2013/10/16

Peça do mês de Outubro




Quadro

Antigo quadro rebatível utilizado nas aulas de diversas disciplinas. É constituído por uma armação em madeira que sustenta a placa de ardósia sobre a qual se escrevia com giz. A armação tem uma estrutura basculante que permite ajustar a melhor posição do quadro. Na base da ardósia a armação em madeira tem um rebordo em forma de calha a todo o comprimento para colocação dos pedaços de giz e do apagador. Está inventariado com o número ME/404445/138 e pertence ao espólio museológico da Escola Secundária Alexandre Herculano.
Criado como Liceu Central da 1ª zona, passou a designar-se Liceu Central Alexandre Herculano, a 26 de Setembro de 1908. O edifício onde se encontra atualmente resulta de um projeto do arquiteto Marques da Silva e ficou concluído em 1921. Incluía 28 salas de aula, laboratórios, gabinetes e salas de Física e Química, Ciências, Geografia, Desenho e Música, biblioteca, anfiteatro para espetáculos, cinco pátios de recreio, um pátio de desporto, três ginásios, piscina, cozinha e refeitórios, sanitários, gabinetes médicos, sala de professores, gabinete do médico escolar e três “habitações” para o reitor, para o chefe de secretaria e para o tarefeiro (cf. Relatório anual do Liceu de 1934/35).
A Escola possui um Museu de História Natural, fundado em 2000 e aberto ao público em 2002, ocupando o primeiro andar da fachada principal do edifício. Dispõe de uma coleção de vulto no que respeita às áreas de zoologia, paleontologia e mineralogia. 
A escolha desta peça deve-se ao fato do quadro negro ser uma peça emblemática em sala de aula: aí são escritas matérias, ciências, matemática, poesia, enfim, existe uma ligação direta entre o quadro, veículo e suporte, e os alunos.
Os alunos podem aprender mais através do que visualizam, transformando as informações que lhes são transmitidas em conhecimento. O quadro negro é o recurso visual mais utilizado pelos docentes como apoio ao desenvolvimento das aulas. Apesar da importância crescente de outros meios, o valor educacional do quadro mantem-se, até porque é mais acessível, mais económico e mais fácil de utilizar: permite efetuar esquemas, demonstrar e ilustrar conceitos.


Bibliografia e informação adicional:




Para consultar a história da Escola Secundária Alexandre Herculano





MJS

2013/10/04

Tardes no Thalia - 30 de Outubro



(Imagem do interior do Teatro Thália)





No dia 30 de outubro de 2013, no Teatro Thalia, retomam-se as sessões de conversas no âmbito das TARDES NO THALIA. 


2013/10/02

Escalas de Mohs e Kobbell no Museu Virtual da Educação


(Imagem de uma escala de Mohs)



As propriedades físicas dos minerais são uma forma de os identificar e classificar à vista desarmada. Desta forma, são várias as características que podemos apontar, como é o caso da clivagem, da fratura, da dureza, da densidade relativa, do brilho, da cor, do traço ou da fusibilidade, que podem ser medidas através de escalas.

As escalas de Mohs e Kobell são utilizadas para a classificação dos minerais no que respeita a algumas das suas características e, como tal, usadas como material pedagógico e didático nas aulas de geologia.


(Imagem de uma escala de Mohs)


A escala de Mohs foi criada em 1812 pelo mineralogista alemão Friedrich Mohs, com 10 minerais de diferentes durezas, existentes na crosta terrestre, aos quais foram atribuídos valores de 1 a 10. O valor de dureza 1 foi dado ao material menos duro, que é o talco, e o valor 10 foi atribuído ao diamante, a substância mais dura existente na natureza. Assim, trata-se de uma escala que quantifica a dureza dos minerais, ou seja, a sua resistência face ao risco (retirada de partículas da sua superfície). Os elementos que geralmente constituem a escala são: 1. Talco; 2. Gipsita; 3. Calcita; 4. Fluorita; 5. Apatita; 6. Feldspato; 7. Quartzo; 8. Topázio; 9. Corindo; 10. Diamante. Cada um dos minerais desta escala risca o anterior, com dureza inferior, e é riscado pelo elemento seguinte, com dureza superior. Se for possível riscar um mineral com a unha, o seu grau de dureza será inferior a 2,5. Se só for possível riscar com uma moeda de cobre, a sua dureza será inferior a 3,5, mas se for necessária a utilização de uma faca ou de um vidro, a dureza será inferior a 5,5. Se não se conseguir riscar de nenhuma destas formas, a dureza será certamente superior a 5,5.


