Mostrar mensagens com a etiqueta Património Bibliográfico. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Património Bibliográfico. Mostrar todas as mensagens

2012/06/20

Tratamento documental de manuais escolares - Os pressupostos adotados pela Direção de Serviços de Documentação e de Arquivo do Ministério de Educação e Ciência


(Imagem de vários livros abertos e sobrepostos)

 

A Lei n.º 47/2006 de 28 de Agosto, alínea b, artigo 3.º descreve o manual escolar como um recurso didático-pedagógico relevante, ainda que não exclusivo, do processo de ensino e aprendizagem, concebido por ano ou ciclo. Constitui um instrumento de apoio ao trabalho autónomo do aluno que visa contribuir para o desenvolvimento das competências e das aprendizagens definidas no currículo nacional para o ensino básico e para o ensino secundário, apresentando informação correspondente aos conteúdos nucleares dos programas em vigor, bem como propostas de atividades didáticas e de avaliação das aprendizagens, podendo incluir orientações de trabalho para o professor.

 

“O manual escolar desempenha uma função central no processo educativo, quer pelo seu papel de mediador entre o currículo prescrito e o currículo programado e planificado, quer pela sua função de legitimação cultural que veicula uma dada informação […].”(Viseu, 2009:3178)

 

A par da referida lei, Viseu (2009:3178) sublinha que a essência do manual escolar restringe-se a processos educativos e, acima de tudo, é o mediador entre a lei e a informação. A Secretaria-Geral do Ministério da Educação e Ciência, nomeadamente, a Direção de Serviços de Documentação e Arquivo (DSDA), reconhece a importância da gestão do património bibliográfico, arquivístico e museológico da educação (BAME) que se encontra à sua guarda.

 

Tecnicamente, este património tem vindo a ser tratado de uma forma integrada, ou seja, cada tipologia documental é perspetivada no seu espaço sociocultural e, desta forma, tratado numa conjetura recíproca - o manual escolar não é perspetivado per si mas em correlação com os fundos documentais existentes – tendência biblioteconómica à qual as regras de catalogação estão a dar alguma importância, sobretudo as ISBD(A).[1]

 

Todos os fundos documentais existentes na DSDA possuem manuais escolares, não obstante, esta documentação mantém-se integrada nos espólios respetivos, o que facilita as pesquisas browsing e, acima de tudo, respeita a integridade da documentação (i.e. reconstrução de coleções, fundos, estudos locais, personalidades, etc.). Destacam-se os seguintes fundos detentores de manuais escolares:

§  Bibliotecas e Museu do Ensino Primário;

§  Ministério da Instrução Pública;

§  Grupo de Trabalho do M.E. para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses;

§  Construções Escolares;

§  Gabinete de Estudos e Planeamento;

§  Bibliotecas populares;

§  Fundo Geral;

§  António Ginestal Machado;

§  Faria Vasconcelos;

§  José Baptista Martins;

§  Escola Ferreira Borges;

§  Escola Marquesa de Alorna;

§  Escola Rodrigues Sampaio;

§  Escolas Secundária David Mourão Ferreira;

§  Instituto António Aurélio da costa Ferreira.

 

Atendendo à necessidade de reintegrar os manuais escolares no contexto da história da educação, a DSDA adota uma definição formal para o tratamento documental desta documentação:

 

“Adotámos a designação de ‘manual escolar’ porque se trata de livros manuseáveis […], albergam saberes básicos essenciais e porque esses saberes que se transmitem nos manuais são parte de uma matéria ou disciplina do currículo escolar.” (Santos, 2006)

 

A definição anterior remete para o conceito de manual escolar enquanto conteúdo, embora existam várias formas para estudar este material didático na perspetiva catalográfica:

§  Antologias - coleção de trabalhos escolares (compêndio);

§  Guia do professor;

§  Guia do aluno;

§  Literatura adjuvante (ex.: silabários, atas escolares, etc.);

§  Estudos de caso – estudos específicos sobre educação.

