2025/07/24

Muitos Anos de Escolas – Volume II – Edifícios para o Ensino Infantil e Primário – Anos 40 – Anos 70 – Capítulo II – Os Edifícios dos Centenários (Parte II)

 

II – Os Edifícios dos Centenários

    2. Os Novos Projetos

 

Os projetos da Direção dos Edifícios Nacionais do Centro, a cargo do Arquiteto Joaquim Areal, dividiram-se da seguinte forma:

(Imagem dos Projetos Aprovados em 1944 do Arquiteto Joaquim Areal)


(Imagem das peças desenhadas dos edifícios de 1 sala Tipo - Beira Litoral- Tijolo, Beira Litoral - Cantaria, Beira Alta - Xisto e Beira Alta - Granito)

(Imagem das peças desenhadas dos edifícios de 3 salas Tipo - Beira Litoral- Tijolo, Beira Litoral - Cantaria, Beira Alta - Xisto e Beira Alta - Granito)



Fonte: BEJA, Filomena, et al. Muitos Anos de Escolas – Volume II – Edifícios para o Ensino Infantil e Primário – Anos 40 – Anos 70. Lisboa, Ministério da Educação – Departamento de Gestão de Recursos Educativos, 1996.


MJS


2025/07/21

Educadores Portugueses dos séculos XIX e XX: João Crisóstomo de Oliveira Ramos (1869 – 1935)

 

(Imagem do autor retirada da internet)

 

João Crisóstomo de Oliveira Ramos nasceu a 11 de janeiro de 1869 em Válega, Ovar, filho de João de Oliveira Ramos, jornalista d’ O Primeiro de Janeiro.

Frequentou a Academia Politécnica do Porto onde concluiu os cursos de Engenharia Civil de Obras Públicas e Filosofia. Em 1897 começou a lecionar no Liceu de Vila Real e em 1898 tornou-se docente interino da Academia Politécnica do Porto. Em 1899 foi transferido para o Liceu de Viana do Castelo e em 1906 para o Liceu Central do Porto, onde exerceu o reitorado em 1910.

Entre 1900 e 1926 fez parte de vários júris de exame para o magistério primário. Em 1907 participou na comissão que examinou os livros para o ensino secundário e entre 1907 e 1908 foi vogal do Conselho Superior de Instrução Pública.

A partir de 1912 assumiu as funções de assistente da disciplina de Álgebra na Faculdade de Ciências do Porto. Integrou a redação de O Primeiro de Janeiro e foi eleito presidente da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto.

Em 1927 presidiu à quinta sessão do I Congresso Pedagógico do Ensino Secundário Oficial.

Foi um homem sempre dedicado ao ensino e às funções do professor como formador dos jovens. Na defesa da sua profissão, participou ativamente no movimento associativo de professores, tendo sido um dos fundadores da Associação de Professores dos Liceus do Norte e do periódico Revista dos Liceus. Pretendia a reforma do ensino secundário e do processo de seleção de docentes com uma significativa melhoria da sua situação financeira.

 

 

Fonte principal: Dicionário de educadores portugueses / dir. António Nóvoa. - Porto : ASA, 2003.


MJS


2025/07/17

Peça do mês de julho/2025

 




Conjunto de insetos

 

Conjunto de insetos utilizado em contexto das práticas pedagógicas de Ciências Naturais. Trata-se de um conjunto incompleto de 14 exemplares conservados em resina, para demonstração das características dos animais: besouro tropical, libélula asiática, aranha teia de funil, percevejo negro, fulgorídeo de Samatra, escaravelho veado, percevejo de chumbo, larva de libélula, vespa papeleira, cerambicídeo vermelho, aranha espinhosa, escaravelho veado do Bornéu, escaravelho adulador e tarântula. Todos os insetos estão identificados individualmente com etiquetas e numeração.

Está inventariado com o número ME/404652/717 e pertence ao espólio museológico da Escola Básica e Secundária Anselmo de Andrade.

