2012/02/13

Peça do mês de Fevereiro


Escultura/Busto

 

Busto da República elaborado em gesso pintado. A escultura representa uma figura feminina com cabelos longos caídos sobre os ombros, envergando na cabeça o barrete frígio. Tem um dos ombros descobertos e na zona do peito tem gravadas as armas de Portugal. Está pintado em tons de bronze, com traço bastante delicado.

O busto pertence ao espólio museológico da Escola Secundária David Mourão-Ferreira, Lisboa, com o número de inventário ME/ESDMF/276. Este espólio foi doado pela Direção Regional de Educação de Lisboa e Vale do Tejo (DRELVT) à Secretaria-geral e reveste-se de grande importância, uma vez que incorpora objetos provenientes das Escolas Secundárias Dona Maria I e Veiga Beirão, extintas em 1997. Na origem da Escola Comercial D. Maria I, designação de 1948, está a Escola Comercial Rodrigues Sampaio. Desta forma, embora o busto possua um número de inventário da Escola Secundária D. Maria I, poderá ter transitado da sua antecessora, Rodrigues Sampaio.

A imagem da República personifica o regime republicano e é representada, iconograficamente, por uma mulher, com um barrete frígio, inspirada na pintura de Eugène Delacroix. Em Portugal foi adotada como símbolo a partir da implantação da República, a 5 de Outubro de 1910, seguindo os modelos existentes. A partir de 1911, Simões de Almeida esculpe uma imagem da república que se torna oficial, inspirada em Ilda Pulga. Passou a ser utilizada como efígie nas moedas e colocada em todos os edifícios públicos.

Este busto apresenta uma particularidade que se deve ao facto de possuir as armas de Portugal na sua roupa, os cinco escudos e as cinco quinas, e de estar gravada a data de 1288 no verso.

 

Bibliografia e informação adicional:

 

http://projectobame.blogspot.com/2010/09/espolio-da-escola-secundaria-david.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ef%C3%ADgie_da_Rep%C3%BAblica

http://chaodeareia.agcolares.org/2010/02/vale-a-pena-conhecer-a-historia-do-busto-da-republica-ilga-pulga/

http://artes-vivas-index3.blogspot.com/2010/07/os-bustos-da-republica.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Implanta%C3%A7%C3%A3o_da_Rep%C3%BAblica_Portuguesa

http://centenariorepublica.pt/

http://www.museu.presidencia.pt/expo_geral.php?id=2

 

MJS

 


2012/02/08

"Felicidade pela Instrução"


(Capa da obra Felicidade pela Instrução: cartas a um jornal de Lisboa, António Feliciano de Castilho,  3ª ed. Lisboa: Empreza da História de Portugal, 1909.)



Nesta obra, a que dá o nome de Felicidade pela Instrução, António Feliciano de Castilho decide reunir um conjunto de textos que foi escrevendo ao longo da década de 50 do século XIX.

Muitos deles foram sendo publicados em jornais sob a forma de «cartas» e é o próprio autor que toma a iniciativa de os reunir num só volume, ainda em 1854.

Depois dessa data, esta publicação conhecerá várias reedições, entre as quais a de 1909 que aqui reproduzimos.

Como escreve Castilho no prólogo, os textos aqui reunidos constituem “uma coleção de apontamentos, de factos, lembranças e conselhos; ou uma espécie de índice dos pontos que no assunto da instrução popular devem ser considerados”; os quais, a serem postos em prática permitiriam o “florescer de uma sociedade mais ditosa e mais digna de o ser” (p. 12).

Assim, a ‘felicidade’ de que aqui se trata não é, (ou não é apenas) a felicidade individual dos indivíduos que têm acesso à instrução. Trata-se antes de uma ideia de ‘felicidade coletiva’, dos povos e das nações, que Feliciano de Castilho acreditava só ser possível de alcançar pelo aumento decisivo e generalizado dos níveis de alfabetização e de cultura geral.


(Desenho de António Feliciano de Castilho)

Castilho não é o único no seu tempo a ter esta convicção. Os intelectuais e os homens de cultura do século XIX alimentavam uma crença profunda na instrução como instrumento - quase como fórmula mágica – de desenvolvimento e de progresso das nações.

Esta crença não vê na instrução apenas um recurso individual. Eles têm a perceção de que ela permite às populações não apenas responder, em contexto laboral, às mudanças decorrentes da industrialização, como também ter acesso a uma participação nos assuntos públicos e na atividade política. Ou seja, a expansão da escolarização produziria efeitos para além do campo da produção e do trabalho, permitindo também fortalecer o tecido social em termos cívicos e políticos, pelo aparecimento progressivo de uma opinião pública informada, fundamental para sustentar a consolidação do liberalismo.