 

O conceito de manual escolar, em si mesmo, poderá apresentar uma aceção restrita ou lata. Segundo entendemos, a noção conveniente às boas práticas BAME deverá ser abrangente às cinco alíneas anteriores. Esta prática apresenta resultados tanto ao nível da catalogação como da indexação, classificação e pesquisa final.

 

Este património bibliográfico, como o entende a DSDA, tem uma dimensão museológica, não só devido às suas encadernações, design, formato, mas também devido às suas ilustrações. Destacamos, assim, alguns artistas de renome que ilustraram os manuais escolares portugueses, tais como Almada Negreiros, Dário Sousa Rodil, Calvet de Magalhães, Raquel Roque Gameiro, etc.

 

Todos estes elementos são objeto de estudo, na verdade, a DSDA detém uma Biblioteca Histórica da Educação que visa a excelência no tratamento e, consequentemente, na sua disseminação. Como tal, todos os dados referentes a notas gerais (i.e. portarias, adendas, etc.), ilustradores e coautores não são omissos.

 

Nesta linha de exegese, a própria classificação e/ou indexação dos manuais escolares obedece a regras estritamente rígidas; as notações seguem a seguinte hierarquia semântica:

1.        Área do conhecimento;

2.        Tipologia;

3.        Grau de ensino;

4.        Nome geográfico (usado como assunto).

 

Esta classificação pré-coordenada ajudar-nos-á a cruzar pesquisas entre os diversos descritores (Thesaurus Europeu do Sistema Educativo).

 

 

BIBLIOGRAFIA  RECOMENDADA:

 

CARVALHO, Maria da Graça Serreira pena (2010). O manual escolar como objecto de design [on-line]: Tese apresentada às Faculdade de Auquitectura da Universidade Técnica de Lisboa para a obtenção do grau de Doutor em design

<http://www.repository.utl.pt/bitstream/10400.5/2791/1/Tese%20vol.1%20CD.pdf> [Consulta: maio 2012

 

 

COSTA, Fernando Monteiro da (2010). Da Capo al Coda, manualística de Educação Musical em Portugal (1967-2004): configurações, funções, organização [on-line]: Tese de doutoramento em História, Faculdade de Letras Universidade do Porto, 2010

<http://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/51228/2/tesedoutfernandocosta000116641.pdf> [Consulta: maio 20129

 

 

MAGALHÃES, Justino (2006). O manual escolar no quadro da história cultural, para uma historiografia do manual escolar em Portugal [on-line]:  Sísifo. Revista de Ciências da Educação; Vol. 1 (2006), p. 5-14

<http://sisifo.fpce.ul.pt/pdfs/01-Justino.pdf> [Consulta: Maio 2012]

 

 

PANEK, Bernadette (2006). Livro de artista: uma integração entre poetas e artistas [on-line]: Anais, IV Fórum de pesquisa científica em arte, Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Curitiba, 2006

<http://www.embap.pr.gov.br/arquivos/File/anais4/bernadette_panek.pdf> [Consulta: maio 2012

 

 

RIBEIRO, Ângelo (2005). A imagem da imagem da obra de arte no uso dos manuais de Educação Visual [on-line]: Tese de Mestrado Educação, Tecnologia Educativa, Julho 2005

http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/3961/1/A%20imagem%20da%20imagem%20da%20arte%20no%20uso%20dos%20manuais%20de%20Educa%C3%A7%C3%A3o%20Vi.pdf > [Consulta: maio 2012]

 

 

SANTO, Esmeralda Maria (2006). Os manuais escolares, a construção de saberes e a autonomia do aluno, auscultação a alunos e professores [on-line]: Revista Lusófona de Educação; Vol. 8 (2006), p. 103-115

<http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/rle/n8/n8a07.pdf> [Consulta: maio 2012]

 

 

SANTO, Esmeralda Maria (2006). “Os manuais escolares, a construção de saberes e a autonomia do aluno : auscultação a alunos e professores “[on-line]: Revista Lusófona de Educação; N.º 8 (2006), p. 103-115

< http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/rle/n8/n8a07.pdf> [Consulta: junho 2012]

 

 

VISEU, Floriano (2009). O manual escolar na prática docente do professor de matemática [on-line]: Actas do X Congresso Internacional Galego Português de Psicopedagogia. Braga: Universidade do Minho, 2009

 

 

PM

 



[1] International Standard Bibliographic Description for Older Monographic Publications (Antiquarian).