 MJS


2025/07/14

Educadores Portugueses dos séculos XIX e XX: João dos Santos (1913 – 1987)

  

(Imagem do autor retirada da internet)


João Augusto dos Santos nasceu a 15 de setembro de 1913 em Lisboa, no seio de uma família de republicanos e defensores da classe operária. Filho de Augusto Santos, alfaiate e de Justina de Jesus Santos, frequentou a escola primária a partir de 1919, enfrentando um problema de dislexia que o marginalizou. O seu pai proporcionou-lhe uma vida ao ar livre e o contato com pessoas de várias profissões.

A partir de 1924 passou para o Liceu Gil Vicente e em 1929 ingressou na Escola Superior de Educação Física que concluiu em 1936. Durante este período interessou-se por obras de pedologia, pedagogia e psicologia. Lecionou no ensino particular e deu aulas gratuitas de ginástica às crianças dos bairros carenciados de Alfama e Barcarena.

Em 1931 frequentou o curso de Medicina, em Coimbra, que abandonou ao final de um ano. Conheceu Viana de Lemos que se tornou se amigo e que João dos Santos considerou sempre um modelo de pedagogo.

Em 1934 retomou Medicina em Lisboa, tendo concluído o curso em 1939. Em 1940 seguiu a especialização em Psiquiatria Infantil sob a orientação de Vítor Fontes, no Instituto Aurélio da Costa Ferreira. Em 1941, especializou-se em Psiquiatria Geral, orientado por Barahona Fernandes nos Hospitais Miguel Bombarda e Júlio de Matos.

Em 1944 procedeu a mudanças estruturais na Secção Infantil do Hospital Júlio de Matos: maior rigor científico, observações psicopatológicas, novas terapias, formação do pessoal hospitalar, educação e formação das crianças.

Em 1945 fez um estágio no serviço de Neurologia do Hospital Escolar, orientado por António Flores. No Instituto Aurélio da Costa Ferreira, João dos Santos rompeu com a médico-pedagogia da instituição, pois não concordava com a “psiquiatrização” das dificuldades de aprendizagem das crianças, que eram rotulados como “débeis mentais”. As dificuldades destas crianças deviam-se, em grande parte dos casos, a problemas familiares e a ambientes sociais desfavoráveis. Como tal, abandonou o Instituto e ainda em 1945 foi transferido para os Serviços de Psiquiatria Geral do Hospital Júlio de Matos.

Em outubro deste ano participou numa reunião do MUD (Movimento de Unidade Democrática) assinando um documento que pedia eleições livres, lutando por ideais de democracia e liberdade. Em consequência, em 1946, foi despedido do seu cargo e proibido de entrar em qualquer hospital de Lisboa. Recorreu ao exílio, em Paris, onde trabalhou como funcionário público.

Os anos em Paris foram profícuos no desenvolvimento intelectual do educador que contatou com vários vultos internacionais da psicologia e psiquiatria, bem como cientistas, artistas e políticos. Em 1947 foi admitido pela Comissão de Ensino da Sociedade Psicanalítica de Paris e em 1948 participou no Congresso Mundial dos Intelectuais para a Paz.

1950 foi o ano de regresso a Portugal, tendo começado a trabalhar na clínica de Barahona Fernandes. Durante este período lutou por uma ação concertada entre a educação e a saúde e tornou-se participante de um grupo da Seara Nova, estudando a reforma do ensino. Promoveu inúmeras palestras na área da Psiquiatria infantil e incentivou a criação de equipas nos Serviços de Saúde Mental que interagissem com os pacientes e a respetiva família.

Entre 1951-52 fundou os primeiros centros psicopedagógicos em Portugal a funcionar n’ A Voz do Operário e no Colégio Moderno. Em 1952, em colaboração com a enfermeira Rosélia Campos, criou a Secção de Higiene Mental no Centro de Assistência Materno-Infantil de Campo de Ourique que se especializou na prevenção de distúrbios infantis através da ajuda à grávida, uma iniciativa verdadeiramente inovadora em todo o mundo.

