(Imagem de Faria de Vasconcelos)
No início do século passado,
em Portugal, existiram diversos movimentos renovadores no campo da psicologia,
pedagogia e assistência social. A Revolução da 1.ª República, a 5 de outubro de
1910, tentou implementar ideais políticos a nível da instrução: a diminuição do
analfabetismo através da educação. Neste contexto sociopolítico emergiram
reflexões sobre as necessidades de escolarização, o papel dos professores e as
pedagogias a adotar nas escolas. Este ideal republicano não foi propriamente novidade,
bastar-nos-á recordar o caso dos jesuítas que asseguraram a gratuitamente o
ensino. Mesmo após a expulsão desta congregação, no século XVIII, o Marquês de
Pombal, em 1772, levou a cabo várias reformas educativas, inclusive, criou
escolas por todo o país e ultramar.
Atendendo a estes
antecedentes, não admira que a pedagogia, enquanto disciplina, no início do
século XX fosse um dos instrumentos didáticos em consolidação e reestruturação.
Como verifica Diniz (2002, p. 1), as práticas didáticas neste período têm
profunda influência em John Dewey, pedagogo que valoriza sobretudo o
conhecimento empírico.[1]
“A
John Dewey teria Faria de Vasconcelos ido beber a ‘doutrina de interesses’,
exposta no seu ‘Credo Pedagógico’ e pela qual não se pode sacrificar o aluno a
uma adesão artificial pelas matérias, mas estas têm que se estabelecidas por
forma a satisfazerem a sua curiosidade. O interesse […] aberto ao pleno
desenvolvimento e acção” (Reis, 1972, p. 84).
Como verifica Manuel Reis (Reis, 1972,
p. 85), Faria de Vasconcelos reconheceu a “doutrina de interesses” de Dewey, no
sentido em que apelava ao uso de métodos ativos para incutir nos alunos gosto
pelo conhecimento empírico e aprendizagem contínua. À escola competia promover
as respetivas práticas de autodisciplina e autonomia de aprendizagem – o
professor era visto como guia e modelo do aluno (magistrocentrismo).
A educação
era, pois, uma arma de transformação social. Esta convicção era comum a todos
os pedagogos da école
nouvelle[2], ou seja, a educação é
por excelência o fator de transformação da sociedade.
O “credo pedagógico”
da escola nova influenciou a maneira
de (re)pensar a criança: esta é perspetivada na sua ação e
autodeterminação. Assim sendo, a dialéctica educação/pedagogia tornou-se o
fundamento epistemológico para a transformação social, ideal este descrito por
Faria de Vasconcelos nas suas investigações. Daí a sua importância, não só para
Portugal, mas para a compreensão da pedagogia contemporânea:
“En educación y en instrucción el problema de los
métodos de trabajo tiene una importancia capital, porque lo que importa para la
vida es no solamente saber, tener conocimientos, sino sobre todo, saber
utilizarlos, aplicarlos en el momento oportuno, evocarlos en la ocasión
necesaria, realizarlos como y cuando la
vida lo pide” (Vasconcelos, 1919, p. 7).
Faria
de Vasconcelos é, sem dúvida, um dos educadores portugueses mais conhecidos no
estrangeiro. A sua é uma referência obrigatória para quem quer estudar as
dinâmicas da educação nova no princípio do século XX.
Será importante
salientar que, António de Sena Faria de Vasconcelos Azevedo (1880-1939) era natural do
Distrito de Castelo Banco (Idanha-a-Nova), filho e neto de magistrados, tendo
concluído os seus estudos secundários no Colégio do Norte, dirigido pelos
padres do Espírito Santo. Em 1896 ingressou na Faculdade de Direito da Universidade
de Coimbra, adquirindo o grau de bacharel em 1901. No ano letivo de 1902-1903
matriculou-se na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Nova de
Bruxelas, onde obteve uma candidature em
sciences. Inscreve-se posteriormente no doctoract
en sciences sociales, doutorando-se em 1904, com uma tese intitulada Esquisse d’une théorie de la sensibilité
sociale.