2012/02/28

COSTA, António da, Necessidade de um Ministério de Instrução Pública. Lisboa: Imprensa Nacional, 1868


(Capa da obra Necessidade de um Ministério de Instrução Pública por D. António da Costa, Lisboa, Imprensa Nacional, 1868)



Até meados do século XIX não existia, na estrutura governativa portuguesa, um ministério específico para os assuntos educativos. Estes eram tratados no âmbito daquilo que D. António da Costa designa, nas primeiras linhas deste seu texto, por «um estado dentro do estado»: o Ministério do Reino, uma pesada estrutura governativa que tinha sob sua alçada matérias tão diversas como as obras públicas, o ensino ou os assuntos eclesiásticos.

Vários intelectuais e políticos de oitocentos chamam repetidamente a atenção para a inoperância de um ministério com um leque tão grande de atribuições. A partir dos anos 1850, com a subida ao poder do Marechal Saldanha, este ministério começa, efetivamente, a ser objeto de alguma reorganização.

A primeira importante medida foi a criação de um «Ministério das Obras Públicas», autonomizando assim o tratamento das questões relativas à construção de infraestruturas consideradas, então, da maior urgência. À frente deste ministério estará Fontes Pereira de Melo, político que confere um impulso decisivo à construção de estradas e caminhos-de-ferro, ao desenvolvimento de redes de transportes e comunicações, e à modernização de infraestruturas no campo industrial.


(Aguarela de Roque Gameiro representando a inauguração da primeira linha de caminho-de-ferro em Portugal)


A década de 1850 marca o início deste processo. A 28 de Outubro de 1856 é inaugurada, com pompa e aparato, a primeira linha de caminho-de-ferro em Portugal, numa cerimónia representada numa célebre aguarela de Roque Gameiro (aqui reproduzida).

Já no final da década, em 1859, o Ministério do Reino conhece uma reorganização que incluiu a sua subdivisão em três Direções, uma das quais a «Direção-Geral da Instrução Pública». Quando D. António da Costa escreve este seu texto sobre a necessidade de um ministério da instrução pública, em 1868, decorrem portanto quase 10 anos sobre esta reorganização que dá origem a uma estrutura institucional própria para a instrução, embora ainda não autónoma.


(Desenho representando D. António da Costa)


Sobrinho do Duque de Saldanha, grande admirador da obra da Regeneração e, em particular, de Fontes Pereira de Melo, político que considerava notável, António da Costa empenhou-se fortemente da defesa da instrução pública, tendo sobre esse assunto feito diversas intervenções enquanto deputado às cortes.

Considerando-se um progressista, pertencia a um grupo de parlamentares que defendia uma maior intervenção do Estado na educação, nomeadamente para fazer chegar a instrução às chamadas «classes populares», que dela estavam então totalmente arredadas.

A ideia da autonomização de uma estrutura governativa para as questões da instrução foi tendo vários defensores para além dele. Em 1860, Antero de Quental lamenta a inexistência de um ministério da instrução afirmando que ela é uma das causas “do menosprezo e quase aversão que entre nós sofrem letras e ciências”. Desta inexistência decorriam dificuldades e entraves vários, geradores de dispersão e desordenamento burocrático. Para além disso, era manifesta a necessidade de afetação de um orçamento próprio à educação, retirando-o, como diz D. António da Costa neste texto, “do ministério que tem a seu cargo a política interna, com todas as complicações eleitorais e locais”.


