CARTILHA
- Compêndio de doutrina cristã • Cartinha. Livrinho para o ensino da leitura.
Manual escolar, compêndio de alfabetização; era geralmente o primeiro livro que
se punha nas mãos de um estudante, prática generalizada desde o século XVI até
ao século XIX • Silabário • Qualquer tratado breve ou elementar de um ofício ou
arte. (Faria & Pericão, 2008)
Cartilha Colonial, uma
edição da Sociedade Luso-Africana do Rio de Janeiro, do ano de 1937, integra a
coleção de Manuais Escolares da Secretaria-Geral do Ministério da Educação e
Ciência. Trata-se de um livro curioso que marca um período recente da nossa
História. Percorrendo os textos que o compõem, estes transportam-nos para uma
época que, mais do que distar cronologicamente de nós, parece bem mais
longínqua quando nos atemos ao quadro de valores (sociais, morais, políticos e
ideológicos) que lhe estão subjacentes.
A
avaliar pela nota introdutória do autor, terá sido redigido em 1934, quando ele,
Augusto Casimiro, se encontrou em Cabo Verde – Ilha de Santo Antão – e logo após
a redação de Contos de Além-Mar. Da
leitura da introdução intitulada “Aos Pais e aos Professores”, é-nos dado
perceber que o livro se dirige “para os pequenos escolares de Portugal”, isto
é, aos alunos que iniciam a escolaridade. Os textos de abertura – “Aos Rapazes
de Portugal”; “A Pátria”, “Aljubarrota 1385”; “Ceuta 1415”; “A Ribeira das
Naus”; “A Viagem Maravilhosa”, muito ao gosto da época, pretendem chamar a
atenção sobre valores de culto da Pátria, da fundação desta, da sua importância
na História e da missão de desbravar e descobrir novos mundos:
– Foi
dêsse noivado da terra com as ondas que a Pátria, verdadeiramente, nasceu!
–
Aljubarrota primeiro! Depois o mar e o mundo! – A descoberta do mundo! – A
conquista da Terra e do Mar!
O
espírito da narrativa denota a preocupação do autor em encontrar a melhor forma
de “suscitar o encantado intêresse de novos horizontes, o amor às Colónias, à
vida criadora que elas possibilitam melhor do que as metrópoles”.
–
Queres repetir a viagem magnífica? – Queres percorrer os caminhos que, há cinco
séculos, começaram a abrir as caravelas de Portugal? – Vem daí comigo!
Nas
palavras do autor: “Livro para crianças, dêle propositadamente destaco quanto
seja de menor atractivo para o espírito dos seus leitores. Preferirei “às notas
políticas, aos quadros estatísticos, económicos e demográficos, o que é
movimento, dinamismo, vida construtiva, vida heróica, maravilhoso, dramático,
quadros que atráiam e prendam.”
O nome
por detrás desta obra – Augusto Casimiro dos Santos, de seu nome completo –
nasceu em Amarante, a 11 de Maio de 1889 e faleceu em 23 de Setembro de 1967.
Frequentou os primeiros estudos e o liceu, na terra natal, tendo iniciado a sua
atividade literária bastante cedo, como poeta e cronista (1906). Prosseguiu
estudos superiores em Coimbra e, mais tarde, optou pela via militar, realizando
o Curso de Infantaria da Escola do Exército. Combateu nas trincheiras da
Flandres (1917-18) durante a Grande Guerra. Veio a ocupar diversas posições de
relevo na Administração Colonial Portuguesa, em África (Angola), até ser
demitido do Exército por manifestar a sua oposição ao Estado. Muitos dos seus
escritos – África Nostra (1922), Alma Africana (1936), Cartilha Colonial (1937), Portugal Crioulo (1940) – refletem a sua
passagem por aquelas paragens e a experiência e visão para o tipo de problemas
que se colocaram à administração portuguesa no pós-guerra. Após um período de
desterro em Cabo Verde, entre 1933 e 1936, foi reintegrado, após o que passou à
reserva.
Sublinhe-se,
ainda, a existência no final do livro de uma síntese cronológica sob o título
“As grandes viagens e conquistas dos portugueses nos séculos XVI e XVII” e de
um “Pequeno Glossário” de terminologia indígena.
A questão
do Colonialismo, do Ultramar e da política colonial portuguesa no período do
Estado Novo é um tema complexo e, não-raro, envolto em bastante polémica; não
deixando, consequentemente, de estar na ordem do dia de considerável número de
historiadores, estudiosos e investigadores de diferentes áreas.
Segundo
reflexão do historiador Oliveira Marques, o regime Republicano, saído de 1910,
continuou a encarar as “colónias” como “províncias. Apesar de tudo, terão sido
postos em prática alguns princípios de autonomia política e administrativa; uma
política colonial que viu o seu término com o advento da Ditadura e do Estado
Novo. Um regime centralizado, semelhante ao que vigorava antes de 1914, voltou
a aparecer. A Carta Orgânica do Império
Colonial Português, desenvolvimento do Acto
Colonial de 1930 e adaptação da Constituição às Colónias e a Reforma Administrativa Ultramarina,
firmaram os rígidos princípios do Estado Novo sobre administração colonial.