Em 1954 participou na fundação do Colégio Eduardo Claparède e criou um Seminário Psicopedagógico promovendo o diálogo entre professores e técnicos e, posteriormente, entre pais, alunos, professores e técnicos.

Em 1955 criou o Centro de Recuperação Visual e Classes de Amblíopes (mais tarde Centro Infantil Hellen Keller) na Liga da Profilaxia da Cegueira em conjunto com Henrique Moutinho e Maria Amália Borges. Voltou a ser admitido no Hospital Júlio de Matos, dirigindo a Secção Infantil.

Juntamente com outros profissionais fundou, em 1956, a Liga Portuguesa dos Deficientes Motores; em 1958, a Associação Portuguesa de Surdos e a Secção de Paralisia Cerebral da Liga Portuguesa de Deficientes Motores; em 1959, o Dispensário e Centro de Reabilitação para Cegos da Fundação Sain; em 1964, a Secção de Saúde Mental no Centro Materno-Infantil José Domingos Barreiros; em 1965, o Centro de Saúde Mental Infantil de Lisboa; em 1971, a Liga Portuguesa contra a Epilepsia; em 1973, a Sociedade Portuguesa de Psicanálise.

Após o 25 de abril de 1974 integrou uma Comissão para regulamentar a política de proteção à saúde materno-infantil, tendo projetado a criação do Instituto da Criança. Em 1975 foi responsável pelo projeto A Casa da Praia que fornecia apoio pedagógico às crianças da área em que se inseria.

Com a criação da nova Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa em 1977, passou a lecionar aqui, coordenando o Curso de Psicopatologia Dinâmica até 1982. Até falecer participou em rúbricas na rádio e publicou vários artigos.

 


Fonte principal: Dicionário de educadores portugueses / dir. António Nóvoa. - Porto : ASA, 2003.


MJS


2025/07/10

Muitos Anos de Escolas – Volume II – Edifícios para o Ensino Infantil e Primário – Anos 40 – Anos 70 – Capítulo II – Os Edifícios dos Centenários (Parte I)

 

(Imagem da capa do Mapa Definitivo das Obras das Escolas Primárias - Plano dos Centenários)


 

II – Os Edifícios dos Centenários

    1. A Delegação para as Obras de Construção de Escolas Primárias

    2. Os Novos Projetos

 

Em 1943 foram distribuídos 500 exemplares do Mapa Definitivo das Obras de Escolas Primárias: Plano dos Centenários junto dos Governos Civis, Juntas de Província e Câmaras Municipais. Procedeu-se igualmente à implementação de um Questionário que deveria ser preenchido pelos Municípios e que permitiu avaliar as condições locais para iniciar as construções.

Para dar resposta ao tratamento administrativo de todas estas questões, foi criada a Delegação para as Obras de Construção de Escolas Primárias. Em 1944 deu-se inicio à I Fase do Plano dos Centenários. Os planos tipo inicialmente previstos foram reapreciados, baseando-se nas mesmas plantas e obedecendo a dois tipos: edifícios para um só sexo ou edifícios com separação para os dois sexos. A economia de construção esteve subjacente a este planeamento, reduzindo-se os pormenores arquiteturais à exceção da “chaminé algarvia” que caraterizou o Tipo Alentejo.

No que respeitou à Direção dos Edifícios Nacionais do Norte, a cargo do Arquiteto Manuel Fernandes de Sá, os projetos foram os seguintes:

 

(Imagem dos Projetos Aprovados em 1944 do Arquiteto Manuel Fernandes de Sá)

 

(Peças desenhadas dos edifícios de 1 Sala Tipo Douro - Granito e Douro Tijolo (lado esquerdo) e do Tipo Minho- Granito e Minho-Xisto (lado direito)


(Peças desenhadas dos edifícios de 2 Salas, 2 sexos - Tipo Douro - Granito e Douro Tijolo (lado esquerdo) e do Tipo Minho- Granito e Minho-Xisto (lado direito)




Fonte: BEJA, Filomena, et al. Muitos Anos de Escolas – Volume II – Edifícios para o Ensino Infantil e Primário – Anos 40 – Anos 70. Lisboa, Ministério da Educação – Departamento de Gestão de Recursos Educativos, 1996.

