(Fotografia da Escola Nova Bierges)
“António
Sena Faria de Vasconcelos (1880-1939) é um homem desse tempo, sensível às
questões educativas e consciente de que só a educação pode tornar os homens
livres e ‘iguais’. Preocupação que o irá acompanhar além-fronteiras, marcando,
quer na europa, quer na américa latina […], a sua influência em prol da
educação e das questões sociais relativas ao desenvolvimento humano” (Sousa
Machado, 2016, p. 116).
Como afirma Sousa
Machado (2016, p. 116), Faria de Vasconcelos foi um verdadeiro humanista, na
medida em que entendeu a transformação social através da educação. Esta pedagogia
respeita a individualidade do educando:
cada aluno deverá redescobrir interesses próprios e, acima de tudo, desenvolver
o espírito crítico e o caminho para a autodeterminação. No entender do próprio e de Faria de
Vasconcelos (1918, p. 3), na escola todos os cursos devem respeitar a atividade
pessoal e intelectual de cada aluno:
“Conclui-se
que a proposta de Faria de Vasconcelos era ampliar o conhecimento dos
professores sobre a psicologia da criança, propondo uma nova metodologia com a
finalidade de sanar os problemas encontrados no ensino […] buscou comprovar a eficácia
dos estudos em psicologia, desenvolvidos ao longo da sua trajetória intelectual
[…]” (Maques, 2016, p. 9).
O ideal subjacente ao movimento da escola nova [1] foi o combate às
desigualdades sociais. Dai a necessidade do conhecimento dos novos modelos de
psicopedagogias emergentes, por parte dos educadores, para a compreensão
holística da criança. Na
comemoração do 10.º aniversário da criação da Escuela Normal Mixta de Preceptores de la República na Bolívia,
Faria de Vasconcelos (1929, p. 1), apelou a uma escola aberta, a uma polissemia
de culturas e saberes empíricos. Este processo de aprendizagem seria, pois, a
preparação dos alunos para uma comunicação vivente e integrada nas soluções do
país.
“A
prática pedagógica da escola de FV [Faria de Vasconcelos] revela-se actual e
pertinente por ser centrada na aprendizagem do aluno, no desenvolvimento do
pensamento crítico e criativo e numa educação e formação para a vida e para o
trabalho, […]” (Duarte, 2010, p. 20).
Para além desta
preocupação – escola aberta –, Faria de Vasconcelos foi autor de uma vastíssima
obra teórica. Destacamos por ora a sua colaboração na revista de intervenção Seara Nova, que continua a sua
publicação no regime de Salazar e, portanto, se revestiu de grande importância
para os futuros movimento de educação aberta. Intelectuais como Jaime Cortesão,
Raúl Proença, Vitorino Nemésio, Maria de Castro, António Sérgio, entre outros
foram acérrimos colaboradores da Seara Nova. Como bem verificou Cruz (2001, p.
147), os “seareiros” foram uma fonte de inspiração para Faria de Vasconcelos e
António Sérgio, tendo colaborado na reforma de João Camoesas. [2]
A primeira grande guerra alterou
profundamente a vida intelectual de Faria de Vasconcelos. Com a invasão da
Bélgica pelo exército alemão, o pedagogo viu-se forçado a cessar a experiência da
Escola de Bierges-Lez-Wawre, rumando
a Genève, para o Instituto Jean-Jacques
Rousseau. Algum tempo depois, e por diligência de Adolphe Ferrière, rumou a Cuba e depois à Bolívia,
onde veio a realizar uma notável obra pedagógica. A sua ação, aliás, estendeu a
sua influência a toda a América Latina, com a sua didactica de la escuela nueva
(cf. Ferreira, 2010, p. 38):
“A
proposta educativa de Faria de Vasconcelos, profundamente marcada pela Educação
Nova e na lógica de uma pedagogia científica, pugnava por uma educação
integral, no sentido em do desenvolvimento de todas as capacidades do educando
e que a escola deveria dar a cada individuo para a intervenção de cada um num
futuro melhor” (Ferreira, 2010, p. 38).
Os ideais Faria de Vasconcelos estão
editados nas suas Obras completas, que
incluem o seu texto emblemático: Une école nouvelle em Belgique,
publicado em Genève em 1915, traduzido em 1919 para inglês, em 1920 para castelhano
e em 2015 para português, como Uma escola
nova na Bélgica.
Fonte (2016) destaca as seguintes
investigações de Faria de Vasconcelos: O ensino ético-social das multidões,
Lisboa, 1902; La psychologie des foules infantiles, Bruxelas, 1903; Une
école nouvelle en Belgique, Neuchatel e Paris, 1915; Problemas
escolares, Lisboa, 1921 e 1929; Lições de pedagogia e pedagogia
experimental, Lisboa, 1923; Didáctica das ciências naturais,
Paris-Lisboa, 1923; Lições de Psicologia Geral, Lisboa, 1924; Ensaio
sobre a psicologia da intuição, Lisboa, 1922; O Instituto de Orientação
Profissional Maria L. B. de Carvalho, Lisboa, 1926; Problemas escolares,
Lisboa, 1935, etc.
Faria de Vasconcelos morreu em Lisboa,
na freguesia de Benfica, a 11 de agosto de 1939 com 59 anos de idade.
P. M.
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Sena Faria de. Dicionário de educadores portugueses. Porto: Asa, 2003.
CRUZ,
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DUARTE, Madalena Luzia Pereira - À descoberta da escola nova de faria de Vasconcelos. Aveiro: [s. n.], 2010. Dissertação de Mestrado apresentada à universidade de Aveiro.
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[1] O movimento educação aberta propõe a
gratuitidade do ensino básico e secundário, a concessão de bolsas para o ensino
superior a indivíduos com capacidade e sem recursos, o próprio Ministro da Instrução
António Sérgio (1883-1969) defende que é no indivíduo, em cada
indivíduo, que a unidade da consciência se manifesta. Neste contexto formulou a
sua doutrina sobre o socialismo cooperativista, surgindo-lhe o cooperativismo
como a forma de organização social mais consentânea com a sua conceção do homem
como ser ativo e criador. Com a proclamação da República (1910/10/05), passou a
trabalhar a favor da reforma da educação no nosso país. Maís
tarde, na década de 1970, foi marcada por novas práticas de ensino-aprendizagem
no ensino de crianças e no advento das universidades abertas. Da mesma maneira,
o termo educação aberta é utilizado atualmente no contexto dos chamados
Recursos Educacionais Abertos, trazendo consigo uma gama de novas práticas de
ensino-aprendizagem que se popularizaram com o advento das tecnologias
educacionais.
[2] João José da Conceição Camoesas (1887-1951) foi um médico,
jornalista
e político que, entre outras funções, foi Ministro da Instrução Pública durante a Primeira República Portuguesa, tendo então
protagonizado uma tentativa de reforma do sistema educativo que ficou conhecida
por Reforma Camoesas. Pertenceu
à Maçonaria
e foi opositor ao regime do Estado Novo, tendo em consequência
falecido no exílio.