Edifício escolar de 2
salas, tipo Indefinido, misto, existente no núcleo das Minas da Borralha,
freguesia de Salto, concelho de Montalegre. Inclui plantas e alçados do
edifício, bem como troca primitiva de correspondência com a sociedade mineira
francesa “Mines de Borralha”. Contém ainda informação sobre o edifício escolar
que a empresa pretende construir para instrução dos filhos dos trabalhadores da
citada sociedade mineira.
O
processo referente à Escola Primária de Minas da Borralha, concelho de
Montalegre, distrito de Vila Real, encontra-se à guarda da Direção de Serviços
de Documentação e Arquivo da SGEC. A documentação deste processo encontra-se
extremada entre maio de 1943 e dezembro de 1966. As primeiras notícias sobre
aquilo que seria o grande complexo extrativo das minas da Borralha, dão conta
da primeira concessão a um engenheiro francês, logo em 1902, após ouvir a um
trabalhador de nome Domingos Borralha, que trabalhando nas minas de Coelhoso,
Bragança, teria comentado que na sua terra natal “existiam muitas pedras iguais às que ali eram exploradas e que as usavam
para atirar às cabras e construir muros.” Da confirmação in situ do engenheiro gaulês nada
sabemos, mas logo no primeiro ano a céu aberto foi possível extrair 70
toneladas do volfrâmio, sendo que no ano subsequente e com algumas perfurações,
foi possível extrair das entranhas da terra 170 toneladas do mesmo mineral, o
que equivale a um crescimento homólogo anual de 242,86 %. O potencial da jazida
mineira foi tão promissor, que logo em 1904, o complexo já dispunha de
eletrificação. De produção ininterrupta desde 1902 a 1986, ano do seu
encerramento – se considerarmos as interrupções do triénio 1944/ 46 e do
quadriénio 1958/62 – o couto mineiro foi-se expandindo até aos 2000 hectares,
chegando a empregar cerca de 2000 trabalhadores (há notícia que as minas e a
população da aldeia chegou mesmo à cifra das 5000 pessoas) e atingindo uma
profundidade de 210 metros. O auge da sua produção ocorreu nas décadas de `30,
`40 e 50 do século passado, num claro indicador da procura do volfrâmio (ou
tungsténio) ter um grande crescimento no esforço de guerra durante a II Guerra
Mundial e depois nas guerras da Coreia, já na década de 1950.

Fonte: Plano dos Centenários,
Peças desenhadas da Escola Primária do núcleo da Borralha, freguesia de Salto,
concelho de Montalegre
O primeiro
ofício datado de 31 de maio de 1943, enviado da sociedade “Mines de Borralha”,
com sede social provisória na rue de Sully, 50, em Lyon, mas que detinha
escritório em Lisboa, no largo do Corpo Santo, 13, 3º Esquerdo, solicita ao
Ministério das Obras Públicas e Comunicações a autorização para “… a construção de uma escola primária, para
ambos os sexos, destinada aos filhos dos nossos operários, que calculamos serem
cêrca (sic) de 200. Embora a escola seja particular, gratuita e rural,
pretendemos que o edifício destinado ao seu funcionamento seja construído de
harmonia com os planos existentes para as escolas oficiais.” A autorização
ministerial ocorre logo a 5 de junho, sendo que a Direção Geral de Edifícios e
Monumentos Nacionais, após o parecer da Repartição de Estudos e de Obras de
Edifícios, informa a citada sociedade mineira a 19 de junho, enviando “Cópias de um projecto de uma escola de duas
aulas e outra de um de 3 salas (…). Aproveitando o ensejo, cabe-me esclarecer
que pretendendo Vª Exas. mandar construir escolas para uma população de cêrca
(sic) de 200 crianças, de ambos os sexos, afigura-se a esta Direcção Geral
aconselhável a construção de um edifício de 2 salas e outro de 3, ou dois de
três salas, o que permitiria a completa separação dos sexos e, no caso da 2ª
solução, uma margem para o acréscimo da população escolar.”
Do processo
nada mais consta da opção tomada, mas tendo em consideração a documentação
posterior, datada já de dezembro de 1966, a escola construída a expensas da
sociedade mineira foi bem mais modesta e parca em recursos do que a proposta
sugerida pelas entidades oficiais. Com efeito, e tendo em conta uma planta de
25 de novembro de 1966, constatamos que o edifício escolar que a sociedade
mineira pretendeu então doar ao Estado “(…)
está implantado num terreno de cerca de 1000 m.q. e que se compõe de 2 salas de
aula, uma residência para professores, um pequeno alpendre e 2 retretes.” A
exposição da vistoria solicitada pela Direção Geral do Ensino Primário e
comunicada à Delegação para as Obras de Construção de Escolas Primárias é
demolidora da avaliação que faz do espaço físico da escola, propondo que “Atendendo às deficiências de concepção de
que o imóvel enferma e às obras de que necessita, julga esta Delegação que nem
pode constituir solução capaz para as instalações do ensino nem há interesse em
aceitar a doação, que a entidade proprietária se propõe fazer ao Estado.”
Destarte, a concordância do Estado em recusar a doação, ficou logo plasmada por
assinatura ministerial de 27 de dezembro de 1966.
