2014/04/02

Boletim Oficial do Ministério de Instrução Pública




(Imagem da capa do Boletim Oficial do Ministério de Instrução Pública. Ano I. N.º 1)

O período compreendido entre 1861 e 1902 não foi profícuo na produção de publicações periódicas, embora tenham surgido algumas de grande importância que se perpetuaram no tempo, quer a nível de conteúdos, quer a nível longitudinal. Bons exemplos destas exceções são, efetivamente, as publicações de órgãos oficiais, tais como, as da Direcção-Geral de Instrução Pública, nomeadamente, o Boletim Oficial do Ministério de Instrução Pública, ao qual dedicaremos o nosso estudo biblioteconómico, e os Anuários, publicações dos Liceus.

Os Anuários, também consideradas publicações periódicas, publicados nos liceus, tiveram um papel decisivo na gestão pedagógico--administrativa das escolas. Devido à sua importância, estes procedimentos foram legiferados através do Artigo 129º de 14 de agosto de 1895 que regula a feitura de anuários:

 

“Em obediência ao nº 19º do Artigo 129º do regulamento vigente da instrução secundária de 14 de Agosto de 1895 costumam os liceus publicar os seus Anuários. Efetivamente, nessa disposição legal que passou para o regime atual do ensino secundário, indicam-se como devendo fazer parte dos Anuários: o quadro da distribuição das disciplinas pelas classes e por professores, os horários, a distribuição dos alunos pelas aulas, a nota dos exames e as classificações que neles obtiveram os estudantes e quaisquer outras informações que completem a ideia do estado literário e económico do liceu. Assim termina o mencionado nº 19º do Artigo regulamentar, entendendo-se por aqui que nesses Anuários devem aparecer as informações sobre toda a vida pedagógica e económica dos liceus” (Ferrão, 1920:49).



(Decreto N.º 2:132 de 15 de dezembro de 1915. Ministério de Instrução Pública. Secretaria Geral)

 

Apesar de detalhadas considerações administrativas dos anuários, estes não espelham, como bem sabemos, a vida pedagógica e económica dos liceus de então, ao invés, muitos deles, não passam de “sonolentas e incaracterísticas listas de nomes de professores e alunos”. Não esquecer, como é referido várias vezes em Os arquivos e as bibliotecas em Portugal, que o desenvolvimento de bibliotecas, de gabinetes de física, de geografia, mineralogia, enfim, o melhoramento significativo as investigações pedológicas são fatos sobremodo importantes e dignos de figurar nos Anuários, como o são o estabelecimento duma aula de trabalhos manuais ou mesmo planeamento e aulas de geologia, fauna e flora locais:

 

“Muito seria para desejar ver figurar nesses Anuários as várias ligas, comissões, sociedades e associações de estudantes; umas para desenvolverem a gôsto pela leitura, pelos trabalhos scíentificos e pela divulgação das principais práticas da higiene; outras de intuitos artísticos para a realização de exposições de desenhos e pinturas, para a constituição de sextetos ou pequenas orquestras, não esquecendo o canto coral a todos os estudantes deve envolver e estreitar” (Ferrão. 1920:51).

 

Atendendo às exigências politico-pedagógicas, numa perspetiva republicana, os anuários de cada liceu deveriam ser um reflexo nítido da vida escolar, um documento oficial e digno de ser lido não só pelos portugueses, que se interessavam pelo progresso do ensino nacional, mas também por estrangeiros, podendo colocar-se ao lado das publicações similares impressas em países progressivos! Assim, a circular que teve despacho favorável do Exmo. Ministro da Instrução Pública, Dr. Sousa Júnior, em 29 de outubro de 1913, no Diário do Governo, Nº 267, reza assim:

 

“Tendo-se reconhecido que os relatórios anuais dos reitores dos liceus, organizados nos termos do número 19º do artigo 129º do Decreto regulamentar de 14 de Agosto de 1895 por se limitarem a simples registos de alunos matriculados, notas, horários e similhantes, não satisfazem ao intuito pedagógico que a estas publicações deve ser atribuído; e convindo dar-lhes o caracter e importância que merecem a bem do ensino secundário, determina o Exmo. Ministro que a atenção dos reitores dos liceus seja solicitada para este assunto, de forma que d'ora avante os Anuários insiram quaisquer trabalhos de natureza pedagógica e exercícios de alunos que de tal distinção sejam dignos, o que tudo o Exmo. Ministro espera do seu zelo e dedicação pelo ensino” (Dec. nº 2.132, 16 de dez. 1915).