Paralelamente, é também no século XIX que o estatuto da criança como ser humano frágil e merecedor de cuidados ganha especial força. O romantismo alimenta uma visão da infância como um período de florescimento, delicado e sensível, para cujo desenvolvimento harmonioso o processo educativo deveria contribuir.

Castilho é um fervoroso defensor desta visão da infância. Poeta, escritor e tradutor, dedicou uma boa parte da sua vida à defesa do desenvolvimento de métodos de ensino capazes de motivar as crianças para as aprendizagens e de as conquistar pacificamente para o trabalho escolar.

Para esta causa, que tanto defendeu, contribuiu talvez a sua própria experiência de uma infância frágil, com sérios problemas de saúde, dos quais acabou por resultar a sua cegueira aos 6 anos de idade.

A sua formação só foi possível graças à companhia fiel do seu irmão, praticamente da mesma idade, que com ele frequentou a Universidade de Coimbra, onde ambos se licenciaram em Cânones.

Mas esta ideia da criança como ser frágil e delicado é corrente no romântico século XIX. Temos manifestações dela na arte, na literatura e também, naturalmente, na teorização pedagógica. A defesa de uma «escola centrada na criança» é um tema que percorre diversos autores, como G. Stanley Hall, que virá a ser professor de John Dewey, um dos pensadores com mais influência sobre a reflexão pedagógica da segunda metade de oitocentos.

Especialmente preocupado com a questão da aprendizagem da leitura, Castilho inventa um método de ensino, que apresenta em 1850, e que designa como «Método Português de Leitura Repentina».

Envolve-se, depois, na defesa veemente, quase obstinada, da aplicação generalizada desse seu método, escrevendo páginas e páginas a seu favor, publicadas em revistas e jornais da época.

Progressivamente, consegue conquistar apoios para as suas ideias, acabando por receber a consagração oficial ao ser nomeado, em 1853, ‘Comissário-Geral de Instrução Pública pelo Método de Leitura Repentina’.


(Índice da obra Felicidade pela Instrução: cartas a um jornal de Lisboa, António Feliciano de Castilho,  3ª ed. Lisboa: Empreza da História de Portugal, 1909.)


Como se pode ver pelo índice desta obra, a defesa do «Método português» ocupa uma parte significativa destes seus escritos, incluindo o “Manifesto da Comissão Geral da Instrução Primária pelo Método português no Reino e Ilhas”, que constitui o primeiro Aditamento” (p. 119 e segs).

Na edição de 1853 do seu «Método» vem reproduzida uma gravura de Manuel Maria Bordalo Pinheiro que é uma autêntica alegoria ao pensamento de António Feliciano de Castilho.


(Gravura de Bordalo Pinheiro reproduzida na edição de 1853 do Método Castilho)


Nela podemos ver o ‘templo do saber’ - a escola - de onde irradiam raios de luz, a ser expurgada dos seus males: os antigos livros são queimados numa fogueira, enquanto as crianças exibem, como estandartes, as estampas com as letras do alfabeto, simbolizando o ensino através de novos métodos.

E em primeiro plano, sendo escorraçado do ‘templo do saber’, o antigo ‘mestre-escola’, representado com um rosto de traços pouco humanos, levando consigo o mais temido objeto da escola primária: a palmatória.

A acompanhar esta gravura poderíamos recordar os versos do «Hino à escola» composto por Castilho em 1849: 

Sem terror, sem vis castigos,

rindo a escola nos atrai

Tem o mestre em nós amigos,

temos nele amigo e pai.

Firme defensor da escolarização, propondo multas e penalizações para os pais que não enviem os seus filhos à escola, Castilho defende, ao mesmo tempo que esta deve ser um lugar aprazível e de bem-estar, e a aprendizagem um processo tranquilo, expurgado do «terror» e dos «vis castigos» que nesta época lhe estavam manifestamente associados.

 

Lê-se na Felicidade pela Instrução (p. 31):

«Cada escola deveria ser, quanto possível, espaçosa, clara, arejada, mobilada, e abastecida de todo o necessário, tendo cómodos para a residência do Mestre e um terreiro ou pátio com suas sombras verdes para espairecimento dos alunos, e, nos dias formosos, até para ali se darem lições.

Uma aula assim, humana e hospedeira por dentro, por fora risonha e convidativa, contribuiria admiravelmente, e melhor que raciocínios e exortações, para que o Povo confluísse a se instruir».

As recomendações a respeito de arejamento e iluminação que aqui encontramos têm, nesta época, a maior importância. É no século XIX que as teorias higienistas se difundem e que os edifícios escolares começam a ser pensados em função de requisitos de salubridade que decorrem da evolução do pensamento médico, também ele em profunda transformação.