(Imagem de uma escala de Kobell)

A escala de Kobell foi proposta por Franz Von Kobell, em 1837, para classificar a fusibilidade dos minerais. O ponto de fusão dos minerais refere-se à temperatura em que a amostra passa do estado sólido ao estado líquido. 


(Imagem de uma escala de Kobell)

Geralmente inclui sete exemplares de minerais: 1. Estribina; 2. Natrólito; 3. Granada Almandina; 4. Actinolite; 5. Ortóclase; 6. Bronzite; 7. Quartzo. Os números indicam, do menor para o maior, minerais que podem fundir com a chama de uma vela, com o bico de Bunsen, com o maçarico, e aqueles que não se fundem de nenhuma destas formas.

 

 

Bibliografia:

Museu Virtual da Educação (2013) [em linha].

http://edumuseu.sg.min-edu.pt/

[Consulta: 8 de fevereiro de 2013]

 

Associação Portuguesa de Gemologia (2013) [em linha].

http://www.apgemologia.org/gemas-escala-mohs

[Consulta: 8 de agosto de 2013]

 

Geology.com. Geoscience News and Information (2013) [em linha].

http://geology.com/minerals/mohs-hardness-scale.shtml

[Consulta: 8 de agosto de 2013]

 

Blogue dos Seres e do mundo vivo (2013) [em linha].

http://seresemundovivo.blogspot.pt/

[Consulta: 8 de agosto de 2013]

 

 

MJS




2013/09/25

Léon Foucault (1819 - 1868) no Museu Virtual da Educação





Jean Bernard Léon Foucault (18 de setembro de 1819 – 11 de Fevereiro de 1868) foi um físico e astrónomo francês, filho de um publicitário parisiense. Estudou em casa e seguiu a área de medicina, que abandonou para se dedicar à física.

A melhoria das técnicas de fotografia de Daguerre captou a sua atenção durante os primeiros anos, tendo sido assistente experimental da Alfred Donnée (1801-1878). Em colaboração com Hippolyte Fizeau, fez algumas investigações sobre a intensidade da luz solar, concluindo que os raios luminosos que diferem no comprimento do caminho ótico e na polarização cromática da luz.

Em 1850, Foucault fez uma experiência de medição da velocidade da luz através de um aparelho que ficou conhecido como aparelho de Fizeau- Foucault. Conseguiu demonstrar que a luz viaja mais lentamente na água do que no ar.


(Imagem do aparelho de Foucault,  um espelho girante de quatro faces)

Um dos instrumentos utilizados por Foucault foi um espelho girante de quatro faces, colocado num suporte rotativo, que permitia realizar experiências de ótica e de mecânica e era utilizado na determinação da velocidade da luz.


(Imagem de um Pêndulo de Foucault)


Em 1851, realizou uma demonstração experimental da rotação da Terra em torno seu eixo, através de um pêndulo, que ficou conhecido como Pêndulo de Foucault.

Este instrumento é geralmente constituído por uma haste à qual está acoplado um pêndulo, tendo na base os pontos geográficos. A originalidade do pêndulo reside no facto de não ser fixo. A rotação do plano pendular é devida (e prova) a rotação da Terra. A velocidade e a direção de rotação do plano pendular permitem igualmente determinar a latitude do local da experiência, sem nenhuma observação astronómica exterior.

Em 1852, Foucault concebeu o giroscópio, que permitia igualmente provar a sua teoria. Trata-se de um instrumento que consiste num rotor suspenso por um suporte formado por dois círculos articulados, e que funciona de acordo com o princípio da inércia. Ou seja, um conjunto de várias rodas livres que podem girar em qualquer direção, mas que se opõem a qualquer tentativa de mudança da sua direção original.

Em 1857, Foucault inventou o polarizador, e no ano seguinte criou um método para investigar espelhos de telescópios refletores. O teste de Foucault determinava o formato de um espelho a partir dos comprimentos focais das suas áreas, comumente chamados de zonas e medidos a partir do centro do espelho. Assim tornou-se possível realizar uma análise quantitativa da seção cónica do espelho, obtendo um sistema ótico de qualidade.

Em 1864, foi eleito membro da Royal Society de Londres e no ano seguinte publicou artigos sobre a alteração de alguns inventos de Watt. Faleceu em fevereiro de 1868, provavelmente de esclerose múltipla.

