designa, nas primeiras linhas deste seu texto, por «um estado dentro do estado»: o Ministério do Reino, uma pesada estrutura governativa que tinha sob sua alçada matérias tão diversas como as obras públicas, o ensino ou os assuntos eclesiásticos.

Vários intelectuais e políticos de oitocentos chamam repetidamente a atenção para a inoperância de um ministério com um leque tão grande de atribuições. A partir dos anos 1850, com a subida ao poder do Marechal Saldanha, este ministério começa, efetivamente, a ser objeto de alguma reorganização.

A primeira importante medida foi a criação de um «Ministério das Obras Públicas», autonomizando assim o tratamento das questões relativas à construção de infraestruturas consideradas, então, da maior urgência. À frente deste ministério estará Fontes Pereira de Melo, político que confere um impulso decisivo à construção de estradas e caminhos-de-ferro, ao desenvolvimento de redes de transportes e comunicações, e à modernização de infraestruturas no campo industrial.


(Aguarela de Roque Gameiro representando a inauguração da primeira linha de caminho-de-ferro em Portugal)


A década de 1850 marca o início deste processo. A 28 de Outubro de 1856 é inaugurada, com pompa e aparato, a primeira linha de caminho-de-ferro em Portugal, numa cerimónia representada numa célebre aguarela de Roque Gameiro (aqui reproduzida).

Já no final da década, em 1859, o Ministério do Reino conhece uma reorganização que incluiu a sua subdivisão em três Direções, uma das quais a «Direção-Geral da Instrução Pública». Quando D. António da Costa escreve este seu texto sobre a necessidade de um ministério da instrução pública, em 1868, decorrem portanto quase 10 anos sobre esta reorganização que dá origem a uma estrutura institucional própria para a instrução, embora ainda não autónoma.


(Desenho representando D. António da Costa)


Sobrinho do Duque de Saldanha, grande admirador da obra da Regeneração e, em particular, de Fontes Pereira de Melo, político que considerava notável, António da Costa empenhou-se fortemente da defesa da instrução pública, tendo sobre esse assunto feito diversas intervenções enquanto deputado às cortes.

Considerando-se um progressista, pertencia a um grupo de parlamentares que defendia uma maior intervenção do Estado na educação, nomeadamente para fazer chegar a instrução às chamadas «classes populares», que dela estavam então totalmente arredadas.

A ideia da autonomização de uma estrutura governativa para as questões da instrução foi tendo vários defensores para além dele. Em 1860, Antero de Quental lamenta a inexistência de um ministério da instrução afirmando que ela é uma das causas “do menosprezo e quase aversão que entre nós sofrem letras e ciências”. Desta inexistência decorriam dificuldades e entraves vários, geradores de dispersão e desordenamento burocrático. Para além disso, era manifesta a necessidade de afetação de um orçamento próprio à educação, retirando-o, como diz D. António da Costa neste texto, “do ministério que tem a seu cargo a política interna, com todas as complicações eleitorais e locais”.


(Primeira página do Capítulo I da obra Necessidade de um Ministério de Instrução Pública por D. António da Costa, Lisboa, Imprensa Nacional, 1868)

António da Costa refere ainda uma proposta do então ministro da Marinha, José Maria Latino Coelho, de “conversão da Direção-Geral de Instrução Pública num ministério gerido cumulativamente com alguns dos outros ministérios”. Considera esta ideia interessante, mas insuficiente, propondo-se “ir mais adiante, pedindo um ministério de instrução pública independente” (pp. 6-7). E fundamenta este seu ‘pedido’ através de uma análise que faz da situação portuguesa. Como refere na conclusão, Portugal é nesta altura “um país que de 750.000 crianças de sete a quinze anos de idade tem fora da instrução 650.000”, o que correspondia a uma taxa de escolarização baixíssima, sendo “a média de crianças do sexo masculino de 3 para 100, e do sexo feminino de 1 para 100” (p. 13).

Os argumentos de natureza estatística são cruciais nesta época. É na década 60 do século XIX que se elaboram e se publicam as primeiras estatísticas sobre educação em Portugal, acompanhando uma tendência internacional que se vinha a consolidar.