(Quadro de Claude Monet, Le déjeuner sur l' herbe, 1865-1866)


A nova conceção de vida que a medicina colhe do movimento filosófico romântico faz da higiene e da salubridade conceitos-chave no combate e na prevenção de enfermidades. Os passeios e os piqueniques ao campo tornam-se uma prática comum entre a burguesia urbana de oitocentos, que artistas como Claude Monet (na imagem aqui reproduzida) representam em tela.

A predileção pela natureza que tão fortemente caracteriza as expressões artísticas do movimento romântico, tem, portanto, o seu correspondente no pensamento médico e higienista que vê no ambiente campestre um território terapêutico e salubre. É este bucolismo um pouco ingénuo que encontramos também aqui, na sugestão de Castilho sobre lições ao ar livre, sob a sombra das árvores, para ‘espairecimento dos alunos’.

Numa época em que a salubridade não era apanágio dos edifícios escolares e o quotidiano escolar não contemplava ainda preocupações com a saúde das crianças, a defesa deste tipo de argumentos foi fundamental para conquistar a atenção das elites e dos decisores políticos.

Não sendo um especialista em pedagogia, e envolvendo-se muitas vezes em polémicas de forma excessivamente inflamada, Castilho teve a respeito da escola e da organização do ensino uma intuição que lhe valeu o reconhecimento tanto dos seus defensores como dos seus detratores, contribuindo expressivamente para o debate educativo do seu tempo.

 

TSC

 

Bibliografia:

Albuquerque, Luis de, e Mourão-Ferreira, David (1976). António Feliciano de Castilho: educador, poeta. Lisboa: [s.n.].

Castilho, Júlio de (1881). Memórias de António Feliciano de Castilho. Lisboa, Academia Real das Ciências.

Grmek, Mirko D. (1999). Histoire de la pensée médicale en Occident. Vol 3: Du romantisme à la science moderne. Paris: Éditions du Seuil.

Magalhães, Justino (2003). Castilho, António Feliciano de, in António Nóvoa (Dir.), Dicionário de Educadores Portugueses, Porto: ASA, 311-316.

Nóvoa, António (2005). Evidentemente: histórias da educação. Porto: ASA.

Reis, Carlos, Dir. (2001), História Crítica da Literatura Portuguesa. Vol. 5: O Romantismo. Lisboa: Verbo.

 


2012/01/31

"Cartilha Colonial" - Um Manual para o Império



(Três imagens, da esquerda para a direita, onde surgem representados uma nau, alguns homens levantando um padrão e uma paisagem arborizada)


CARTILHA - Compêndio de doutrina cristã • Cartinha. Livrinho para o ensino da leitura. Manual escolar, compêndio de alfabetização; era geralmente o primeiro livro que se punha nas mãos de um estudante, prática generalizada desde o século XVI até ao século XIX • Silabário • Qualquer tratado breve ou elementar de um ofício ou arte. (Faria & Pericão, 2008)

 

Cartilha Colonial, uma edição da Sociedade Luso-Africana do Rio de Janeiro, do ano de 1937, integra a coleção de Manuais Escolares da Secretaria-Geral do Ministério da Educação e Ciência. Trata-se de um livro curioso que marca um período recente da nossa História. Percorrendo os textos que o compõem, estes transportam-nos para uma época que, mais do que distar cronologicamente de nós, parece bem mais longínqua quando nos atemos ao quadro de valores (sociais, morais, políticos e ideológicos) que lhe estão subjacentes.

A avaliar pela nota introdutória do autor, terá sido redigido em 1934, quando ele, Augusto Casimiro, se encontrou em Cabo Verde – Ilha de Santo Antão – e logo após a redação de Contos de Além-Mar. Da leitura da introdução intitulada “Aos Pais e aos Professores”, é-nos dado perceber que o livro se dirige “para os pequenos escolares de Portugal”, isto é, aos alunos que iniciam a escolaridade. Os textos de abertura – “Aos Rapazes de Portugal”; “A Pátria”, “Aljubarrota 1385”; “Ceuta 1415”; “A Ribeira das Naus”; “A Viagem Maravilhosa”, muito ao gosto da época, pretendem chamar a atenção sobre valores de culto da Pátria, da fundação desta, da sua importância na História e da missão de desbravar e descobrir novos mundos:

– Foi dêsse noivado da terra com as ondas que a Pátria, verdadeiramente, nasceu!

– Aljubarrota primeiro! Depois o mar e o mundo! – A descoberta do mundo! – A conquista da Terra e do Mar!

