(Capa do "Esmeraldo" - N.º 1 - 1954)
"Esmeraldo é uma nova revista editada pelo Comissariado da Mocidade Portuguesa de Lisboa, que acaba de sair a lume [1954]. O subtítulo, Política e Humanismo, indica suficientemente os objetivos que pretende atingir esta nova publicação e quais os caminhos para onde endireita os seus passos. O título ‘bela e misteriosa palavra que um sábio e um herói português escolheu para princípio da obra’, tem o seu quê de misterioso verbo, sabe a roteiro sempre antigo, sempre novo e sempre português. Esmeraldo quer ser um roteiro em Politica e em Humanismo. À nova Revista, sob a direção do Dr. Luís Ribeiro Soares, auguramos longa e próspera vida (Palácio da Independência, Largo de S. Domingos, Lisboa).”
Tavares (1954:188)
O
ano da publicação, 1954, será, pois, uma escolha sensata de instrução e
“princípio de obra” humanista e sociopolítica. O humanismo, nesta época, apresenta-se como um conjunto de
ideais e princípios que valorizam as ações humanas, ou seja, esta corrente
ideológica sedimenta-se em categorias morais e, desta forma, recoloca o homem como ente principal no mundo. Como verificamos, esta perspetiva ética atribui importância à dignidade e às
capacidades humanas, particularmente, à racionalidade, tal como Esmeraldo professa ao logo dos 13 números de publicação.
“É entretanto no Criador de
todos os seres que deparamos o Sumo Bem – Ele é o próprio Bem. Logo há um
compromisso de analogia entre o Ser por excelência e os demais seres. Estes são
bens, embora infinitamente menores.” (Costa, 1954:29).
Em Esmeraldo, o humanismo é perspetivado de uma forma cristã. São inúmeros os
artigos sobre tal temática, onde a epistemologia e a religião se entrecruzam. O
cristianismo, como sabemos, tem uma conceção elevada do ser humano e reafirma
a dignidade e a sacralidade da vida: todo o indivíduo reflete a imagem do Criador,
como afirma Costa (1954:29), o Criador é o Sumo Bem. Ao longo dos séculos,
essas convicções enraízam-se no indivíduos, comunidades e nações.
A par destas preocupações sociopolíticas, tão
próprias da época, no N. 1 da revista – “princípio Esmeraldo porquê e para
quê?” –, são esboçados (i) objetivos,
(ii) conteúdos e (iii) finalidades da sua publicação que, segundo
entendemos, podem ser esquematizados do seguinte modo:
1. Estrutura
– “bela e misteriosa palavra”
2. Objetivo
– “roteiro português”
3. Modelos de investigação – “vanguarda e juventude pelo estar”
4. Nacionalismo
– “Deus nos plantou aqui à beira mar”
5. Saudosismo
– “como um rosário, outras palavras”
São apresentadas as orientações metodológicas
em Esmeraldo e delineados conteúdos a
seguir (reflexões humanistas e sociopolíticas). Não esquecendo, porém, os
contornos nacionalistas vs. saudosismo tão próprio da época do Portugal de
então, vejamos:
“Esmeraldo é obra que faz e guarda,
contém algo, algo que é, muito singelamente, um roteiro, um roteiro português
[…]. Qualquer coisa que indica caminho bom e seguro, entre tantos possíveis,
[…] aquilo que guia e orienta, que cota a solidão e a vastidão […]. E assim,
Esmeraldo, que surge, misteriosamente como principio de obra, só por força de
beleza do seu mistério […]. Pois tememos à beira-mar do nosso mar a primeira
palavra de roteiro. A palavra de arranque: Esmeraldo! Atrás dela hão-de vir,
saídas de misteriosos fundos, presas umas às outras como contas de rosário,
[…]” (Mocidade Portuguesa, 1954:3).
A revista
Esmeraldo começa a sua publicação em 1954 e termina dois anos mais tarde,
em 1956, com publicações irregulares distribuída por treze números. O diretor é
Luís Ribeiro Soares[1]
e a propriedade, como não podia deixar de ser, é do Comissariado Nacional da
Mocidade Portuguesa e a composição é efetuada nas Oficinas de Coimbra Editora.
No que diz respeito ao preço, a assinatura é 30$00 cada seis números e os
números avulso custam 7$50 cada.
As primeiras duas capas apresentam uma
organização minimalista: letras brancas, ao logo de toda a capa – ESMERALDO - em fundo verde. As capas
posteriores apresentam uma lista na parte superior (15x5 cm) com a designação ESMERALDO Política & humanismo e, na
parte inferior, a descrição do Autor / Artigo (por ex.: Mário de Albuquerque *
É contra a honra).
A esmagadora maioria dos artigos apresentam
conteúdos científicos (epistemologia, humanismo, etc.) e, consequentemente,
estão munidos de referências bibliográficas e, mesmo, com pequenas
bibliografias, ainda que elementares:
Fonte: Ribeiro, (1954:43)
A bibliografia encontra-se alfabetada, a
palavra de ordem privilegia o título em relação ao autor. Alguma das vezes, a
bibliografia é substituída por referências bibliográficas ao longo do texto.
Veja-se a este respeito, por exemplo, o artigo Direito e psicologia da autoria de António João Bispo. Todas as
páginas apresentam várias referências bibliográficas, não obstante, estas não
são organizadas em bibliografia final (Cf. Bispo, 1956:47 ss).
Bibliografia:
BISPO, António João. “Direito e psicologia”.
in: Esmeraldo: Política e humanismo,
N. 1 (1956), p. 35-46.
COSTA, João Afonso Viana da. “Fundamentos
augustinianos para um humanismo” in: Esmeraldo:
Política e humanismo, N. 1 (1954), p. 23-31.
ESMERALDO:
POLITICA E HUMANISMO. Lisboa: Comissariado Nacional da Mocidade
Portuguesa, 1954-1956.
MOCIDADE PORTUGUESA. Ao princípio… Esmeraldo porquê e para quê? in: Esmeraldo: Política e humanismo, N. 1 (1954), p. 3-4.
RIBEIRO, João Maria Salvado. “Cibernética e
máquina pensantes”. In: Esmeraldo:
Política e humanismo, N. 1 (1954), p. 32-43.
TAVARES, Severiano. “No centenário da morte
de Platão” in: Revista Portuguesa de
Filosofia, T. 10, fasc. 2 (Abr./Jun. 1954), p. 188.
P. M.
[1]
Luís Ribeiro Soares (Lisboa, 14
de novembro de 1911 — Lisboa, 28
de julho de 1997), reconhecido filósofo e professor. Fez os
seus estudos secundários no Liceu
Camões e cursou depois a
Faculdade de Direito onde foi aluno de Marcelo
Caetano mas acabaria por se
formar em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de
Letras da Universidade de Lisboa em julho de 1950. Com 22 anos entrara para o Banco
de Portugal, no qual já
trabalhava seu pai e onde ascendeu em 1951 a Conservador da Biblioteca. Nos
anos 40 fez parte da redação do jornal Acção e nesta década até inícios
da seguinte (1952) exerceu importante atividade no âmbito da política cultural
portuguesa através do Secretariado Nacional de
Informação, dirigido pelo
jornalista e escritor modernista António
Ferro, onde ocupou as funções
de chefe de secção.