 

Como verificamos, nos meandros académicos, havia a consciencialização de que uma publicação periódica, pelo fato de ser periódica, poderia reorganizar procedimentos e, sobretudo, consolidar pedagogias e igualá-las às reinantes na europa. A motivação para tal reformulação fundamenta-se em fatores exógenos, argumentando-se que todos os países civilizados publicavam monografias sobre os seus serviços públicos. Estas publicações eram, por assim dizer, representações das nacionalidades e certames de pensamento da atividade humana.

A publicação do Boletim Oficial do Ministério da Instrução Pública foi reproposta pelo Ministério da Instrução Pública, ao abrigo do Decreto Nº 2.132 de 16 de dezembro de 1915. O anterior Decreto faz referência direta ao artigo do Artigo 8º da Lei nº 12, de 7 de junho de 1913 – “[…] que a Secretaria Geral do Ministério da Instrução Pública tenha a seu cargo a publicação do Boletim; considerando que é da máxima urgência a publicação e necessidade de dar começo a essa publicação. Considerando que se torna preciso estabelecer as condições em que deve ser administrado esse Boletim.”

 A necessidade destas diretivas pedagógicas já tinha sido delineada legalmente em 1913, ainda assim, a proposta definitiva só foi “dada nos Paços do Gôverno da República” em 11 e publicada dia 16 dezembro de 1915. Mas, somente, em março de 1916, cinco anos depois, surge à luz a primeira publicação[1]:

 

“O Boletim Oficial do Ministério de Instrução Pública começou a aparecer em Março de 1916, isto é mais de cinco anos depois das nossas diligências objetivasdas nas propostas e planos que acima expuzemos. No artigo de apresentação do Boletim faz-se uma súmula muito rápida, e por isso incompleta d'A obra pedagógica da República; porém, redigido por quem, naturalmente, não trabalhou na importante obra pedagógica do Governo Provisório — e que vai de 5 de Outubro de 1910 aos fins de Maio de 1911 — passa em branco toda essa obra notável, que, na sua quási totalidade, ainda está de pé apesar da má vontade de muitos e dos despeitos de bastantes, tudo isso junto à ignorância do maior número. Talvez ainda um dia venhamos a tratar, com a pormenorização e o detalhe necessários em tão sérios assuntos, do que foi a obra pedagógica do primeiro governo da República, não para relatar o nosso esforço, que foi muito grande, muito intenso, e depois tão ingratamente recompensado — mas adiante! — mas porque defendendo todo esse trabalho pugnamos pelo que consideramos ainda hoje a mais notável obra moral da República, apesar da incoordenação de muitas das suas medidas e das lamentáveis omissões cometidas, principalmente com a não criação do Ministério de Instrução Pública, e com a falta da reforma do ensino secundário que cortou, desastrosamente, a continuidade do ensino primário com o superior nos seus dois grandes tipos: o universitário — ou da sciência pura, e o técnico — ou da sciência aplicada. Ainda ultimamente ouvimos uma afinadíssima orquestra de elogios ao Estatuto Universitário promulgado em 1918; pois coteje-se esse diploma com a Constituição Universitária de 11 de Abril de 1911, e diplomas conexos, e vêr-se há -que tanto no seu espírito, como, até, por vezes, na sua redacção a diferença é nula no que respeita ao texto dos diplomas. Apenas a tabela de vencimentos que segue o Estatuto de 1918, difere dos orçamentos até então fixados. Pela nova tabela desse decreto os vencimentos do professorado universitário são melhorados notavelmente: eis o segredo da grande fama do Estatuto sidonista!” (Ferrão, 1920:55).

 

Como denotou Ferrão (1920:55) em Os arquivos e as bibliotecas em Portugal, a criação do Boletim Oficial do Ministério da Instrução Pública surgiu definitivamente em março de 1916 como instrumento da obra pedagógica da república.

Sendo que esta publicação periódica portuguesa foi, ou pretendeu ser, o elo de ligação entre o Ministério de Instrução Pública e o público a alfabetar – aperfeiçoa-se, assim, a obra educativa de alcance social e moral através de entusiastas, progressista e intelectuais. Leiamos, seguidamente, a súmula dos objetivos publicada no Boletim Oficial do Ministério de Instrução Pública, A. 1, Nº 1, (Março, 1916), p. 5-6:

 