O espírito da narrativa denota a preocupação do autor em encontrar a melhor forma de “suscitar o encantado intêresse de novos horizontes, o amor às Colónias, à vida criadora que elas possibilitam melhor do que as metrópoles”.

– Queres repetir a viagem magnífica? – Queres percorrer os caminhos que, há cinco séculos, começaram a abrir as caravelas de Portugal? – Vem daí comigo!

Nas palavras do autor: “Livro para crianças, dêle propositadamente destaco quanto seja de menor atractivo para o espírito dos seus leitores. Preferirei “às notas políticas, aos quadros estatísticos, económicos e demográficos, o que é movimento, dinamismo, vida construtiva, vida heróica, maravilhoso, dramático, quadros que atráiam e prendam.”


(Capa da obra Cartilha Colonial de Augusto Casimiro)

O nome por detrás desta obra – Augusto Casimiro dos Santos, de seu nome completo – nasceu em Amarante, a 11 de Maio de 1889 e faleceu em 23 de Setembro de 1967. Frequentou os primeiros estudos e o liceu, na terra natal, tendo iniciado a sua atividade literária bastante cedo, como poeta e cronista (1906). Prosseguiu estudos superiores em Coimbra e, mais tarde, optou pela via militar, realizando o Curso de Infantaria da Escola do Exército. Combateu nas trincheiras da Flandres (1917-18) durante a Grande Guerra. Veio a ocupar diversas posições de relevo na Administração Colonial Portuguesa, em África (Angola), até ser demitido do Exército por manifestar a sua oposição ao Estado. Muitos dos seus escritos – África Nostra (1922), Alma Africana (1936), Cartilha Colonial (1937), Portugal Crioulo (1940) – refletem a sua passagem por aquelas paragens e a experiência e visão para o tipo de problemas que se colocaram à administração portuguesa no pós-guerra. Após um período de desterro em Cabo Verde, entre 1933 e 1936, foi reintegrado, após o que passou à reserva.

Sublinhe-se, ainda, a existência no final do livro de uma síntese cronológica sob o título “As grandes viagens e conquistas dos portugueses nos séculos XVI e XVII” e de um “Pequeno Glossário” de terminologia indígena.

A questão do Colonialismo, do Ultramar e da política colonial portuguesa no período do Estado Novo é um tema complexo e, não-raro, envolto em bastante polémica; não deixando, consequentemente, de estar na ordem do dia de considerável número de historiadores, estudiosos e investigadores de diferentes áreas.

Segundo reflexão do historiador Oliveira Marques, o regime Republicano, saído de 1910, continuou a encarar as “colónias” como “províncias. Apesar de tudo, terão sido postos em prática alguns princípios de autonomia política e administrativa; uma política colonial que viu o seu término com o advento da Ditadura e do Estado Novo. Um regime centralizado, semelhante ao que vigorava antes de 1914, voltou a aparecer. A Carta Orgânica do Império Colonial Português, desenvolvimento do Acto Colonial de 1930 e adaptação da Constituição às Colónias e a Reforma Administrativa Ultramarina, firmaram os rígidos princípios do Estado Novo sobre administração colonial. Surgiu a política dos assimilados que procurava trazer para a civilização europeia – segundo refere o mesmo autor – os Africanos e Timorenses não civilizados.

“(…) o império era como que o contrapeso à pequena dimensão do Portugal europeu, a afirmação do génio dum povo pobre e recatado, algo que necessitava do recurso ao sobrenatural para poder ser explicado. O império era também o cumprimento de uma missão – integrar os povos primitivos nos parâmetros da civilização ocidental, educá-los pelo trabalho, cristianizar a sua visão do sagrado. Era, finalmente, algo de que os portugueses deviam ter imensa consciência e orgulho, pelo que se exigia das mais diversas instituições um esforço concertado para fazer com que a nova ideologia imperial fosse assumida por todos os portugueses, desde a mais tenra idade.” (Serrão & Marques, 1992:372)

 A partir do final da Segunda Guerra Mundial, cresceram e multiplicaram-se as vozes críticas que se manifestavam contra o colonialismo português. Em 1961, o Estatuto dos Indígenas chegava ao fim. Dessa data em diante, todos os habitantes de Angola, Moçambique e Guiné tornavam-se plenos cidadãos de Portugal. Desapareceu, assim, a condição de assimilado. Uma doutrina federalista passou a concorrer com a doutrina integracionista, então vigente, abrindo de novo caminho para a descentralização. De qualquer modo, a experiência colonial portuguesa não resultou numa solução pacífica, bem pelo contrário.