(Primeira página do Capítulo I da obra Necessidade de um Ministério de Instrução Pública por D. António da Costa, Lisboa, Imprensa Nacional, 1868)

António da Costa refere ainda uma proposta do então ministro da Marinha, José Maria Latino Coelho, de “conversão da Direção-Geral de Instrução Pública num ministério gerido cumulativamente com alguns dos outros ministérios”. Considera esta ideia interessante, mas insuficiente, propondo-se “ir mais adiante, pedindo um ministério de instrução pública independente” (pp. 6-7). E fundamenta este seu ‘pedido’ através de uma análise que faz da situação portuguesa. Como refere na conclusão, Portugal é nesta altura “um país que de 750.000 crianças de sete a quinze anos de idade tem fora da instrução 650.000”, o que correspondia a uma taxa de escolarização baixíssima, sendo “a média de crianças do sexo masculino de 3 para 100, e do sexo feminino de 1 para 100” (p. 13).

Os argumentos de natureza estatística são cruciais nesta época. É na década 60 do século XIX que se elaboram e se publicam as primeiras estatísticas sobre educação em Portugal, acompanhando uma tendência internacional que se vinha a consolidar.

Assiste-se, nesta altura, ao início do que hoje designamos por abordagens comparatistas; isto é, aos primeiros levantamentos estatísticos da situação educativa em vários países, colocando lado a lado indicadores numéricos que evidenciam as diferenças entre nações com taxas de alfabetização mais fortes (maioritariamente na europa central e do norte) e países com populações menos alfabetizadas, predominantes na europa mediterrânica.

Em Portugal, por volta de 1870 as taxas de escolarização seriam pouco superiores a 10 % da população em idade escolar. Estávamos, então, como refere António Nóvoa (p. 25) muito longe dos países mais próximos (30 % em Itália ou 40 % em Espanha) e a uma enorme distância dos países mais longínquos (60 % na Noruega ou 70 % na Suécia).

Indicadores deste tipo começam, então, a exercer uma significativa pressão sobre as classes dirigentes. É de registar a coincidência entre o facto de D. António da Costa ter sido o primeiro responsável por um ministério da instrução, e ter sido, também, um dos introdutores do trabalho estatístico no nosso país (Nóvoa, p. 37).

O seu interesse por este tipo de trabalhos manifestara-se já vários anos antes quando publica, em 1855, um trabalho intitulado Estatística do distrito administrativo de Leiria, que compreendia entre outros, indicadores relativos à instrução. E neste manifesto sobre a necessidade de um ministério da instrução, de 1868, apresenta elementos que irão surgir detalhadamente na sua obra de maior fôlego, A Instrução Nacional, que publica em 1870, e na qual traça um diagnóstico minucioso relativamente à situação do país.






(Páginas 256 e 257 da obra Necessidade de um Ministério de Instrução Pública por D. António da Costa, Lisboa, Imprensa Nacional, 1968)


Nas duas páginas dessa obra que aqui reproduzimos, pode ver-se um quadro com «Número de alunos da instrução primária» em diversos países (p. 256) e, logo de seguida, o “Número de habitantes das mesmas nações” (p. 257) oferecendo, deste modo um pouco incipiente, os elementos para que o leitor deduzisse as taxas de escolarização.

A pressão comparatista com países que se começam a perfilar como mais desenvolvidos em matéria educativa faz-se sentir com especial relevo nesta época, e António da Costa conclui deste modo a respeito da situação portuguesa em 1868:

«Um país que no século XX não possui uma só cadeira de ensino primário superior nem profissional, que nas próprias escolas elementares desconhece a educação física, o desenvolvimento intelectual e, pode-se dizer, a educação moral, que não organizou ainda a instrução primária na base indispensável da localidade, que não tem senão 331 cadeiras para o sexo feminino […] que não tem bibliotecas populares, que não ensina ao povo nem desenho nem canto, nem princípios de agricultura e de indústria, um país cujo magistério primário morre de fome, sem carreira gradual que lhe abra o incentivo do futuro […] um país nestas circunstâncias não é um país europeu, digamo-lo com profundo desgosto, é um país semi-bárbaro». (p. 14).