MJS


2025/07/07

Educadores Portugueses dos séculos XIX e XX: João Diogo (1868 – 1923)

 

(Imagem do autor retirada da internet)


 

João Diogo do Carmo nasceu a 14 de abril de 1868, em Lamego, filho de um médico que faleceu quando tinha 11 anos. Frequentou a Escola Politécnica do Porto onde se formou em Ciências Físico-Naturais.

A sua vida profissional iniciou-se com a docência no Liceu e no Colégio de Lamego. Mais tarde, já no Porto, exerceu funções de professor no Colégio de Santa Maria, no Colégio Nossa Senhora da Glória e no Colégio São João da Foz do Douro.

Em 1902 publicou A nova reforma do ensino secundário em França. Em 1905 tornou-se proprietário do Colégio de Nossa Senhora da Boavista, no Porto, do qual foi diretor até 1923. Em 1906 criou um jardim de infância anexo ao Colégio, tendo adotado o método fröbeliano. Este método encarava a educação como um processo global de transmissão de conhecimentos académicos, físicos, emocionais e sociais. Salientava a importância do brincar e da exploração do mundo ao redor da criança, sendo o educador um mediador no processo de aprendizagem.

Em 1909 introduziu os trabalhos manuais de cartonagem e modelação na instrução primária e em 1912, os trabalhos em madeira, vidro e ferro. Neste ano fundou igualmente a Biblioteca da Educação, uma coleção de livros da Livraria Chardron, com o objetivo de orientar pais e professores na educação da criança.

Em 1913 apresentou ao parlamento a proposta de criação de uma Escola Nova de caráter público, que foi rejeitada. João Diogo sempre defendeu esta corrente, criticando a escola tradicional. A Base XII da proposta de lei definiu alguns princípios básicos da escola nova portuguesa:

- educação física: vida ao ar livre, trabalhos manuais obrigatórios, agricultura e jardinagem;

- educação intelectual: ausência de memorização, privilegiando a reflexão, adoção do método científico e aplicação da psicologia;

- educação moral: liberdade moral que remeta para uma regra individual que venha de dentro para fora, educação para a responsabilidade e autonomia, mérito pessoal e neutralidade religiosa.

No seu Colégio, o educador pôs em prática estes princípios, valorizando os trabalhos manuais, encaminhando os alunos para as suas aptidões profissionais, fazendo visitas de estudo, colónias de férias, sociedades literárias e musicais, entre outros. João Diogo instituiu um código de conduta, os 13 preceitos de Franklin: “temperança, silêncio, ordem, resolução, economia, trabalho, sinceridade, justiça, moderação, asseio, tranquilidade, castidade e humildade”. 

 

Fonte principal: Dicionário de educadores portugueses / dir. António Nóvoa. - Porto : ASA, 2003.


MJS


2025/07/03

As Bibliotecas e a História - A Casa da Sabedoria - Bagdade (atual, Iraque)

 

«Uma biblioteca, antes de o leitor exercer uma escolha, é como o caldo primordial de átomos do qual toda a vida emergiu. Está tudo ao alcance de uma pergunta: cada ideia, cada metáfora, cada história, a identidade de cada leitor individual.»

                                                           (Alberto Manguel, pág. 16)

 

A capital do Iraque, Bagdade*, desde sempre tem desempenhado um papel de grande relevo na vida cultural árabe, sendo o lar de escritores, músicos e artistas de todas as áreas. Se recuarmos ao século IX e percorrermos as artérias da atual capital do Iraque, deparamos com um verdadeiro caldo de culturas e uma miscelânea de línguas e de ideias. Na verdade, desde cedo, esta grande cidade tornou-se rapidamente um centro cultural mundial, acolhendo mais de um milhão de habitantes.

* Nota: Bagdá ou Bagdade ou Baguedade ou Bagdad; Fonte: https://pt.wikipedia.