 “(…) motivações de tipo económico, mais do que atitudes racistas, estiveram em geral por detrás das relações entre portugueses e africanos. Só em Moçambique, e nunca coerentemente, se podia encontrar um preconceito racista contra o Negro, devido à influência sul-africana e rhodesiana, apesar de todos os esforços oficiais em contrário. Exploração do trabalhador, discriminação real, conquanto ilegal, negligência no combate ao analfabetismo e outros sinais julgados típicos de um regime colonialista podiam igualmente encontrar-se na Metrópole, onde as classes chamadas inferiores eram similarmente exploradas, sujeitas a discriminação e desprezadas na sua promoção cultural. A história dos territórios ultramarinos portugueses e a política de Portugal em África no século XX têm de ser compreendidas como réplica, ampliada, da história metropolitana, com todo o seu lento desenvolvimento económico, vícios morais de estrutura e atraso cultural. É a não compreensão deste fenómeno que normalmente leva a enganos e interpretações erradas.” (Marques, 1998:541)

Retomando a figura do nosso autor, de referir que Augusto Casimiro, ligado à oposição democrática ao Estado Novo, manteve sempre, e até ao final da sua vida, grande atividade literária. Enquanto memorialista e comentarista político, foi colaborador da revista Águia, integrou o grupo que fundou a Renascença Portuguesa (1912) e aquele que, uma década depois, fundaria o Grupo da Seara Nova, publicação que dirigiu entre 1961 e 1967, de oposição ao regime político do Estado Novo.

 

(Imagem de um livro onde se pode observar uma nau portuguesa e a frase "Por mares nunca dantes navegados. Mais além! Mais além")

Além de Cartilha Colonial, a Secretaria-Geral do Ministério da Educação e Ciência reúne no seu catálogo bibliográfico outras importantes obras do autor:

·         Calvários da Flandres, 1920

·         Nas trincheiras da Flandres, 1919

·         Livro das bem- amadas, 1921

·         Naulila, 1922

·         Ilhas crioulas, 1930

·         Alma africana, 1936

·         Paisagens de África, 1938

 

 

 

FONTES E BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

 

FARIA, Maria Isabel & PERICÃO, Maria da Graça (2008) Dicionário do livro: da escrita ao livro eletrónico. Coimbra: Almedina.

MARQUES, A.H. de Oliveira (1998) História de Portugal (Volume 3). Das revoluções liberais aos nossos dias. Lisboa: Presença.

SERRÃO, Joel & MARQUES, A.H. de Oliveira (1992) Nova História de Portugal (Vol.12). Portugal e o Estado Novo (1930-1960). Lisboa: Presença.

 

Na Internet:

AMARANTE PORTAL (2010). Augusto Casimiro [on line]. Histórico e noticioso, artigos aleatórios, 19 de maio de 2010

<http://amaranteportal.net/index.php/vultos-amarantinos/augusto-casimiro> [Consulta: 28 de Dezembro de 2011]

 

BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL (2004). Depósitos, Casimiro, Augusto, 1889-1967 [on line].

<http://acpc.bn.pt/deposito_autores/d05_casimiro­_augusto.html> [Consulta: 30 de Dezembro de 2011]

 

INFOPÉDIA (s. d.). Augusto Casimiro [on line].

<http://www.infopedia.pt/$augusto-casimiro> [Consulta: 29 de Dezembro de 2011]

 

WIKIPEDIA (2010). Augusto Casimiro dos Santos [on line]. 29 de julho de 2010

<http://pt.wikipedia.org./wiki/Augusto_Casimiro_dos_Santos> [Consulta: 28 de Dezembro de 2011].

 

 

JMG

 


2012/01/16

Peça do mês de Janeiro






Painel de azulejos 


Painel de azulejos emoldurado em base de madeira. Destaca-se, ao centro, uma mulher de lenço à cabeça que segura no colo uma réplica de um moliceiro, acompanhada por uma criança. Atrás deles, surge um conjunto de três homens de chapéu de abas largas, sendo que um deles segura numa viola. Nas laterais, surgem mais dois músicos (um tocador de gaita de foles e um de tambor), enquanto o flautista está sentado no chão, virado na direção da mulher. Data do ano de 1953 e foi realizado por alunos da escola, no âmbito das Artes Visuais

O painel pertence à Escola Secundária Dr. Mário Sacramento, Aveiro, com o número de inventário ME/400970/56. A escola foi criada em 1893 como Escola de Desenho Industrial de Aveiro, com o objetivo de formar indivíduos que pudessem trabalhar na indústria de cerâmica, florescente nesta zona. Em 1898 passou a designar-se como Escola Industrial e em 1914 como Escola Industrial e Comercial, abrangendo outras áreas do ensino técnico, como é o caso da costura, talha, carpintaria, serralharia ou eletrotecnia.