Infelizmente, a criação deste Ministério da Instrução em 1870 foi efémera. António da Costa é substituído, ainda nesse ano, por Carlos Bento da Costa, que faz uma passagem breve entre 30 de agosto e 1 de setembro, sendo a pasta seguidamente assegurada por D. António Alves Martins, Bispo de Viseu, até finais de dezembro.

No início da década de 1890 assiste-se a um novo esforço de criação de uma estrutura ministerial, desta vez com o nome de «Ministério da Instrução Pública e Belas Artes», que terá por primeiro responsável João Arroio (entre 5 de abril e 13 de outubro de 1890). Com uma longevidade ligeiramente maior que o anterior, este ministério existirá até 1892, conhecendo ao todo quatro dirigentes.

Só em 1913, no âmbito das reformas republicanas, será criado um Ministério que consegue ultrapassar o patamar do efémero e persistir, com diversas designações e orientações, até aos dias de hoje. Estamos, portanto, nas vésperas do seu centenário!

 

 

TSC

 

 

Bibliografia

ADÃO, Áurea e GONÇALVES, Maria Neves (2007) – Instrução Pública no Portugal de Oitocentos. Da administração centralizada à gestão periférica. Lisboa: Livros Horizonte.

ARAÚJO, Helena (2003). “Costa, António da”, in António Nóvoa (Dir.), Dicionário de Educadores Portugueses, Porto: ASA, 418-421.

NÓVOA, António (2005). Evidentemente: histórias da educação. Porto: ASA.

RAMOS, Rui (1988) – Culturas de alfabetização e cultura do analfabetismo em Portugal: uma introdução à História da Alfabetização no Portugal contemporâneo. Análise Social, vol. XXIV (103-104), pp. 1060-1145.

RAMOS, Rui, (1989) “O sistema fontista”, in António Reis (Dir.), Portugal Contemporâneo, vol. 2, Lisboa, Publicações Alfa, pp. 129-130.

SANTOS, Maria de Lourdes Costa Lima dos (1988), Intelectuais Portugueses na primeira metade de Oitocentos. Lisboa: Editorial Presença.

SARDICA, José Miguel (1994) “A elite política do ministério da Regeneração (1851-1856)”, in História, n.° 3, Lisboa, Dezembro de 1994, pp. 46-47.

TELO, António José (1993) “O modelo político e económico da Regeneração e do fontismo (1851-1890)” in João Medina (Dir.), História de Portugal, vol. IX: A monarquia constitucional, Lisboa: Ediclube, pp. 14-50.

 

2012/02/08

"Felicidade pela Instrução"


(Capa da obra Felicidade pela Instrução: cartas a um jornal de Lisboa, António Feliciano de Castilho,  3ª ed. Lisboa: Empreza da História de Portugal, 1909.)



Nesta obra, a que dá o nome de Felicidade pela Instrução, António Feliciano de Castilho decide reunir um conjunto de textos que foi escrevendo ao longo da década de 50 do século XIX.

Muitos deles foram sendo publicados em jornais sob a forma de «cartas» e é o próprio autor que toma a iniciativa de os reunir num só volume, ainda em 1854.

Depois dessa data, esta publicação conhecerá várias reedições, entre as quais a de 1909 que aqui reproduzimos.

Como escreve Castilho no prólogo, os textos aqui reunidos constituem “uma coleção de apontamentos, de factos, lembranças e conselhos; ou uma espécie de índice dos pontos que no assunto da instrução popular devem ser considerados”; os quais, a serem postos em prática permitiriam o “florescer de uma sociedade mais ditosa e mais digna de o ser” (p. 12).

Assim, a ‘felicidade’ de que aqui se trata não é, (ou não é apenas) a felicidade individual dos indivíduos que têm acesso à instrução. Trata-se antes de uma ideia de ‘felicidade coletiva’, dos povos e das nações, que Feliciano de Castilho acreditava só ser possível de alcançar pelo aumento decisivo e generalizado dos níveis de alfabetização e de cultura geral.