 

Retrato de al-Mansur.
Fonte: https://pt.wikipedia

 

História e Fundação

Em meados do século IX, no coração deste fervilhar de diversidade, foi criada a Grande Biblioteca de Bagdade, também conhecida como Casa da Sabedoria (“Bayt al-Hikma”). Foi mandada erigir pelo segundo califa da dinastia abássida Abu Jafar al-Mansur, ou Almançor (reinou: 754 - 775), homem de elevado intelecto e amante das artes e da ciência, sendo mais tarde ampliada pelo seu filho Almamune (reinou: 813 - 833).

Muitos mestres eruditos muçulmanos fizeram parte deste centro educacional, partilhando informação, ideias e cultura. Como diríamos nos tempos de hoje, a Grande Biblioteca tornou-se um centro incubador do saber, atraindo estudiosos e académicos de todo o mundo, todos contribuindo para o progresso e o conhecimento do mundo. Durante a vigência de Almamune, foram construídos observatórios e a Casa da Sabedoria tornou-se o centro de estudo das humanidades e das ciências, agrupando a matemática, a astronomia, a medicina, a alquimia e a química, a zoologia, a geografia e a cartografia. Partindo de textos persas, indianos e gregos (ex.: Pitágoras, Aristóteles, Hipócrates, Euclides), os estudiosos acumularam uma grande coleção de saber sobre o qual desenvolveram as bases para novas descobertas. Bagdade tornou-se conhecida como a cidade mais rica do mundo e verdadeiro centro do desenvolvimento intelectual.

 

«À semelhança dos seus predecessores de Alexandria, os bibliotecários europeus procuraram Aristóteles e encontraram-no, meticulosamente editado e anotado por eruditos muçulmanos como Averróis e Avicena, seus principais intérpretes no Oriente e no Ocidente.

A adoção de Aristóteles pelos árabes começa por um sonho. Certa noite do início do século IX, o califa al-Ma’mun, filho do quase lendário Harune Arraxide, sonhou com uma conversa. O interlocutor do califa era um homem pálido, de olhos azuis, fronte ampla e cenho franzido, sentado num trono, como um rei. O homem (o califa reconheceu-o com a segurança que nos assiste a todos num sonho) era Aristóteles, e as palavras secretas que trocaram inspiraram o califa a recomendar aos eruditos da Academia de Bagdade que consagrassem os seus esforços, dessa noite em diante, à tradução do filósofo grego.»

 

(Alberto Manguel, págs. 254 - 255)

 

Atividade e Importância

As atividades da Biblioteca eram muito diversas e intensas. Nesta espécie de “academia”, tradutores, cientistas, escribas, autores, homens de letras e escritores costumavam reunir-se no final de cada dia a fim de traduzir, ler, escrever, debater e dialogar. O conceito de "catálogo de biblioteca" foi introduzido na Casa da Sabedoria e noutras bibliotecas medievais, nas quais os livros eram organizados por géneros e categorias específicas.  De referir que muitos manuscritos e livros sobre os mais variados assuntos científicos, e em diversos idiomas, foram traduzidos na Casa da Sabedoria. De facto, uma das facetas mais desenvolvidas pela biblioteca foi a da tradução. Como consequência, a Casa da Sabedoria ou Casa do Saber, para além das funções de biblioteca ganhou renome como centro de traduções à época. Foi, mesmo, uma instituição chave no denominado “movimento das traduções”.

 

O Movimento das Traduções

O “movimento de tradução” não era apenas um projeto; era uma cruzada empreendida pelo conhecimento. Foi iniciado pelo Califa Almamune, o responsável pela expansão da Casa da Sabedoria. Enviou estudiosos às bibliotecas do mundo inteiro para compulsar os seus textos mais antigos; textos que acumulavam o saber de milénios. Chegados a Bagdade, estes textos de autoria dos mais reputados sábios e filósofos não eram apenas traduzidos –  eram lidos, vertidos para o árabe, glosados com comentários e enriquecidos com ulteriores apontamentos. Este acumular de ideias despoletou novas correntes filosóficas e propalou o avanço das mais diversas disciplinas: matemática, medicina, engenharia, etc. A Casa da Sabedoria adquiriu reputação como centro de aprendizagem e em muito contribuiu para que Bagdade se tornasse o epicentro do mundo medieval.