Após 1974, a Escola passou a Escola Secundária n.º 1 de Aveiro. Em 2002 adotou como patrono o Dr. Mário Sacramento, que deu o nome à instituição. Mário Emílio de Morais Sacramento (19201969), médico, escritor e teorizador do movimento neorrealista, foi uma figura de grande destaque no panorama político português devido à sua oposição ao regime do Estado Novo.

A cerâmica desempenhou desde sempre um papel preponderante na região de Aveiro. Durante o século XVI esta atividade ganhou importância através do aparecimento das primeiras “fábricas” de olaria. O século XVIII marcou o desenvolvimento da cerâmica artística decorativa, sendo de destacar a Fábrica do Côjo, fundada em 1775 por João Rodrigues Branco, que implantou a cerâmica elaborada com barro branco. A partir de 1860, esta fábrica começou a produzir azulejos através de uma nova técnica de estampilhagem.

Em 1882 foi fundada a Fábrica da Fonte Nova, responsável pela produção de objetos bastante diversificados, desde a louça comum até peças de azulejaria. A necessidade constante de pessoal qualificado e artistas esteve, assim, na origem da Escola de Desenho Industrial de Aveiro. A partir de 1905 esta fábrica degradou-se e teve de competir com a nova Fábrica dos Santos Mártires, mais tarde Fábrica Aleluia, criada por antigos operários, que incentivou a produção do azulejo.

A partir de 1911 foram criadas várias fábricas em Aveiro, assistindo-se a um novo fôlego a partir da primeira guerra mundial, contribuindo para o sucesso da região na produção cerâmica nacional.

 

Bibliografia e informação adicional:


http://www.aveiro.eu/page.asp?lg=pt&pid=161

http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/2170.pdf

http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223394764P3rXB4nf5As64EQ1.pdf

http://www.aveiro.co.pt/categoria.aspx?categoria=museus

 


Para consultar a história da Escola Secundária Dr. Mário Sacramento:

http://www.esms.edu.pt/


MJS

2012/01/11

“Melhor do que a natureza” – Modelos anatómicos no Museu Virtual da Educação


(ME/401638/26 - Modelo de estômago de ruminante - ME/Escola Secundária com 3º ciclo Emídio Garcia)


O uso de modelos anatómicos tem uma longa tradição em contexto das práticas pedagógicas, não só no ensino básico e secundário, mas também no ensino universitário. Os séculos XVIII e XIX foram os mais significativos ao nível da produção de modelo didáticos, não só pelo rigor científico que apresentam, mas também, pela sua função eminentemente didática e pelo valor artístico.

 

Henri Reiling (Reiling, "Beter dan de natuur", 2003) inicia o seu artigo com uma reflexão acerca da ambiguidade do conceito de “modelo”. Para o autor, o conceito contém em si próprio uma contradição intrínseca: como podemos considerar que uma representação é um “modelo”, se não consegue traduzir a multiplicidade de variáveis existentes na própria natureza que pretende representar? Embora esta questão pudesse ser alvo de demorada reflexão, H. Reiling explica que a palavra “modelo” tem a sua origem no século XV, ligada à arquitetura. Nesta época eram frequentes os modelos técnicos, elaborados à escala, antes do início das construções que representavam. Como tal, a palavra é utilizada pelo autor ao longo da sua explanação.


(ME/400129/197 – Imagem parietal de célula - ME/Escola Secundária D. Sancho II)

 

Outro dos conceitos abordados por H. Reiling diz respeito ao facto do modelo anatómico se poder substituir à própria natureza. Isto acontece, pois, muitas vezes, os espécimes não se encontram imediatamente disponíveis para a observação directa. Por outro lado, os materiais utilizados na elaboração destes modelos são apropriados para uma análise contínua, uma vez que são permanentes sem estarem sujeitos à deterioração natural da matéria orgânica.

 

(ME/401638/24 – Coração de serpente- ME/Escola Secundária com 3º ciclo Emídio Garcia)


De seguida, é apresentada uma tipificação dos modelos, de acordo com a relação com a realidade que pretendem representar. Para referido autor existem os seguintes:

            - modelos técnicos – definem a realidade, seja ela presente ou futura. Como exemplo Reiling aponta os modelos arquitectónicos utilizados nas construções das grandes catedrais do século XV, como já foi acima referido. Este tipo de modelos contribuiu não só para o desenvolvimento de técnicos, mas também para a disseminação de conhecimentos, sobretudo de princípios mecânicos;

            - modelos funcionais – imitam/ representam a realidade. Na opinião de Reiling, o modelo funcional representa algo que, na realidade, não é assim: uma flor não é de papel, da mesma forma que um corpo não é de cera;

            - modelos científicos – definem pressupostos ou hipóteses, ou seja, são simulações, analogias da realidade. Não pretendem representar a realidade tal como ela é, mas sim testar hipóteses ou avaliar dados;

            - modelos à escala – têm propósitos recreativos, como é o caso das locomotivas ou das casas de bonecas, cuja função é puramente lúdica.