Assiste-se, nesta altura, ao início do que hoje designamos por abordagens comparatistas; isto é, aos primeiros levantamentos estatísticos da situação educativa em vários países, colocando lado a lado indicadores numéricos que evidenciam as diferenças entre nações com taxas de alfabetização mais fortes (maioritariamente na europa central e do norte) e países com populações menos alfabetizadas, predominantes na europa mediterrânica.

Em Portugal, por volta de 1870 as taxas de escolarização seriam pouco superiores a 10 % da população em idade escolar. Estávamos, então, como refere António Nóvoa (p. 25) muito longe dos países mais próximos (30 % em Itália ou 40 % em Espanha) e a uma enorme distância dos países mais longínquos (60 % na Noruega ou 70 % na Suécia).

Indicadores deste tipo começam, então, a exercer uma significativa pressão sobre as classes dirigentes. É de registar a coincidência entre o facto de D. António da Costa ter sido o primeiro responsável por um ministério da instrução, e ter sido, também, um dos introdutores do trabalho estatístico no nosso país (Nóvoa, p. 37).

O seu interesse por este tipo de trabalhos manifestara-se já vários anos antes quando publica, em 1855, um trabalho intitulado Estatística do distrito administrativo de Leiria, que compreendia entre outros, indicadores relativos à instrução. E neste manifesto sobre a necessidade de um ministério da instrução, de 1868, apresenta elementos que irão surgir detalhadamente na sua obra de maior fôlego, A Instrução Nacional, que publica em 1870, e na qual traça um diagnóstico minucioso relativamente à situação do país.






(Páginas 256 e 257 da obra Necessidade de um Ministério de Instrução Pública por D. António da Costa, Lisboa, Imprensa Nacional, 1968)


Nas duas páginas dessa obra que aqui reproduzimos, pode ver-se um quadro com «Número de alunos da instrução primária» em diversos países (p. 256) e, logo de seguida, o “Número de habitantes das mesmas nações” (p. 257) oferecendo, deste modo um pouco incipiente, os elementos para que o leitor deduzisse as taxas de escolarização.

A pressão comparatista com países que se começam a perfilar como mais desenvolvidos em matéria educativa faz-se sentir com especial relevo nesta época, e António da Costa conclui deste modo a respeito da situação portuguesa em 1868:

«Um país que no século XX não possui uma só cadeira de ensino primário superior nem profissional, que nas próprias escolas elementares desconhece a educação física, o desenvolvimento intelectual e, pode-se dizer, a educação moral, que não organizou ainda a instrução primária na base indispensável da localidade, que não tem senão 331 cadeiras para o sexo feminino […] que não tem bibliotecas populares, que não ensina ao povo nem desenho nem canto, nem princípios de agricultura e de indústria, um país cujo magistério primário morre de fome, sem carreira gradual que lhe abra o incentivo do futuro […] um país nestas circunstâncias não é um país europeu, digamo-lo com profundo desgosto, é um país semi-bárbaro». (p. 14).

Infelizmente, a criação deste Ministério da Instrução em 1870 foi efémera. António da Costa é substituído, ainda nesse ano, por Carlos Bento da Costa, que faz uma passagem breve entre 30 de agosto e 1 de setembro, sendo a pasta seguidamente assegurada por D. António Alves Martins, Bispo de Viseu, até finais de dezembro.

No início da década de 1890 assiste-se a um novo esforço de criação de uma estrutura ministerial, desta vez com o nome de «Ministério da Instrução Pública e Belas Artes», que terá por primeiro responsável João Arroio (entre 5 de abril e 13 de outubro de 1890). Com uma longevidade ligeiramente maior que o anterior, este ministério existirá até 1892, conhecendo ao todo quatro dirigentes.

Só em 1913, no âmbito das reformas republicanas, será criado um Ministério que consegue ultrapassar o patamar do efémero e persistir, com diversas designações e orientações, até aos dias de hoje. Estamos, portanto, nas vésperas do seu centenário!