“Publica-se êste Boletim para estabelecer definitivamente, entre o público e o Ministério de Instrução, um mais estreito, constante e íntimo contacto. A República tem realizado pela instrução do País um esforço admirável. Mas decerto convém que a esse esforço se associe a nação inteira, por um melhor entendimento do que ele vale e significa. Não tem outro fim a publicação hoje iniciada, que não seja criar fortes laços de solidariedade, entre o governo e os cidadãos, na continuação, na defesa e no aperfeiçoamento da obra educativa do novo regime, obra de tão alto alcance social e moral, e de tão puro entusiasmo pelos nossos progressos intelectuais. Esses laços de solidariedade tornam-se indispensáveis numa democracia consciente, para que as aspirações de todos encontrem eco e satisfação nas regiões oficiais; e para que estas, por sua vez, sintam e saibam que trabalham dentro dum critério nacional, e, portanto, imediatamente fecundo e útil. O Boletim inspirar-se-á nesta maneira de ver. E procurará, portanto, ser um resumo fiel dos trabalhos do Ministério, e, ao mesmo tempo, uma resenha de todas aquelas intenções e reformas que ao Estado pareça conveniente efectivar, para bem da República e do País. […]. Simultaneamente, promulgou uma série de reformas, todas animadas dum nobre critério pedagógico e de intuitos profundamente liberais, nos quais acima de tudo sobreleva o desejo de criar um ensino do povo para o povo, prático, fecundo e apto a reformar trabalhadores e cidadãos“ (M.I.P., 1916:5-6).

 

O Boletim Oficial divulgou essencialmente legislação e investigações produzidas no âmbito das funções do Ministério da Instrução Pública. Editado em dois períodos distintos, 1916 - 1917 e 1929 – 1936, denotam-se significativas variações no plano discursivo, derivadas, evidentemente, das sucessivas reestruturações do Ministério e dos sucessivos sistemas de ensino. Como bem verificou Silva (2010:85), existe uma oscilação de interesses entre as seções pedagógicas oficiais, nas quais era dividida a publicação. Por exemplo, na década de 1930 verifica-se uma progressiva diminuição da componente pedagógica. A secção oficial inclui um vasto conjunto de diplomas de natureza jurídica diversa (decretos, despachos, circulares, etc.), que se reportam à quase totalidade de assuntos relacionados com o sistema educativo, subdividindo-se em assuntos pedagógicos e gestão escolar:


- Ensino primário;

- Ensino normal (mais tarde magistério primário);

- Ensino secundário (liceal, técnico e profissional);

- Ensino superior e técnico-superior;

- Inspeção pedagógica e sanitária;

- Secretaria-geral (legislação e assuntos diversos);

- Serviços centrais ou dependentes do Ministério;

- Profissão docente;

Museu Pedagógico de Lisboa e regulamentação de várias instituições;

- Recomendações de natureza educativa não-formal (escoteiros, associativismo escolar, e publicações escolares);

- Etc.

 

A seção pedagógica, uma das mais apetecíveis aos leitores da Direção de Serviços de Documentação e de Arquivos, é composta por relatórios; lições inaugurais; conferências; comunicações e estudos; bem como por um importante volume de dados estatísticos. Nesta seção são tratados assuntos, tais como:


- Pedagogia e didática, aplicadas ao ensino de algumas disciplinas e à sua inserção curricular (por ex.: Matemática, Língua materna, História, Educação Física e Desenho);

- Seleção e avaliação escolares, ora analisando estatutos nos vários graus de ensino, ora estudando o papel e resultados dos exames em múltiplas vertentes;

- Organização e funcionamento do sistema escolar (patentes no texto de Adolfo Coelho sobre o ensino secundário 1916/17);

- Reformas e organização escolar no estrangeiro (Estados Unidos e Brasil, sobretudo);

- Problemas específicos e organização do ensino técnico e profissional (destaque de Ernesto Korrodi sobre o ensino profissional-artístico de canteiros e o número especial 1934);

- Saúde escolar e higiene inerentes à população escolar;

- Questões relativas ao ensino superior, nomeadamente no âmbito da extensão universitária;

- Inspeção escolar, onde se destacam os relatórios por distrito escolar;

- Rede escolar primária (conjunto de dados estatísticos relativos a 1915 e 1929/30);

- Apreciação e aprovação dos manuais escolares.

 

A periodicidade do Boletim Oficial do Ministério da Instrução Pública é mensal (desde Jun. 1916 agrupam-se vários números por cada edição) e eventual a partir de 1929 (entre dois a quatro números por ano). Em termos gerais, o Boletim do Ministério da Instrução Pública publica-se entre março de 1916 - outubro-dezembro de 1917 e, depois de um pequeno interregno, entre janeiro-julho de 1929 – 1935.

Os principais colaboradores, até final de 1917, com alguma regularidade, são: António Aurélio da Costa Ferreira; Ernesto Korrodi; Costa Sacadura; Pedro José da Cunha. Colaboram mais esporadicamente: A. Freire de Andrade; Bento Carqueja; Francisco Adolfo Coelho; Luís Cardim; F. A. da Costa Cabral; João Ribeiro Cristino da Silva; José de Araújo Correia; Euclides Goulart da Costa; Amaro de Oliveira; Tude M. de Sousa; Reinaldo dos Santos; Carlos Babo; e Rodolfo Guimarães.