 

(ME/403362/40 – Imagem parietal do corpo humano/Tecido nervoso - ME/Escola Secundária de Ermesinde)


O objeto de análise do trabalho de H. Reiling são as tipologias de modelos anatómicos. Fazendo uma breve resenha histórica sobre o tema, refere a importância dos modelos anatómicos do corpo humano, em cera, produzidos durante o século XVIII em Itália. A técnica do trabalho em cera, teve o seu grande desenvolvimento em Florença nos ateliers de Clemente Susini (1754-1814) e Paolo Mascagni (1755-1815). Estes modelos do corpo humano eram acessíveis a todo o tipo de público, sob o conceito da divulgação de conhecimentos do Iluminismo. Impressionam pela frescura, pelas cores e pela imaculada perfeição sem traços de envelhecimento ou degradação da matéria.

 

Durante o século XIX estes modelos italianos foram copiados e utilizados para o ensino da medicina, destacando-se nomes de grandes produtores como André Pierre Pinson (1746-1828) em França ou Petrus Koning (1787-1834), que trabalhou para a Universidade de Utrecht.


(ME/400439/309 – Imagem parietal de espécie vegetal/ Morangueiro - ME/Escola Secundária Sebastião e Silva)


Igualmente, Louis Auzoux (1797-1878), médico francês, começou a sua produção de modelos anatómicos humanos de grande precisão, em papel-machê e gesso, introduzindo uma inovação no ensino da anatomia: os seus modelos eram desmontáveis e as diversas peças do corpo humano podiam ser removidas e recolocadas. O Museu Virtual da Educação (Secretaria-Geral do ex-Ministério da Educação - http://edumuseu.sg.min-edu.pt//) conta com peças produzidos por este especialista. É o caso de alguns modelos didácticos de partes do corpo de alguns animais como o estômago ou o coração. Para além dos modelos anatómicos estão presentes na base de dados muitas imagens parietais de teor esquemático e naturalista. Dizem respeito à representação de diferentes tipos de tecidos, através de imagens aumentadas e em corte. São imagens coloridas, sobre um fundo negro.

 

Podem observar-se igualmente várias imagens de botânica, de carácter naturalista e, por vezes, com ampliação das raízes, caule, frutos e vários aspetos das folhas.


(ME/401109/429 – Modelo de espécie vegetal - ME/Escola Secundária de Camões)

Cerca de 1893, assistiu-se a um revivalismo de uma técnica de moldagem do gesso que permitiu recriar a natureza, mais conhecida como “moulage”. A sua função era documentar a natureza, expressando a sua essência e não copiá-la. Uns dos exemplos deste tipo de trabalho são as máscaras funerárias, captadas no momento da morte, e utilizadas para fins artísticos, científicos ou pessoais.

 

No que respeita aos modelos anatómicos de botânica, estes começaram a ser produzidos em Itália, utilizando a cera. Destacam-se nomes como Clemente Susini, Francesco Calenzuoli (1796-1829), Luigi Calamai (1800-1851) e Egisto Tortori (1829-1839). Leopold Trattinick tornou-se bastante conhecido na Áustria devido aos seus modelos de cogumelos, utilizados para ensinar a população a distinguir os comestíveis dos venenosos. Em França podem-se referir nomes como Jean Baptiste Barla (1817-1896), que produziu modelos de cogumelos e Louis Marc Antoine de Robillard d’Argentelle's (1777-1828), que se especializou em modelos de cera de frutos tropicais.


(ME/401109/377 – Dicotiledónea - ME/Escola Secundária de Camões)
 

Esta diversificação de especialistas científicos conduziu ao aparecimento de modelos especiais, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX. Adolf Ziegler e o seu filho Friedrich Ziegler (1860-1936) produziram modelos de cera representando de forma muito aumentada alguns estados embrionários. Rudolf Weisker construiu modelos aumentados de parasitas e Frič, em Praga, dedicou-se à produção em larga escala de microrganismos.