(Desenho de António Feliciano de Castilho)

Castilho não é o único no seu tempo a ter esta convicção. Os intelectuais e os homens de cultura do século XIX alimentavam uma crença profunda na instrução como instrumento - quase como fórmula mágica – de desenvolvimento e de progresso das nações.

Esta crença não vê na instrução apenas um recurso individual. Eles têm a perceção de que ela permite às populações não apenas responder, em contexto laboral, às mudanças decorrentes da industrialização, como também ter acesso a uma participação nos assuntos públicos e na atividade política. Ou seja, a expansão da escolarização produziria efeitos para além do campo da produção e do trabalho, permitindo também fortalecer o tecido social em termos cívicos e políticos, pelo aparecimento progressivo de uma opinião pública informada, fundamental para sustentar a consolidação do liberalismo.

Paralelamente, é também no século XIX que o estatuto da criança como ser humano frágil e merecedor de cuidados ganha especial força. O romantismo alimenta uma visão da infância como um período de florescimento, delicado e sensível, para cujo desenvolvimento harmonioso o processo educativo deveria contribuir.

Castilho é um fervoroso defensor desta visão da infância. Poeta, escritor e tradutor, dedicou uma boa parte da sua vida à defesa do desenvolvimento de métodos de ensino capazes de motivar as crianças para as aprendizagens e de as conquistar pacificamente para o trabalho escolar.

Para esta causa, que tanto defendeu, contribuiu talvez a sua própria experiência de uma infância frágil, com sérios problemas de saúde, dos quais acabou por resultar a sua cegueira aos 6 anos de idade.

A sua formação só foi possível graças à companhia fiel do seu irmão, praticamente da mesma idade, que com ele frequentou a Universidade de Coimbra, onde ambos se licenciaram em Cânones.

Mas esta ideia da criança como ser frágil e delicado é corrente no romântico século XIX. Temos manifestações dela na arte, na literatura e também, naturalmente, na teorização pedagógica. A defesa de uma «escola centrada na criança» é um tema que percorre diversos autores, como G. Stanley Hall, que virá a ser professor de John Dewey, um dos pensadores com mais influência sobre a reflexão pedagógica da segunda metade de oitocentos.

Especialmente preocupado com a questão da aprendizagem da leitura, Castilho inventa um método de ensino, que apresenta em 1850, e que designa como «Método Português de Leitura Repentina».

Envolve-se, depois, na defesa veemente, quase obstinada, da aplicação generalizada desse seu método, escrevendo páginas e páginas a seu favor, publicadas em revistas e jornais da época.

Progressivamente, consegue conquistar apoios para as suas ideias, acabando por receber a consagração oficial ao ser nomeado, em 1853, ‘Comissário-Geral de Instrução Pública pelo Método de Leitura Repentina’.


(Índice da obra Felicidade pela Instrução: cartas a um jornal de Lisboa, António Feliciano de Castilho,  3ª ed. Lisboa: Empreza da História de Portugal, 1909.)


Como se pode ver pelo índice desta obra, a defesa do «Método português» ocupa uma parte significativa destes seus escritos, incluindo o “Manifesto da Comissão Geral da Instrução Primária pelo Método português no Reino e Ilhas”, que constitui o primeiro Aditamento” (p. 119 e segs).

Na edição de 1853 do seu «Método» vem reproduzida uma gravura de Manuel Maria Bordalo Pinheiro que é uma autêntica alegoria ao pensamento de António Feliciano de Castilho.


(Gravura de Bordalo Pinheiro reproduzida na edição de 1853 do Método Castilho)


Nela podemos ver o ‘templo do saber’ - a escola - de onde irradiam raios de luz, a ser expurgada dos seus males: os antigos livros são queimados numa fogueira, enquanto as crianças exibem, como estandartes, as estampas com as letras do alfabeto, simbolizando o ensino através de novos métodos.