 

 

Bibliografia:

 

Museu Virtual da Educação (2013) [em linha].

http://edumuseu.sg.min-edu.pt/

[Consulta: 18 de setembro de 2013]

 

Wikipédia (2013) [em linha].

http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean_Bernard_L%C3%A9on_Foucault

[Consulta: 18 de setembro de 2013]

 

Geocities WS (2013) [em linha].

http://www.geocities.ws/saladefisica9/biografias/foucault.html

[Consulta: 18 de setembro de 2013]

 

The MacTutor History of Mathematics archive (2013) [em linha].

http://www-history.mcs.st-andrews.ac.uk/Biographies/Foucault.html

[Consulta: 18 de setembro de 2013]

 

 

MJS




2013/09/10

Peça do mês de Setembro




Carroça

Carro de tração animal usado como meio de transporte. A carroça é movida por tração animal, e serve para deslocar carga ou pessoas de um local para outro. Está inventariado com o número ME/404342/8 e pertence ao espólio museológico da Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Grândola.
Esta Escola faz parte da APEPA, Associação Portuguesa de Escolas Profissionais Agrícolas, criada em 01 de Julho de 1994. A Associação representa cerca de vinte Escolas Profissionais que oferecem, entre outras, formação agrícola. Existem 14 escolas públicas e 6 privadas, em que a maioria possui explorações agrícolas.
A APEPA engloba-se na EUROPEA Internacional, uma associação para o ensino agrícola internacional onde estão representadas todas as Associações Nacionais de Ensino Agrícola dos estados membros da União Europeia.
Neste tipo de escolas do Ensino Secundário o seu principal objetivo é a formação de técnicos intermédios, com habilitação equivalente ao 12º ano de escolaridade e com uma habilitação profissional de Nível III EU. Estão obviamente inseridas num contexto rural, prestando apoio ao sector primário. A oferta formativa inclui a agricultura, as agroindústrias, a floresta, o turismo, o artesanato, a cinegética ou a construção civil tradicional.
Esta peça faz parte de um conjunto de instrumentos agrícolas recolhidos pela Escola para integrar o seu núcleo museológico, contribuindo desta forma para a salvaguarda e requalificação do património rural. O alargamento da noção de património reflete-se na recolha de peças e de espólio ligado ao mundo rural e agrícola. Neste caso, a Escola dispõe de bens culturais móveis que incluem os objetos de produção, como ferramentas, utensílios e alfaias agrícolas que permitem uma preservação da memória do seu espaço cultural e respetiva valorização.


Bibliografia e informação adicional:





Para consultar a história da Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Grândola:





MJS

2013/08/28

Os Bibliotecários na Primeira República - I - Missão e atribuições





(Imagem a preto e branco de uma criança sentada numa pilha de jornais)



A Primeira República Portuguesa (1910-26) constituiu uma tentativa persistente de estabelecer e manter uma democracia parlamentar. Ainda assim, muitos entendidos, tal como Wheeler (1978:865), consideram que a República foi prejudicada pela frequente violência pública, pela instabilidade política e, sobretudo, pela falta de continuidade administrativa.

 Atendendo às vicissitudes político-sociais de então, o Decreto n.º 3.370, de 15 de setembro de 1917, estabelece que a categoria do primeiro bibliotecário seja inerente ao professor de qualquer das cadeiras do curso superior de biblioteca-arquivo. Assim sendo, o estatuto profissional de bibliotecário é reconhecido e equiparado ao de professor.

 

“Na verdade, durante o período cronológico correspondente à Primeira República, vamos assistir a um incremento notável das bibliotecas e dos arquivos, que é, por um lado, reflexo de novas orientações político-ideológicas e, por outro, fruto da ação de algumas personalidades como Júlio Dantas, António Ferrão e Raul Proença, que assumem responsabilidades importantes, do ponto de vista político, de gestão e de coordenação técnica.” (Ribeiro, 2008:22)

 

Como verificamos, não só o estatuto de bibliotecário ganha folego social, mas as bibliotecas também são incrementadas de uma forma notória, fruto de ideologias progressistas da época.

 Segundo o Regulamento sobre o provimento e promoção do pessoal das bibliotecas e arquivos nacionais, nomeadamente o Decreto nº 3.076 [1], qualquer tipo de regulamentação bibliotecária executa-se em nome do interesse do Estado e, acima de tudo, para assegurar a existência de técnicos devidamente credenciados: “pessoal devidamente habilitado e que tenha prestado provas da sua competência.” O Art. n. 1, do Decreto supracitado, afirma que:

 

“O quadro da Secretaria Geral das Bibliotecas e Arquivos Nacionais compõe-se de: 1 director, 1 chefe de secção de contabilidade, 1 chefe de secção de expediente, 2 escriturários, 1 contínuo e 1 servente.” (D.G. n. 54, 1917)

 

Verifica-se, deste modo, que os serviços biblioteconómicos apresentam características multidisciplinares, onde, por conseguinte, a contabilidade (i.e., seleção e aquisições) e o expediente (i.e., catalogação e difusão de informação) são tarefas bem definidas.