 

Cerco de Bagdade (1258).
Fonte: https://pt.wikipedia

 

Invasão e Catástrofe

Em 1258 uma calamidade atingiu a Casa da Sabedoria. A geopolítica do Oriente e da Europa, viu-se ameaçada por um poder militar que não encontrava paralelo: o Império Mongol e a sua imparável vontade e poder expansionista. Bagdade, cidade onde tanta riqueza se havia acumulado, era um alvo cobiçado. Com a chegada e o assalto dos mongóis, séculos de tesouros e bens acumulados foram vandalizados e saqueados. Mesquitas e palácios, tudo foi destruído e incendiado. O mesmo fim teve a Casa da Sabedoria, meca para a comunidade mundial de estudiosos, reduzida a ruínas e cinzas. Segundo reza a lenda, foi atirado para o rio Tigre um número tão elevado de manuscritos que as suas águas ficaram tingidas do negro da tinta. A destruição do edifício e dos manuscritos que continha no seu interior representou a quase completa extinção de todo um vasto conjunto de conhecimento acumulado. Conhecimento tão vasto e importante que poderia ter alterado de modo radical o curso da história da humanidade. Trabalhos de investigação com caráter único e importância sem paralelo – por exemplo nas áreas da matemática e álgebra –, foram, simplesmente, dizimados.

Esta catástrofe significou a perda para o mundo, de um momento para o outro, da possibilidade de grandes descobertas e avanços. A perda de obras como a de Euclides “Elementos de Geometria”, por exemplo, não só apagou traços fundacionais da geometria e do cálculo, como também restringiu avanços que poderiam ter surgido mais cedo, por exemplo, na área da arquitetura. Se a Casa da Sabedoria não tem ardido não se teriam perdido, igualmente, avanços importantes efetuados no domínio da astronomia, há muito iniciados com Ptolomeu.

 

Em conclusão, a história da Casa da Sabedoria representou o esforço de um povo na preservação e disseminação do conhecimento; mas não só na preservação da sua própria história, como também da história de muitas civilizações antigas.

 

JMG


REFERÊNCIAS E SUGESTÕES DE LEITURA:

(BIBLIOGRAFIA, WEBGRAFIA e ILUSTRAÇÕES)

 

BARBIER, Frédéric (2018). De Alexandria às bibliotecas virtuais. São Paulo: EDUSP.

FÉBVRE, Lucien; MARTIN, Henri-Jean (2000). O aparecimento do livro. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

LYONS, Jonathan (2011). A casa da sabedoria. Lisboa: Editorial Presença.

MANGUEL, Alberto (2010). Uma história da leitura. Lisboa: Editorial Presença.

THOMPSON, James Westfall (1940). Ancient libraries. Berkeley: University of California Press.

VALLEJO, Irene (2020). O infinito num junco. Lisboa: Bertrand Editora.

WIKIPEDIA (2025). Al-Mansur. [em linha]. [Consult. 22.04.2025]. Disponível: https://en.wikipedia.org/wiki/Al-Mansur

WIKIPEDIA (2024). Almançor (califa). [em linha]. [Consult. 06.05.2025]. Disponível: https://pt.wikipedia.org/wiki/Alman%C3%A7or_(califa)

WIKIPEDIA (2024). Bagdade. [em linha]. [Consult. 14.05.2025]. Disponível: https://pt.wikipedia.org/wiki/Bagd%C3%A1

WIKIPEDIA (2024). Casa da sabedoria. [em linha]. [Consult. 17.04.2025]. Disponível: https://pt.wikipedia.org/wiki/Casa_da_Sabedoria

WIKIPEDIA (2023). Cerco de Bagdá. [em linha]. [Consult. 20.05.2025]. Disponível: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cerco_de_Bagd%C3%A1_%281258%29