“Faria
de Vasconcelos tornou-se imediatamente uma figura emblemática do Movimento da
Escola Nova à escala internacional. Não fique esquecido o facto de a Escola de
Bierges-Lez-Wawre ter sido criada pelo pedagogo português a expensas suas. Ele
quis mostrar à Europa e ao mundo a possibilidade e a realidade de uma Escola
que realizava integralmente os princípios da pedagogia científica” (Patrício,
2010)
Como verificamos (Patrício, 2010),
Faria de Vasconcelos foi um dos pilares do movimento da escola nova. No ano
letivo de 1912-1913 surge como diretor da École
Nouvelle, de Bierges-lez-Wavre que fundara, em outubro de 1912, no Château
des Vallées. Nesta escola aplicou os princípios escola nova, tal como eram defendidos por
John Dewey, G. M. Kerchenens-Teiner, E. Claparède, A. Ferrière e outros. Em 1912 tornou-se membro da Sociétè Belge de Pedotechnie. Devido à grande
guerra, Faria de Vasconcelos abandonou a Bélgica e fixa-se em Genebra, local
onde E. Claparède, P. Bovet e A. Ferrière criaram o Institut Jean-Jacques Rousseau, em 1912.
(Imagem de vários alunos e professores na Biblioteca do Institut Jean-Jacques Rousseau, em 19124)
Faria de Vasconcelos colaborou com
Claparède no Laboratório de Psicologia Experimental, onde regeu um curso de
pedagogia e secretariou o Bureau
International des Écoles Nouvelles, criado por Adolphe Ferrière em 1899, por
indicação deste último e de Claparède.
Em 1915, atendendo à solicitação do Ministério
da Saúde e Beneficência de Cuba, foi para Havana com o objetivo de aí fundar
uma escola nova. Após tal tarefa, em 1917 deixou Cuba e numa missão educativa atravessou a América Latina.
Em 1920 regressou a Portugal
participando na Universidade Popular Portuguesa, na fundação da revista Seara Nova (1921), e ingressando na
Escola Normal Superior da Universidade de Lisboa. Em 1922 passou a reger a
cadeira de psicologia geral. Em 1925 foi nomeado para diretor do então criado Instituto de Orientação Profissional Maria
Luísa Barbosa de Carvalho[3]. Em
1930, com Aurélio da Costa Ferreira[4],
fundou o efémero Instituto de Reeducação
Mental e Pedagogia. Em 1933 na Livraria Clássica Editora criou a Biblioteca
de Cultura Pedagógica, para a qual escreverá 15 volumes.
Bibliografia:
ALVES, L. A.
M. – “República e educação: dos
princípios da Escola Nova ao manifesto dos pioneiros da educação”. Revista da Faculdade de Letras-História, vol.
11 (2010), p. 165-180.
BANDEIRA,
Filomena – Vasconcelos Cabral Azevedo, António
Sena Faria de. Dicionário de educadores portugueses. Porto: Asa, 2003.
CRUZ,
Maria Gabriel Moreno Bulas – “Antônio de Sena
Faria de Vasconcelos (1880-1939): um português no movimento da ‘escola
nova’". Educação em Revista,
vol. 2, n. 1 (2001), p. 138-149.
DINIZ, Aires Antunes - "Faria de Vasconcelos - um educador da escola nova nas sete partidas do mundo". II Congresso Brasileiro de História da Educação - Intelectuais e memória de educação no Brasil, 2002, p. 1-12.
DUARTE, Madalena Luzia Pereira - À descoberta da escola nova de Faria de Vasconcelos. Aveiro: [s. n.], 2010. Dissertação de Mestrado apresentada à Universidade de Aveiro
FERREIRA, António Gomes; MOTA, Luís –
“Educação e formação de professores do ensino secundário na Primeira
Republica”. Exedra, n. 4 (2010), p.
33-48.
FERREIRA MARQUES, J. F. – Faria de Vasconcelos e as suas obras de
psicologia e de ciências da educação. Lisboa: Academia de Ciências de
Lisboa, 2012.
FIGUEIRA, M. H. – “A educação Nova em Portugal (1882-1935):
semelhanças, particularidades e relações com o movimento homónimo
internacional”. História da Educação,
vol. 8, n.15 (2004), p. 29-52.
FIGUEIRAS,
Manuel Henrique – “A educação nova em Portugal (1882-1935): semelhança,
particularidades e relações com o movimento homónimo internacional, parte I”. História da Educação, ASPHE/FaE/UFPel,
n. 14 (set. 2003), p. 97-140.
FONTES, Carlos –
“Pedagogos portugueses” [em linha]. História da Formação Profissional e da
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GOMES, J. F. – “A. Faria de Vasconcelos (1880-1939)”. Revista Portuguesa de Pedagogia, vol. 14
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MARQUES, Josiane Acácia de Oliveira –
“Medir, diagnosticar e reparar: o que diz o manual pedagógico de Faria de
Vasconcelos sobre a aplicação de testes aritméticos”. São Paulo: Educação Matemática na Contemporaneidade:
desafios e possibilidades, 2016.