Entre 1929 e 1935 colaboram Maria dos Reis Campos; José Pereira; José Júlio Rodrigues; o diretor do Boletim, entre outros. O responsável editor é o Ministério da Instrução Pública e Diretor Oliveira Guimarães (a partir de1929).



[1] Esta proposta veiculada em 1913 não teve andamento imediato, por razões várias, como por exemplo: como a falta de verba; a falta de energia de quem tinha por função dirigir; resistência passiva de uns; deficiência de zelo de outros.

 

 

 

BIBLIOGRAFIA:

 

CASTILHO, J.M. Tavares (2010). Os procuradores da Câmara Corporativa, 1935-1974. Lisboa: Assembleia da República: Texto Editora.

 

NÓVOA, António (dir.) (1993). A imprensa de educação e ensino: repertório analítico (século XIX-XX). Lisboa: Instituto de Inovação Educacional. (Memórias da educação).

 

FERRÃO, António (1920). Os arquivos e as bibliotecas em Portugal. Coimbra: Imprensa Nacional. (Sciências auxiliares da História. Bibliografia e bibliotecografia).

 

FERREIRA, António Gomes; MOTA, Luís (2013). “A formação de professores do ensino liceal. A Escola Normal Superior da Universidade de Coimbra (1911-1930)”.


Revista Portuguesa de Educação; Nº 26, (2013), p. 85-109.


MINISTÉRIO DA INSTRUÇÃO PÚBLICA (1916). “A obra pedagógica da república”. Boletim Oficial do Ministério de Instrução Pública, A. 1, Nº 1, (Mar. 1916), p. 5-6. PORTUGAL. Decreto nº 2.132, [de 16 de dezembro de 1915]. Diário do Governo, 1ª Série, Nº 255, p. 1344.


RODRIGUES, Jorge de Sousa. “Um roteiro da educação nova em Portugal: Escolas novas e práticas pedagógicas inovadoras (1882-1935)”[on-line]: Analise Social; Nº 176, (2005), p. 731-736. ISSN 0003-2573. [consulta: 3 março 2014].

 

SILVA, Carlos Manique da (2010). Publicações periódicas do ministério da educação: repertório analítico (18612009). Porto: Universidade do Porto.


2014/03/19

Exposição "Luís Serrão Pimentel e a ciência em Portugal no século XVII"

(Cartaz alusivo à exposição "Luís Serrão Pimentel e a ciência em Portugal no século XVII")



A Biblioteca Nacional inaugura uma exposição evocativa dos 400 anos do nascimento de Luís Serrão Pimentel (1613 - 1679) que estará patente ao público de 28 de fevereiro a 30 de abril. Integra manuscritos existentes nas principais bibliotecas patrimoniais portuguesas e muitos documentos inéditos. Para mais informações clique aqui.

2014/03/11

Peça do mês de março




Conjunto de lentes
Conjunto de lentes para uso de oftalmologistas em caixa-estojo, de madeira, com a inscrição Mon. Charrière Collin, Paris. O conjunto é composto por uma armação metálica (tipo armação de óculos) para colocar no paciente e servir de porta-lentes; 4 filtros (Ø =3,5 cm), vermelho, verde, azul e amarelo; 1 diafragma (Ø = 3,5 cm) com um orifício; 1 disco (Ø = 3,5 cm), com metade de vidro e metade de vidro fosco; 1 coleção de lentes prismáticas (faltam as lentes de 4, 6 e 7 dioptrias); 1 coleção de lentes cilíndricas côncavas (faltam 2 lentes de -4 dioptrias, 2 lentes de -4,50 dioptrias, e 2 lentes de -0,50 dioptrias); 1 coleção de lentes esféricas convexas (faltam 2 lentes de +20 dioptrias, de +18, +16, +15, +14, +13, +12, +11, +10, +9; 2 lentes de +7 dioptrias; 2 lentes de +2,75 dioptrias; 1 lente de 2,50 dioptrias; 1 lente de +2 dioptrias; 2 lentes de 1,50 dioptrias; 1 lente de +1,25 dioptrias; 1 lente de +1 dioptria; 1 lente de +0,75 dioptrias; e uma lente de +0,25 dioptrias). Cada lente tem 3,5 cm de diâmetro e está incrustada num aro metálico com um pequena pega com o valor da potência inscrito. Está inventariado com o número ME/404652/6 e pertence ao espólio museológico da Escola Secundária de Pedro Nunes.
Joseph Frédéric Benoît Charrière (1803 - 1876) começou o seu trabalho como cutileiro numa oficina e especializou-se no fabrico de variados instrumentos cirúrgicos. Adquiriu grande notabilidade produzindo para grandes cirurgiões, como Dupuytren, Civiale e Ségalas, que não só patrocinaram o seu trabalho, mas também lhe abriram novas perspetivas para a realização de novos instrumentos. Artesão notável, Charrière sempre procurou as mais modernas técnicas industriais para a produção. Trabalhou diretamente nos hospitais, com cirurgiões para a conceção e aperfeiçoamento de toda a espécie de ferramentas de trabalho inovadoras. Com Charrière, a medicina teve um desenvolvimento considerável, sobretudo com a sua participação ativa e pioneira nas primeiras anestesias gerais, em 1847, com a produção de inaladores. Após a sua morte em 1876, a sua Casa foi retomada por dois antigos colaboradores, em 1866: Louis Robert e Anatole Colin. Charrière foi um artesão de renome mundial e o mais destacado fabricante de instrumentos cirúrgicos do século XIX. Aliando o saber artesanal às novas técnicas e ao progresso da medicina, as suas produções destacaram-se pela qualidade, design, estética e adaptabilidade ao trabalho realizado nos hospitais.