Surgiu a política dos assimilados que
procurava trazer para a civilização europeia – segundo refere o mesmo autor –
os Africanos e Timorenses não civilizados.
“(…) o
império era como que o contrapeso à pequena dimensão do Portugal europeu, a
afirmação do génio dum povo pobre e recatado, algo que necessitava do recurso
ao sobrenatural para poder ser explicado. O império era também o cumprimento de
uma missão – integrar os povos primitivos nos parâmetros da civilização
ocidental, educá-los pelo trabalho, cristianizar a sua visão do sagrado. Era,
finalmente, algo de que os portugueses deviam ter imensa consciência e orgulho,
pelo que se exigia das mais diversas instituições um esforço concertado para
fazer com que a nova ideologia imperial fosse assumida por todos os
portugueses, desde a mais tenra idade.” (Serrão & Marques, 1992:372)
A partir do final da Segunda Guerra Mundial,
cresceram e multiplicaram-se as vozes críticas que se manifestavam contra o
colonialismo português. Em 1961, o Estatuto dos Indígenas chegava ao fim. Dessa
data em diante, todos os habitantes de Angola, Moçambique e Guiné tornavam-se
plenos cidadãos de Portugal. Desapareceu, assim, a condição de assimilado. Uma doutrina federalista
passou a concorrer com a doutrina integracionista, então vigente, abrindo de
novo caminho para a descentralização. De qualquer modo, a experiência colonial
portuguesa não resultou numa solução pacífica, bem pelo contrário.
“(…) motivações de tipo económico, mais do que
atitudes racistas, estiveram em geral por detrás das relações entre portugueses
e africanos. Só em Moçambique, e nunca coerentemente, se podia encontrar um
preconceito racista contra o Negro, devido à influência sul-africana e
rhodesiana, apesar de todos os esforços oficiais em contrário. Exploração do
trabalhador, discriminação real, conquanto ilegal, negligência no combate ao
analfabetismo e outros sinais julgados típicos de um regime colonialista podiam
igualmente encontrar-se na Metrópole, onde as classes chamadas inferiores eram
similarmente exploradas, sujeitas a discriminação e desprezadas na sua promoção
cultural. A história dos territórios ultramarinos portugueses e a política de
Portugal em África no século XX têm de ser compreendidas como réplica,
ampliada, da história metropolitana, com todo o seu lento desenvolvimento
económico, vícios morais de estrutura e atraso cultural. É a não compreensão
deste fenómeno que normalmente leva a enganos e interpretações erradas.”
(Marques, 1998:541)
Retomando
a figura do nosso autor, de referir que Augusto Casimiro, ligado à oposição
democrática ao Estado Novo, manteve sempre, e até ao final da sua vida, grande
atividade literária. Enquanto memorialista e comentarista político, foi
colaborador da revista Águia,
integrou o grupo que fundou a Renascença
Portuguesa (1912) e aquele que, uma década depois, fundaria o Grupo da Seara Nova, publicação que dirigiu entre
1961 e 1967, de oposição ao regime político do Estado Novo.
Além
de Cartilha Colonial, a
Secretaria-Geral do Ministério da Educação e Ciência reúne no seu catálogo
bibliográfico outras importantes obras do autor:
·
Calvários da Flandres, 1920
·
Nas trincheiras da Flandres, 1919
·
Livro das bem- amadas, 1921
·
Naulila, 1922
·
Ilhas crioulas, 1930
·
Alma africana, 1936
·
Paisagens de África, 1938
FONTES E BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
FARIA,
Maria Isabel & PERICÃO, Maria da Graça (2008) Dicionário do livro: da escrita ao livro eletrónico. Coimbra:
Almedina.
MARQUES,
A.H. de Oliveira (1998) História de
Portugal (Volume 3). Das revoluções liberais aos nossos dias. Lisboa:
Presença.
SERRÃO,
Joel & MARQUES, A.H. de Oliveira (1992) Nova
História de Portugal (Vol.12). Portugal e o Estado Novo (1930-1960).
Lisboa: Presença.
Na Internet:
AMARANTE
PORTAL (2010). Augusto Casimiro [on
line]. Histórico e noticioso, artigos aleatórios, 19 de maio de 2010
<http://amaranteportal.net/index.php/vultos-amarantinos/augusto-casimiro>
[Consulta: 28 de Dezembro de 2011]
BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL (2004).
Depósitos, Casimiro, Augusto, 1889-1967 [on line].
<http://acpc.bn.pt/deposito_autores/d05_casimiro_augusto.html>
[Consulta: 30 de Dezembro de 2011]
INFOPÉDIA (s. d.). Augusto Casimiro [on line].
<http://www.infopedia.pt/$augusto-casimiro>
[Consulta: 29 de Dezembro de 2011]
WIKIPEDIA (2010). Augusto Casimiro dos Santos [on line]. 29 de julho de 2010
<http://pt.wikipedia.org./wiki/Augusto_Casimiro_dos_Santos>
[Consulta: 28 de Dezembro de 2011].
JMG