PATRÍCIO, Manuel F. – “A Seara Nova no itinerário pedagógico
de Faria de Vasconcelos”. Seara Nova,
n. 1712 (verão, 2010).
[consult. 25 jan.
2017].
REIS, Manuel Pires Dias dos – Recenseamento bibliográfico de Faria de
Vasconcelos: contributo para um estudo da sua acção pedagógica. Porto
[s.sn.], 1972. Dissertação de Licenciatura em Filosofias, apresentada à
Faculdade de Letras de Universidade do Porto.
SOUSA MACHADO, Teresa – “Faria de Vasconcelos: um pioneiro no
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VASCONCELOS, Faria de – Uma escola nova na Bélgica ; pref. de
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Faria de - Hacia el mar. Sucre: Taller Tipografico de Darís N.
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VASCONCELOS, Faria de - O Instituto
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Lisboa: Oficinas Fernandes, 1935.
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Lisboa: Papelaria Maia, 1928.
VASCONCELOS,
Faria de – “Syllabus” del curso de
dirección y organización de las escuelas. Sucre: Escuela Normal Mixta de Preceptores de la
Republica [Bolívia], 1919.
P. M.
[1] John Dewey tenta
sintetizar, criticar e ampliar a filosofia da educação democrática ou proto
democrática contidas em Rousseau e Platão. Dewey denota que Rousseau valoriza o
indivíduo em si mesmo, enquanto Platão acentuava a influência da sociedade na
qual o indivíduo se insere. Dewey contestou esta dicotomia cognitiva. Tal como
Vygotsky, Dewey concebia o conhecimento e o desenvolvimento como um processo holístico,
numa dialéctica sociedade vs indivíduo.
[2] A Educação Nova foi um movimento que se
desenvolveu no espaço europeu ocidental, na América do Norte e do Sul entre
finais do século XIX e meados do século XX. O seu pensamento exprime-se
sobretudo por práticas pedagógicas inovadoras” e, paralelamente, com um corte
radical com o passado, com a educação tradicional. Os primeiros grandes
inspiradores da Escola Nova foram o escritor Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)
e os pedagogos Heinrich Pestalozzi (1746-1827) e Freidrich Fröebel (1782-1852).
O grande nome do movimento na América foi o filósofo e pedagogo John Dewey
(1859-1952). O psicólogo Edouard Claparède (1873-1940) e o educador Adolphe
Ferrière (1879-1960), entre muitos outros, foram os expoentes na Europa. Em
Portugal este movimento atinge o seu expoente máximo Faria de Vasconcelos (1880-1939), por sua vez, no
Brasil as ideias da Escola Nova foram introduzidas já em 1882 por Rui Barbosa
(1849-1923). A Escola Nova recebeu muitas críticas. Foi acusada principalmente
de não exigir nada, de abrir mão dos conteúdos tradicionais e de acreditar ingenuamente
na espontaneidade dos alunos. A leitura das obras e a análise das poucas
experiências em que, de fato, as ideias dos escolanovistas foram experimentadas
com rigor mostram que essas críticas são válidas apenas para interpretações
distorcidas do espírito do movimento.
[3] No entender de Faria
de Vasconcelos “Para alcançar os objectivos propostos, o Instituto [de
Orientação Profissional Maria Luísa Barbosa de Carvalho]
dispõe dos recursos indispensáveis, podendo dizer-se, com legítimo orgulho, que
sob o ponto de vista da aparelhagem, é um dos melhores da Europa. O instituto
dispõe actualmente de 14 laboratórios para os exames e investigações de
medicina, fisiologia e psicologia, aplicando o diagnóstico das aptidões dos
orientadores e das exigências das actividades profissionais” (Vasconcelos,
1935, p.4).
[4] António Aurélio da
Costa Ferreira, natural da freguesia de Santa Luzia do concelho do Funchal,
médico, antropólogo, professor e pedagogo de renome, com lugar de relevo na
História da Educação em Portugal. Como educador, desempenhou um papel
importante na direção da Casa Pia de Lisboa, na formação de professores, na
reabilitação e integração de crianças com necessidades educativas especiais, na
promoção da laicização do Ensino e na divulgação do movimento da Escola Nova em Portugal (Diário de
Notícias, Funchal, 18 de Janeiro de 2004).