MJS

2014/02/26

Biblioteca - Novas Tecnologias



 NOVAS NOV

 
Biblioteca -Novas tecnologias




Com o advento das tecnologias da informação, o ambiente da biblioteca passou por mudanças significativas, colocando em questão a ideia de espaço físico, que de real, cada vez mais assume uma dimensão virtual. Atualmente é neste ambiente virtual que a informação é tratada, armazenada e disponibilizada para ser recuperada com a rapidez e mobilidade que só se fez possível a partir do acesso virtual (cfr. Araújo, 2001).

O avanço tecnológico provocou nas bibliotecas uma nova dimensão física, fazendo alusão à forma virtual. A biblioteca digital, desta forma, assume vários desafios no que diz respeito à formação de utilizadores, à qualificação de profissionais especializados no armazenamento e à disseminação de informação.

O gestor de informação, vulgarmente designado bibliotecário, teve de se adaptar a novas formas de trabalho. Desta forma, todo o trabalho biblioteconómico foi afetado pelos avanços tecnológicos, o que se percebe nas diversas áreas do tratamento e acesso à informação. O que caracteriza uma biblioteca, segundo Carvalho e Malheiro (2009), são os produtos e serviços em rede e, acima de tudo, a nova forma de aceder e sistematizar a (meta)informação.

A biblioteca como um organismo vivo tem a missão de contribuir ativamente na transformação da sociedade atual, devendo ser capaz de se adaptar às mudanças que se apresentam, e preparar o seu utilizador, promovendo entre outras coisas a sua inclusão tecnológica e digital. Assim sendo, é o papel da biblioteca possibilitar aos seus utilizadores a participação ativa na sociedade da atual:

“We define an information ecology to be a system of people, practices, values, and technologies in a particular local environment. In information ecologies, the spotlight is not on technology, but on human activities that are served by technology.

A library is an information ecology. It is a place with books, magazines, tapes, films, and librarians who can help you find and use them. A library may have computers, as well as story time for two-year-olds and after-school study halls for teens. In a library, access to information for all clients of the library is a core value. This value shapes the policies around which the library is organized, including those relating to technology. A library is a place where people and technology come together in congenial relations, guided by the values of the library. “ (Nardi e O'Day, 1999)

Como verificamos, Bonnie Nardi e Vicki O'Day Nardi, (Nardi e O'Day, 1999), apresentam uma perspetiva de informação muito vanguardista, ou seja, a informação assenta, por assim dizer, num sistema de pessoas, práticas, valores e tecnologias em ambientes vários - uma biblioteca é uma ecologia da informação - um lugar com livros, revistas, filmes e, acima de tudo, com bibliotecários que ajudam o cliente a procurar a informação assertiva.

Nas bibliotecas o acesso à informação para todos os clientes é um valor ético essencial. Este valor, a seu modo, molda as políticas em torno da qual a biblioteca é organizada, incluindo as tecnologias - uma biblioteca é um lugar onde os clientes e a tecnologia se unem em (co)relações agradáveis.


A rapidez na pesquisa e recuperação da informação foram fatores determinados pelo desenvolvimento tecnológico e a partir daí o utilizador tem nas suas mãos a informação que procura numa velocidade inimaginável e muitas vezes sem precisar se locomover.

No entender de Lopes e Silva (2007), a pesquisa e recuperação da informação foram beneficiadas pelas novas tecnologias, mas isto não se manifesta apenas nas bibliotecas, pois, ao serem incorporadas pelos serviços técnicos possibilitam o acesso e disseminação de várias obras de referência, bibliografias, resumos, índices, textos completos e blogs, entre outros, tornando-se numa mais-valia para utilizadores e técnico de informação.

Assim sendo, uma das características principais das bibliotecas digital é o acesso instantâneo à informação, interligando informação/cliente, de maneira a facilitar o reencontro entre as necessidades dos leitores e os acervos documentais (Nascimento, et al., 2005).