 Dezasseis anos mais tarde, com a mudança da conjetura política, o cenário cultural muda radicalmente: o Decreto n. 22.116, aprovado a 13 de janeiro de 1933, declara no Art. 1 que a biblioteca tem os seguintes objetivos: “a propaganda da leitura, a vulgarização do conhecimento e a expansão da cultura científica, literária e profissional.”

Como verificamos, a terminologia — propaganda, vulgarização e expansão — alude a roturas política e culturais. Estes conceitos do Estado Novo não são propriamente biblioteconómicos, ainda assim, remete para a forma como a promoção da leitura e disseminação de informação estavam controladas. O próprio vocabulário usado é, per si, testemunho vivo desta repressão.

 Insistindo ainda no ideal de bibliotecário da Primeira República - recoletores documentais [2] existe a consciencialização de que muitas coleções biblioteconómicas, provenientes de congregações religiosas até à data da proclamação da República, estavam “dispersas” por todo o país. Atendendo a este presumível problema, o Decreto n. 3.410, de 28 de setembro de 1917, vem impor metodologias e técnicas de organização biblioteconómicas:

 

“Convindo, sem demora, organizar, classificar, catalogar e instalar convenientemente estas coleções [provenientes das extintas ordens religiosas], para instrução geral do povo e estudo de eruditos e futuros historiadores, evitando-se assim a perda e dispersão de milhares de documentos importantes, de facto lamentável já ocorrido em 1759, por ocasião da expulsão dos jesuítas, e em 1834, quando foram extintas as ordens religiosas.” (Decreto n. 3.410, 1917)

 

Tendo em conta a citação supramencionada verifica-se que, neste contexto específico, o papel dos bibliotecários é essencialmente (i) a seleção documental (organizar e classificar); (ii) o tratamento técnico (catalogar e instalar) e, por último, (iii) a disseminação seletiva (cliente e preservar).



(Imagem onde se explicita a função dos bibliotecários: seleção documental; tratamento técnico; disseminação seletiva)


Atendendo ao Decreto n. 3.410 (1917) verificamos que, ao nível biblioteconómico, existiam três grandes áreas, sendo a primeira a seleção. Neste contexto, parte-se da pré-existência documental, sobretudo dos acervos provenientes de organizações religiosas extintas. O desafio biblioteconómico é, neste caso, a organização segundo a proveniência e conteúdo (problema que atualmente persiste devido à grande dispersão de coleções e reintegração de bibliotecas em fundos vários).

A segunda etapa é, por assim dizer, reservada ao tratamento técnico – a catalogação e a instalação (i.e., gestão e organização de coleções) foi uma das preocupações dos bibliotecários desta época. Este elo da cadeia documental foi, como bem sabemos, o corpus de desenvolvimento de coleções.

Ressalta-se, com alguma surpresa, a importância dada à disseminação seletiva da informação, onde o cliente e a sua estrutura cognitiva são equacionados na cadeia documental: “para instrução geral do povo e estudo de eruditos e futuros historiadores, evitando-se assim a perda e dispersão de milhares de documentos importantes […].” As técnicas documentais, sobretudo a gestão de coleções, deverão ter um fim último – a instrução do povo (i.e., seleção seletiva de informação) e a preservação de acervos.

Em suma, o dinamismo que caracterizou o sector bibliotecário, nesta época, foi acima de tudo protagonizado pela Biblioteca Nacional, na fase em que Jaime Cortesão exerceu o cargo de diretor e em que a chefia dos Serviços Técnicos esteve entregue a Raul Proença. Permitiu delinear e, em alguns casos, pôr em prática, projetos de grande envergadura, cuja conceção, do ponto de vista técnico, estava perfeitamente em consonância com os desenvolvimentos internacionais.

A visão republicana para este sector de atividade, enquadrado no amplo campo da instrução pública foi, sem dúvida, muito fecunda em estudos, produção de textos e promulgação de leis com vista à afirmação de uma área considerada estratégica para o regime político em vigor. Contudo, a falta de meios financeiros e humanos obstou a que muitas das ideias e projetos republicanos tivessem uma concretização efetiva (Cf. Ribeiro, 2008:225).