 

 

TSC

 

 

Bibliografia

ADÃO, Áurea e GONÇALVES, Maria Neves (2007) – Instrução Pública no Portugal de Oitocentos. Da administração centralizada à gestão periférica. Lisboa: Livros Horizonte.

ARAÚJO, Helena (2003). “Costa, António da”, in António Nóvoa (Dir.), Dicionário de Educadores Portugueses, Porto: ASA, 418-421.

NÓVOA, António (2005). Evidentemente: histórias da educação. Porto: ASA.

RAMOS, Rui (1988) – Culturas de alfabetização e cultura do analfabetismo em Portugal: uma introdução à História da Alfabetização no Portugal contemporâneo. Análise Social, vol. XXIV (103-104), pp. 1060-1145.

RAMOS, Rui, (1989) “O sistema fontista”, in António Reis (Dir.), Portugal Contemporâneo, vol. 2, Lisboa, Publicações Alfa, pp. 129-130.

SANTOS, Maria de Lourdes Costa Lima dos (1988), Intelectuais Portugueses na primeira metade de Oitocentos. Lisboa: Editorial Presença.

SARDICA, José Miguel (1994) “A elite política do ministério da Regeneração (1851-1856)”, in História, n.° 3, Lisboa, Dezembro de 1994, pp. 46-47.

TELO, António José (1993) “O modelo político e económico da Regeneração e do fontismo (1851-1890)” in João Medina (Dir.), História de Portugal, vol. IX: A monarquia constitucional, Lisboa: Ediclube, pp. 14-50.

 

2012/02/13

Peça do mês de Fevereiro


Escultura/Busto

 

Busto da República elaborado em gesso pintado. A escultura representa uma figura feminina com cabelos longos caídos sobre os ombros, envergando na cabeça o barrete frígio. Tem um dos ombros descobertos e na zona do peito tem gravadas as armas de Portugal. Está pintado em tons de bronze, com traço bastante delicado.

O busto pertence ao espólio museológico da Escola Secundária David Mourão-Ferreira, Lisboa, com o número de inventário ME/ESDMF/276. Este espólio foi doado pela Direção Regional de Educação de Lisboa e Vale do Tejo (DRELVT) à Secretaria-geral e reveste-se de grande importância, uma vez que incorpora objetos provenientes das Escolas Secundárias Dona Maria I e Veiga Beirão, extintas em 1997. Na origem da Escola Comercial D. Maria I, designação de 1948, está a Escola Comercial Rodrigues Sampaio. Desta forma, embora o busto possua um número de inventário da Escola Secundária D. Maria I, poderá ter transitado da sua antecessora, Rodrigues Sampaio.

A imagem da República personifica o regime republicano e é representada, iconograficamente, por uma mulher, com um barrete frígio, inspirada na pintura de Eugène Delacroix. Em Portugal foi adotada como símbolo a partir da implantação da República, a 5 de Outubro de 1910, seguindo os modelos existentes. A partir de 1911, Simões de Almeida esculpe uma imagem da república que se torna oficial, inspirada em Ilda Pulga. Passou a ser utilizada como efígie nas moedas e colocada em todos os edifícios públicos.

Este busto apresenta uma particularidade que se deve ao facto de possuir as armas de Portugal na sua roupa, os cinco escudos e as cinco quinas, e de estar gravada a data de 1288 no verso.

 

Bibliografia e informação adicional:

 

http://projectobame.blogspot.com/2010/09/espolio-da-escola-secundaria-david.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ef%C3%ADgie_da_Rep%C3%BAblica

http://chaodeareia.agcolares.org/2010/02/vale-a-pena-conhecer-a-historia-do-busto-da-republica-ilga-pulga/

http://artes-vivas-index3.blogspot.com/2010/07/os-bustos-da-republica.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Implanta%C3%A7%C3%A3o_da_Rep%C3%BAblica_Portuguesa

http://centenariorepublica.pt/

http://www.museu.presidencia.pt/expo_geral.php?id=2

 

MJS