Segundo Nascimento “A avaliação de uma unidade de informação pode ser fundamentada em opiniões, cuja utilidade reside na importância em se saber como os usuários se sentem em relação ao serviço; no entanto, essa avaliação será mais útil se possuir um caráter diagnóstico, que possibilite descobrir como o serviço poderia atender melhor o público a que se destina. Qualquer procedimento avaliativo com essa característica adota melhores critérios e procedimentos objetivos, cujos resultados devem ser quantificados.” (Nascimento, et al. 2005)


Como verificamos, os clientes que opinam acerca de uma dada unidade de informação são, por assim dizer, uma espécie de diagnóstico e avaliação das redes de informação ou mesmo das bibliotecas digitais que, neste instante, pululam no espaço web. As mudanças ocorridas nas unidades de informação, em decorrência dos avanços tecnológicos nas últimas décadas, têm levado a consideráveis transformações das bibliotecas, nomeadamente, nos serviços biblioteconómicos, provocando consequentemente mudanças no perfil dos utilizadores que passam a incorporar novas formas de se relacionarem com o mundo.


A biblioteca digital permite o acesso às informações de forma instantânea, interligando informação/cliente de maneira a facilitar acessos remotos. Esta nova forma de organizar, disponibilizar e recuperar a informação tem vindo a contribuir para uma maior mobilidade cognitiva do utilizador e, acima de tudo, promover o desenvolvimento de estratégias de pesquisa em rede – a informação, desta forma, vai mais facilmente ao encontro das espectativas dos utilizadores. Como afirma Somoza Fernández e Abadal 2007), são inúmeras são as vantagens que trouxeram os avanços tecnológicos, levando o utilizador real a adquirir uma postura virtual.



BIBLIOGRAFIA:



ARAUJO, Aníbal Perea (2011). “Catálogo da biblioteca: o objeto orientado ao usuário”. [on-line]. Perspectiva em ciência da informação; Vol. 16, nº 2 (2011), p. 17-28
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-99362011000200003&script=sci_arttext> [Consult. 20 dez. 2013].


CARVALHO, Luciana Moreira; SILVA, Armando Malheiro da (2009). “Impacto das tecnologias digitais nas bibliotecas universitárias: reflexões sobre o tema” [on-line]. Informação & Sociedade: estudos; Vol. 19, nº 3 (set./dez. 2009), p. 125-132
< URL : http://www.ies.ufpb.br/ojs2/index.php/ies/article/view/3898/3132> [Consult. 20 dez. 2013].

LOPES, Marili Isensee; SILVA, Edna Lúcia da (2007). “A Internet e a busca da informação em comunidades científicas: um estudo focado nos pesquisadores da UFSC.” [on-line]. Perspectiva em ciência da informação; Vol. 12, n.º 3 (2007) p. 21-40.
< URL: http://dx.doi.org/10.1590/S1413-99362007000300003> [Consult. 20 dez. 2013].

NASCIMENTO, Raimundo Benedito de; TROMPIERI FILHO, Nicolinoi; BARROS, Francisca Giovania Freire (2005). “Avaliação da qualidade dos serviços prestados nas unidades de informação universitárias” [on-line]. Transinformação; Vol. 17, n.º 3 (2005), p. 235-251.
[Consult. 20 dez. 2013].

NARDI, Bonnie A.; O'Day, Vicki L. (1999). “Information ecologies using technology whit heart” [on-line].  First Monday: peer-reviewed  journal on the Internet;  Vol. 4, nº  5, (may 1999)
< http://firstmonday.org/ojs/index.php/fm/article/view/672/582> [Consult. 20 dez. 2013].


SOMOZA FERNÁNDEZ, Marta; ABADAL, Ernest (2007). “La formación de usuarios em las bibliotecas universitarias españolas” [on-line]. El Profesional de La Información; Vol. 16, n.º .4 (2007),   p. 287-293
[Consult. 20 dez. 2013].




S.F.

2014/02/19

Ciclo de Seminários da BAD



(Cartaz alusivo ao ciclo de seminários de 2014)



A Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas (BAD) organiza um ciclo de seminários para 2014, que visam contribuir para a reflexão sobre a área das ciências da informação em termos teóricos e práticos. Os seminários têm início no próximo dia 25 de Fevereiro, com o tema "O Acesso aos Registos e Arquivos Administrativos na época da Internet". Para mais informações aceda aqui à página web da BAD.