 

Robert e Reinhold Brendel produziram modelos de botânica, aumentados, com uma precisão científica e uma qualidade artística dificilmente alcançáveis. Estes modelos eram elaborados em papel-machê, madeira, algodão, rattan, vidro, penas ou resina. Incluem representações de plantas, algas, fungos e outros. Estes modelos, utilizados para a prática da botânica, enfatizaram as estruturas e sistemas internos, cortes e zonas específicas das plantas. O Museu Virtual da Educação conta vários modelos Brendel representando secções transversais de espécies vegetais ou modelos didácticos de diferentes tipos de flores, desmontáveis, em base circular de madeira.

 

Emille Deyrolle, naturalista francês, vendia colecções de espécimes a naturalistas amadores, bem como modelos anatómicos para uso didáctico em escolas com nível de ensino primário e secundário. Fundou a sua companhia em 1831, e passou para a conhecida Rue du Bac, em Paris, em 1881. Para além dos modelos, a produção desta casa destacou-se igualmente pela produção de imagens parietais de grande qualidade como é o caso dos “Tableaux d'Histoire Naturelle”, da autoria de Gaston Bonnier, presentes na colecção do Museu Virtual da Educação. De destacar a existência de alguns modelos didáticos para estudo e observação de diferentes fases de germinação de espécies vegetais.


(ME/403702/51 – Imagem parietal de espécie vegetal/ Flor - ME/Escola Secundária de Mirandela)
 

Cerca de 1880, Leopold (1822–1895) e Rudolf Blaschka (1857 –1939) fundaram uma pequena companhia que começou por produzir requintados modelos de flores em vidro. Incentivados pelo grande interesse do príncipe Camille de Rohan, (1800–1892), pai e filho produziram centenas de flores de vidro, verdadeiros tesouros da arte e provavelmente os melhores que podemos encontrar no género. Cerca de 1863, Blaschka mudou-se com a família para Dresden, sendo altamente recomendado. A partir de então, a pedido de alguns clientes, começou a produzir modelos de invertebrados marinhos, como anémonas e corais, também em vidro. Todos estes modelos eram especialmente recomendados para o ensino.

 

H. Breitling realça o facto destes modelos se basearem sobretudo em imagens disponíveis em publicações da especialidade. Só uma pequena parte destas representações foram concebidas através de uma observação direta dos espécimes recolhidos no seu habitat natural. Poderão, assim, os objectos artificiais ser uma verdadeira imitação da natureza?

 

De facto, se nunca se tiver contactado com as plantas ou animais reais, não se poderá apreender a sua verdadeira natureza através dos modelos, uma vez que a sensação táctil é indispensável. Para além disso, a maior parte destas representações são muito aumentadas, pelo que características essenciais como as dimensões nunca serão totalmente apreendidas. Na verdade, não é possível compreender as variações naturais de cada espécie, em tamanho, forma e cor. Os modelos representam uma realidade mais adequada aos museus do que à própria vida.


(ME/401109/360 – Aparelho auditivo - ME/Escola Secundária de Camões)


 

Os modelos elaborados no século XIX foram realizados com uma mestria e refinamento que refletem o espírito da ciência deste período e, como tal, extremamente atrativos do ponto de vista estético. Poderemos considerá-los obras de arte? Para Breitling o que está em questão é a intenção do autor: pretenderia ele que os seus objectos fossem decorativos ou científicos? A resposta não é simples.

 

Depois de Marcel Duchamp a tónica deixou de ser colocada no conteúdo artístico de uma obra, mas no tipo de experiência que esta evoca: qualquer objecto apresentado numa roupagem estética pode invocar experiências artísticas e ser considerado arte. H. Breitling termina o seu artigo afirmando que os modelos de Blaschka, à semelhança de muitos outros, com o seu entusiasmo pela ciência e pelo amor da natureza, são filhos do seu tempo, constituindo não só objectos de ensino, mas também objectos artísticos.

 

Bibliografia

 

Henri Reiling, "Beter dan de natuur" in: Jan Brand & Alex de Vries (eds), NEO, pp. 221-235. Utrecht: Centraal Museum, 2003) http://members.ziggo.nl/here/neo.html

Nick Hopwood, Embryos in wax: models from the Ziegler studio. Cambridge etc., 2002.

James Peto en Angie Hudson (red.), Leopold and Rudolf Blaschka. Londen etc., 2002 http://members.ziggo.nl/here/design.html

 

Henri Reiling, 'The Blaschkas' glass animal models: origins of design', Journal of Glass Studies 40 (1998), pp. 105-126.

http://members.ziggo.nl/here/jofgs.html

 

Henri Reiling, 'The Blaschkas' glass animal models: illustrations of 19th-century zoology', Scientiarum Historia 26 (Brussels, 2000) nr. 12, pp. 131-143.

http://members.ziggo.nl/here/gewina.html

 

MJS