 

 

Bibliografia:


BOLETIM OFICIAL DO MINISTÉRIO DE INSTRUÇÃO PÚBLICA (1935). Coimbra: Imprensa da Universidade.


MARQUES, A.H. de Oliveira (1997). História da 1ª República Portuguesa:  as estruturas de base. Lisboa: Estampa.


PORTUGAL. Leis, decretos, etc. – Decreto n.º 3.410 [de 15 de Setembro de 1917]. Diário do Governo. 1ª Série. Lisboa. 168/17, pp. 944-945.


RIBEIRO, Fernanda (2008). “A Inspecção das Bibliotecas e Arquivos e a ideologia do Estado Novo”. in: Estados autoritários e totalitários e suas representações: propaganda, ideologia, historiografia e memória. Coimbra: Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra - CEIS20 [etc.], 2008, p. 223-237.


WHEELER, Douglas L. (1978). “A Primeira República Portuguesa e a história”. In: Análise Social; Vol. XIV (56), (1978), p. 865-872.




P. M. 







[1] Diário do Governo, nº 54, 1º serie, de 6 de abril 1917

[2] O bibliotecário da Primeira Republica, segundo entendemos, era um aglomerador de informação. A instabilidade política fez destes profissionais recolectores e guardiães documentais. A difusão de informação não foi o light motif das suas tarefas, ainda, na atualidade, existem bibliotecas que não estão informatizadas e devidamente uniformizadas.


Os Bibliotecários na Primeira República - II - Arquivo das Congregações





(Imagem a preto e branco de uma criança sentada numa pilha de jornais)





Atendendo à dispersão documental existente com extinção das ordens religiosas e à instabilidade político-social, durante a Primeira República, é criado o Arquivo das Congregações[1], Em 1917, a 28 de Setembro, pelo Decreto n.º 3.410, o referido Arquivo estava subordinado ao Ministério da Instrução Pública, por intermédio da Inspecção das Bibliotecas Eruditas e Arquivos.[2]

 

A criação do Arquivo das Congregações é justificada pela necessidade urgente da gestão de coleções e preservação do património documental nacional. Este Arquivo surge com uma missão operativa bem determinada e não um mero depósito de documentação acumulada.

Do Arquivo das Congregações religiosas farão parte documentos provenientes das seguintes congregações religiosas:

1.       Jesuítas

2.       Doroteias

3.       Franciscanos

4.       Franciscanas (Trinas, Missionarias de Maria)

5.       Dominicanos

6.       Dominicanas, (1ª e 3ª ordem)

7.       Irmãs de Caridade

8.       Padres do Espírito Santo,

9.       Irmãs de S. José de Cluny

10.   Salesianos

11.   Salésias

12.   Beneditinos

13.   Hospitaleiros de S. João de Deus

14.   Padres Redentoristas

15.   Missionários Filhos do Sagrado Coração de Maria

16.   Ursulinas

17.   Carmelitas

18.   Irmãs do Bom Pastor

19.   Irmãzinhas do Pobres

20.   Irmãs do Sagrado Coração de Maria, (Sacré Coeur)

21.   Congregação de Santa Teresa de Jesus

22.   Oblatas do Menino Jesus

23.   Irmãs da Imaculada Conceição

24.   Congregação de Jesus

25.   Maria

26.   Freiras Servitas

 

 

Esta lista exaustiva foi retirada do Boletim Oficial do Ministério de Instrução Pública; Ano 2, nº 20/22 (1917), também mencionado no Diário do Governo, nº 168 de 28 setembro de 1917.

 

Segundo pensamos, esta listagem, poucas ou nenhumas congregações religiosas deixam a salvo. Assim, devido à exaustividade de documentos daí provenientes impunha-se uma gestão de informação eficiente para o Arquivo das Congregações. A solução encontrada, grosso modo, foi a organização segundo as três grandes tipologias das ciências da informação: a museologia, arquivística e biblioteconomia.

 

No que diz respeito à gestão documental, a classificação formal dos documentos provenientes das ordens religiosas é subdividida em sete descritores: teologia, mística, história, biografia, pedagogia didática e homeografia:

 

1.      Obras teológicas (tratados de teologia moral, escritura sacra, etc.);

2.      Obras místicas (livros de devoção, sermonários);

3.      Obras históricas (história de cada congregação, Institutum);

4.      Obras biográficas (vida de fundadores, iniciadores, patriarcas das ordens, congregacionistas, ilustres);

5.      Obras pedagógicas (tratados de pedagogia, etc.);

6.      Obras didáticas (compêndios, livros, de estudo, etc.);

7.      Hemerografia (jornais, revistas publicadas pelas congregações, folhetos de propaganda religiosa e política, etc.).