2014/02/12

Peça do mês de fevereiro




Carruagem ferroviária
Maqueta de uma carruagem de caminho-de-ferro executada em chapa metálica. Tem uma forma paralelepipédica com a cobertura em arco, apresentando eixos de simetria longitudinal e transversalmente. Lateralmente destaca-se um conjunto de janelas interrompido por uma porta próxima de cada extremidade. Estas têm, inferiormente, um pequeno patim sobreposto a outro que se desenvolve ao longo da carruagem. A cobertura é atravessada por dois respiradores próximos das extremidades. Está inventariada com o número ME/400270/672 e pertence à escola Secundária Jácome Ratton. Elaborado no âmbito das aulas práticas de Serralharia, este modelo apresenta grande mestria na sua execução.
As carruagens são veículos que se destinam ao transporte de passageiros. Sofreram várias alterações ao longo dos tempos, desde o primeiro comboio onde eram abertas, até à atualidade. As transformações nos equipamentos ferroviários, sobretudo durante a segunda metade do século XIX, visaram adequar as superfícies utilizadas às novas necessidades de conforto dos passageiros.
A partir de 1830, com a expansão do caminho-de-ferro, tentou-se encontrar soluções de equipamento que visavam a melhoria das condições de transporte de passageiros. Como tal, cerca de 1858 surgem os bancos reclináveis e basculantes. Com George Pullman e Leonard Seibert, iniciaram-se as primeiras experiências para desenvolver uma carruagem dormitório. Desde então, e até aos nossos dias, a evolução foi contínua, implementando melhores formas de viajar de comboio.


MJS

2014/02/05

Preservação e Conservação na Biblioteca Joanina





(Imagem a preto e branco da biblioteca na Universidade de Coimbra)




Introdução

O edifício da Biblioteca Joanina alberga documentação que, a seu modo, deverá ser preservado e conservado, tornando-se desde logo o primeiro abrigo das coleções. Destacam-se, assim, vários aspetos significativos da conservação preventiva das coleções impressas, nomeadamente, o controlo de condições ambientais.
Na atualidade, a estrutura arquitetónica do edifício é vista como um elemento positivo no que diz respeito à conservação dos acervos - o edifício, como um todo, deve ser encarado como o elo muito importante da cadeia da conservação, dada a amplitude da sua área.
De facto a deterioração dos livros e documentos, cuja constituição física tanto pode conter matéria orgânica como celulósica, tem uma ligação direta com a exposição a diversos agentes de deterioração designadamente a luz, a poluição, a humidade, a temperatura ou as catástrofes naturais.
A importância das paredes e dos tetos dos edifícios que albergam as coleções deve pois revestir-se de uma atenção especial, de modo a que as características da sua construção possam contribuir para a preservação e conservação “da vida” dos documentos que as constituem. Igualmente importante para a função de preservação é o papel do espaço em que se encontra o edifício bem como o da sua envolvente.
  

A Biblioteca Joanina

A Biblioteca Joanina é uma biblioteca do séc. XVIII, situada no Palácio das Escolas da Universidade de Coimbra, no pátio da Faculdade de Direito. Sendo reconhecida como uma das mais importantes bibliotecas barrocas europeias, as suas origens remontam entre 1717 e 1728, período da sua construção, laborando na sua decoração numerosos artistas e onde se alberga um valiosíssimo acervo bibliográfico, constituído por cerca de 70 mil volumes de livros raros e antigos.

A construção do edifício da biblioteca Joanina deve o seu nome ao monarca D. João V, o Rei magnânimo, como historicamente ficaria conhecido. A sua localização geográfica está inserida num espaço na “Alta de Coimbra”, sem vegetação ao redor formando um microclima seco. Além da importância deste aspeto, esta localização foi também pensada no aproveitamento da luz natural, sendo que o edifício está orientado a sudeste a sua maior incidência solar verifica-se ao final da manhã e da parte da tarde.

O edifício é constituído por três andares, existindo um piso nobre onde se encontra guardada a maior quantidade das suas coleções e cujo interior é formado por três salas que comunicam entre si por arcos. Cada uma destas salas é constituída por estantes de dois andares, em madeiras exóticas, douradas e policromadas apoiadas em parelhas de colunas piramidais invertidas. As paredes exteriores do edifico têm 2,11 metros de espessura. O pórtico majestoso que dá acesso ao interior da biblioteca é feito em madeira de teca.



O edifício e a proteção dos documentos

“A estrutura e o equipamento dos edifícios desempenha um papel essencial na conservação dos documentos de arquivos e dos livros. A escolha de materiais de construção adequados é importante para a assegurar a sua protecção contra os elementos climatéricos (humidade, secura, iluminação solar), contra a poluição atmosférica, contra os insectos roedores e contra o fogo. O próprio local dos edifícios e a sua orientação devem ser cuidadosamente escolhidos […]” (Flieder e Duchein, 1993: 57)

Atendendo às diretivas de Flieder e Duchein (1993) e, sobretudo, às investigações de Casanovas (2006), até ao séc. XIX as condições ambientais seriam definidas pela avaliação sensorial, mais concretamente pela análise dos efeitos visíveis sobre os objectos, tomando como referência aqueles cujo comportamento podia servir de orientação, como por exemplo o caso das gavetas dos móveis que abriam mais facilmente no tempo seco ou, gravuras de papel em que aparecessem os primeiros sinais de humidade.