E em primeiro plano, sendo escorraçado do ‘templo do saber’, o antigo ‘mestre-escola’, representado com um rosto de traços pouco humanos, levando consigo o mais temido objeto da escola primária: a palmatória.

A acompanhar esta gravura poderíamos recordar os versos do «Hino à escola» composto por Castilho em 1849: 

Sem terror, sem vis castigos,

rindo a escola nos atrai

Tem o mestre em nós amigos,

temos nele amigo e pai.

Firme defensor da escolarização, propondo multas e penalizações para os pais que não enviem os seus filhos à escola, Castilho defende, ao mesmo tempo que esta deve ser um lugar aprazível e de bem-estar, e a aprendizagem um processo tranquilo, expurgado do «terror» e dos «vis castigos» que nesta época lhe estavam manifestamente associados.

 

Lê-se na Felicidade pela Instrução (p. 31):

«Cada escola deveria ser, quanto possível, espaçosa, clara, arejada, mobilada, e abastecida de todo o necessário, tendo cómodos para a residência do Mestre e um terreiro ou pátio com suas sombras verdes para espairecimento dos alunos, e, nos dias formosos, até para ali se darem lições.

Uma aula assim, humana e hospedeira por dentro, por fora risonha e convidativa, contribuiria admiravelmente, e melhor que raciocínios e exortações, para que o Povo confluísse a se instruir».

As recomendações a respeito de arejamento e iluminação que aqui encontramos têm, nesta época, a maior importância. É no século XIX que as teorias higienistas se difundem e que os edifícios escolares começam a ser pensados em função de requisitos de salubridade que decorrem da evolução do pensamento médico, também ele em profunda transformação.


(Quadro de Claude Monet, Le déjeuner sur l' herbe, 1865-1866)


A nova conceção de vida que a medicina colhe do movimento filosófico romântico faz da higiene e da salubridade conceitos-chave no combate e na prevenção de enfermidades. Os passeios e os piqueniques ao campo tornam-se uma prática comum entre a burguesia urbana de oitocentos, que artistas como Claude Monet (na imagem aqui reproduzida) representam em tela.

A predileção pela natureza que tão fortemente caracteriza as expressões artísticas do movimento romântico, tem, portanto, o seu correspondente no pensamento médico e higienista que vê no ambiente campestre um território terapêutico e salubre. É este bucolismo um pouco ingénuo que encontramos também aqui, na sugestão de Castilho sobre lições ao ar livre, sob a sombra das árvores, para ‘espairecimento dos alunos’.

Numa época em que a salubridade não era apanágio dos edifícios escolares e o quotidiano escolar não contemplava ainda preocupações com a saúde das crianças, a defesa deste tipo de argumentos foi fundamental para conquistar a atenção das elites e dos decisores políticos.

Não sendo um especialista em pedagogia, e envolvendo-se muitas vezes em polémicas de forma excessivamente inflamada, Castilho teve a respeito da escola e da organização do ensino uma intuição que lhe valeu o reconhecimento tanto dos seus defensores como dos seus detratores, contribuindo expressivamente para o debate educativo do seu tempo.

 

TSC

 

Bibliografia:

Albuquerque, Luis de, e Mourão-Ferreira, David (1976). António Feliciano de Castilho: educador, poeta. Lisboa: [s.n.].

Castilho, Júlio de (1881). Memórias de António Feliciano de Castilho. Lisboa, Academia Real das Ciências.

Grmek, Mirko D. (1999). Histoire de la pensée médicale en Occident. Vol 3: Du romantisme à la science moderne. Paris: Éditions du Seuil.

Magalhães, Justino (2003). Castilho, António Feliciano de, in António Nóvoa (Dir.), Dicionário de Educadores Portugueses, Porto: ASA, 311-316.

Nóvoa, António (2005). Evidentemente: histórias da educação. Porto: ASA.

Reis, Carlos, Dir. (2001), História Crítica da Literatura Portuguesa. Vol. 5: O Romantismo. Lisboa: Verbo.