 

As sete classes provenientes da classificação usada são, por assim dizer, testemunho de preocupações culturais e espirituais das então extintas congregações – a biblioteca é o testemunho vivo e espiritual de uma época e sociedade, acreditamos.

 

Neste contexto, assalto republicano aos documentos religiosos, fica-nos bem patente que o perfil dos Seminários de então, ou das Bibliotecas, é de cariz teológico e pedagógico.

 

Não alheios a esta realidade biblioteconómica, Bernardino Machado, Alexandre Braga e Artur R. de Almeida Ribeiro, prologam no referido Decreto, para fomentar — a criação do arquivo das congregações, destinado a recolher, organizar e inventariar o espólio documental das congregações religiosas existentes em Portugal à data da proclamação da República. Ainda assim, frisa-se que todos os documentos podem ser consultados de forma livre ou mesmo requisitar os documentos existentes no Arquivo, sempre que se julgar conveniente para fins jurídicos ou administrativos.

 

 

Bibliografia:

 

 

 

MARQUES, A.H. de Oliveira (1997). História da 1ª República Portuguesa:  as estruturas de base. Lisboa: Estampa.

 

 

MINISTÉRIO DA INSTRUÇÃO PÚBLICA (1917). “Biblioteca e arquivos nacionais”. in: Boletim oficial do Ministério de Instrução Pública; A.2, n. 20/22 (1917), pp. [619]-622.

 

 

PORTUGAL. Leis, decretos, etc. – Decreto n.º 3.410 [de 15 de Setembro de 1917]. Diário do Governo. 1ª Série. Lisboa. 168/17, pp. 944-945.

 

 

RIBEIRO, Fernanda (2008). “A Inspecção das Bibliotecas e Arquivos e a ideologia do Estado Novo”. in: Estados autoritários e totalitários e suas representações: propaganda, ideologia, historiografia e memória. Coimbra: Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra - CEIS20 [etc.], 2008, pp. 223-237.

 

 

WHEELER, Douglas L. (1978). “A Primeira República Portuguesa e a história”. In: Análise Social; Vol. 14 (56), (1978), pp. 865-872.

 

 

P.M.




[1] Em 1910, por Decreto de 8 de Outubro, foram extintas a Companhia de Jesus e as demais companhias, congregações religiosas, conventos, colégios, associações, missões ou outras casas de religiosos passando os seus bens, móveis e imóveis, para a posse do Estado. Em 1917, a 28 de Setembro, pelo Decreto n.º 3.410, da Secretaria Geral do Ministério da Instrução Pública, foi criado o Arquivo das Congregações nos termos das alíneas 13 e 14 do artigo 6.º do Decreto de 24 de Dezembro de 1901, e do n.º 8 do artigo 27.º do Decreto, com força de Lei, de 18 de Março de 1911, com a preocupação de evitar perda e dispersão de documentos. Ficou subordinado ao Ministério da Instrução Pública através da Inspecção das Bibliotecas Eruditas e Arquivos, tendo por missão recolher, organizar e inventariar a documentação das Congregações religiosas existentes em Portugal à data da proclamação da República. Em 1918, pela lei de 8 de Maio o Arquivo da Congregações foi anexado ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
[2] A Inspecção-Geral das Bibliotecas e Arquivos Públicos, incumbida “da direcção e administração, ou da fiscalisação superior, dos archivos e das bibliotecas pertencentes ao estado e às corporações e instituições sujeitas á superintendência do estado ou por elle subsidiadas” foi criada ainda durante a vigência do regime monárquico, pelo Decreto de 29 de Dezembro de 1887. Este diploma regulava, do ponto de vista estatal e político, aquilo a que hoje poderíamos chamar os serviços públicos de informação/documentação e estabelecia as bases de um sistema que se manteve, nos seus fundamentos e nas suas linhas gerais, praticamente inalterado até algum tempo depois do 25 de Abril de 1974, mais concretamente até meados dos anos oitenta, altura em que as bibliotecas e os arquivos deixaram, definitivamente, de estar dependentes do Ministério da Educação para passarem a ser tutelados pela Secretaria de Estado da Cultura.