Os materiais orgânicos que entram na composição dos documentos em geral, torna as bibliotecas mais frágeis e facilmente deteriorareis por agentes físicos, químicos e biológicos como sejam a luz, o calor, a humidade e a poluição atmosférica, etc.

O papel, cujo constituinte essencial é a celulose, é muito higroscópico, e por isso é extremamente sensível às variações do clima: em contacto com o calor e a humidade pode oxidar-se e hidrolisar-se tornando-se muito quebradiço e amarelecido. Deste modo, torna-se necessário manter estabilizadas as condições atmosféricas no interior dos edifícios que albergam as coleções.

Os agentes de deterioração biológica: microrganismos, insetos, fungos, bactérias e roedores são os fatores que provocam estragos mais frequentes nos documentos gráficos.

No que diz respeito à Biblioteca Joanina, esta assenta num edifício antigo que oferece uma grande proteção arquitetónica, embora seja desprovido de equipamentos mecânicos para controlo das condições ambientais no seu interior. Esta situação é permitida porque os materiais de construção deste edifício garantem uma proteção máxima dos documentos contra diversos agentes, designadamente, fontes luminosas, humidade, temperatura, poluição atmosférica e agentes de deterioração biológica:

 “Assim, é importante expor e guardar os objectos em ambientes higrotérmicamente estáveis e compatíveis com os diferentes materiais em presença, de maneira a mitigar o risco de danos nos objectos que constituem as colecções. Por exemplo, películas fotográficas e suportes digitais requerem armazenagem a baixas temperaturas e a baixos níveis de humidade relativa, para que seja possível assegurar a sua longevidade. Por outro lado, o pergaminho e o papel são materiais que solicitam níveis de humidade relativa a superiores a 50%, no caso de se pretender uma boa flexibilidade. Actualmente, há provas científicas que sugerem que o papel manterá a sua estabilidade química e o seu aspecto químico por mais tempo quando sujeito a valores de armazenagem baixos e constantes de temperatura (abaixo dos 10ºC) e de uma humidade relativa entre 30 a 40%.” (Catarina, 2010)

Ainda, de acordo com a Catarina (2010), nesta Biblioteca não há problemas com insetos papirógrafos devido ao facto de as estantes serem feitas de madeira de carvalho, que para além de serem muito densas, absorvem o excesso da humidade do ar, dificultam a penetração dos insetos e ao mesmo tempo emitem um odor que os repele.

No edifício da Biblioteca Joanina não há sinais de ventilação natural a funcionar constantemente mas, as salas são grandes, os tetos são altos e o edifício tem grandes janelas envidraçadas, com grossas cortinas. Em dias de mais calor recorre-se à abertura destas janelas, embora por períodos curtos de tempo - permitindo o controlo da luz solar e a circulação do ar, obtendo assim uma boa climatização no seu interior.

Um dos maiores perigos para as bibliotecas são os insetos que atacam os livros propagando-se pelas paredes e pelo ar. É muito difícil impedir completamente que os insetos penetrem nos locais de conservação, sobretudo sob a forma de ovos ou larvas microscópicas, implicando medidas de desinfestação. A Biblioteca Joanina contorna este problema de uma forma muito interessante, invulgar e eficaz, ou seja, no seu interior habita uma colónia de morcegos que durante a noite se alimentam de traças, baratas e todos os insetos danosos. Durante o dia eles permanecem escondidos entre as estantes não atrapalhando o normal funcionamento da biblioteca.

A presença dos mamíferos alados requer um cuidado adicional para prevenir danos causados pelos seus dejetos nas madeiras das mesas. Assim, todos os dias ao fechar a biblioteca, um funcionário cobre as mesas com umas toalhas de couro e de manhã remove-as e limpa o chão.




Bibliografia

CATARINA, Inês Nazaré (2010). Análise das condições higrotérmicas na Biblioteca Joanina da Universidade Coimbra. Coimbra: Faculdade de Ciências e Tecnologia: Universidade de Coimbra, Departamento de Engenharia Mecânica.

CASANOVAS, Luís Efrem Elias (2006). Conservação Preventiva e Preservação das obras de arte: Condições-ambiente e espaços museológicos em Portugal. Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

FLIEDER, Françoise; DUCHEIN, Michel (2006). Livros e Documentos de arquivo preservação e conservação. Lisboa: Associação Portuguesa de Bibliotecários Arquivísticas e Documentalistas.