A História, contudo, não se esgota nas fontes documentais estritamente
institucionais; vai além do que a memória documental atesta, testemunha e
comprova. Malgrado o explicitado supra, as gentes que trabalharam no couto
mineiro da Borralha têm outras (boas) lembranças da aldeia que ganhou
notoriedade nos tempos áureos da exploração volfrâmica. Da tradição oral, e de
quem trabalhou nas minas, há a memória que que a todos era oferecida casa no
bairro operário, água e energia elétrica. Havia um pequeno posto da GNR,
Correios, posto médico, um refeitório, uma sala para projeção de cinema e
escola, a primeira entre Braga e Chaves e onde os alunos aprendiam uma
profissão para os diversos trabalhos da mina. Dessas “profissões” aprendidas em
contexto de trabalho, importa referir a de escombreiro, maquinista de galerias,
entivador (colocava madeiras para escoramento em minas) e eletricista. Dessa
memória oral, há testemunhos de que na aldeia industrial foram construídas
lavarias para a lavagem e separação do minério, uma fundição única na Península
Ibérica, onde se procedia à transformação do volfrâmio em ferro tungsténio,
além de oficinas, armazéns, carpintarias de apoio às várias galerias,
britadores, o “stockwerk”, e bairros operários que chegaram a albergar cerca de
5000 pessoas. Além dos quadros de pessoal das “Mines de Borralha”, a exploração
mineira feita a céu aberto, contava com os apanhistas,
trabalhadores que tinham licença da empresa para apanhar o minério, com a
condição de no final do dia o vender à sociedade mineira, além dos farristas, que mais não eram
contrabandistas que à margem das regras, negociavam o volfrâmio “extra-muros”.
Destes últimos, e porque o lucro e enriquecimento fáceis são sempre sedutores,
conta-se que os farristas se “davam ao
luxo” de fumar notas de 500 escudos, conquanto uma pedra de volfrâmio de 1
Kg valesse 1000 escudos, nos anos 40. Esta constatação não é displicente,
porque foi exatamente durante a década de `40 que o volfrâmio teve mais
procura, na medida que foi fundamental para o esforço de II Grande Guerra.
Portugal e o governo de Salazar, foram essenciais para as duas frentes em
conflito (Aliados e forças do Eixo), uma vez que de forma camuflada vendiam,
quer a uns, quer a outros, não só o volfrâmio para a economia de guerra, bem
como outros produtos essenciais como conservas, lã e calçado. Quer as forças
aliadas, mormente os Ingleses através do Ministério da Guerra Económica
(Ministry of Economic Warfare), quer os alemães, tinham no Portugal neutral,
mas colaboracionista para ambos os lados (local privilegiado de espiões, refugiados,
jogos diplomáticos e informadores de Guerra), testas-de-ferro encarregados de
comprar tudo aquilo de que o inimigo necessitasse. Os ingleses, por exemplo,
não necessitavam de volfrâmio, que obtinham das suas colónias, só o compravam
para “secar” os alemães. Ao invés, e mesmo após o bloqueio de volfrâmio imposto pelos Aliados, Salazar
continuava a fornecer a Alemanha, contrabandeando bens essenciais à guerra – quer os já citados,
quer reexportando petróleo norte-americano, fosfatos do norte de África,
matérias-primas das suas colónias, além de açúcar e estanho, mesmo que por cá
vigorasse o racionamento de bens essenciais… -, seguindo para a Suíça em
comboios fechados, através de territórios ocupados pelas forças nazis. Os
alemães, ao invés pagavam a conivência portuguesa, com lingotes de ouro
extorquidos aos bancos holandeses e belgas, após a invasão nazi destes territórios,
o pagamento de juros e a compra de divisas. Os anos de 1941-43 são um período
de ouro para as finanças públicas portugueses, com a compra cada vez maior de
produtos estratégicos para o esforço de guerra, em ambos os lados das forças
beligerantes. Com efeito, este triénio, ficou marcado pela primeira e única vez
na época contemporânea, em que a balança comercial portuguesa foi positiva.

(Imagem da fachada da escola primária. Retirada da internet)
Fonte: © Olhares.com foto de Vítor Ribeiro
Com o fecho
das minas em 1986, a Câmara Municipal já investiu cerca de 2 000 000
euros, para a reabilitação deste espaço. Assim, em julho de 2015 abriu um
núcleo do Ecomuseu do Barroso, onde se insere o Centro Interpretativo das Minas da Borralha, que compreende entre
outros um centro do núcleo museológico (receção, auditório, balneários e
algumas zonas de exposição); a fundição; edifício para futuras exposições; a
casa dos compressores; edifício longitudinal, com quatro compressores de
grandes dimensões e o Arquivo, piso onde se encontra um grande espólio
documental, relacionado com todas as atividades relativas às minas. Já durante
este ano de 2021, a atividade mineira poderá ser retomada na Borralha, através
de um projeto da empresa Minerália –
Minas, Geotecnia e Construções, Lda, com sede em Braga, para um contrato de
concessão de exploração de volfrâmio, estanho e molibdénio, mas essa intenção
está a ter muitos entraves por parte de população devido a problemas da
extração a céu aberto do minério, bem como de sustentabilidade ambiental.
Algumas propostas de leitura e duas propostas musicais:
PIMENTEL,
Irene Flunser – Judeus em Portugal
durante a II Guerra Mundial. Lisboa: A Esfera dos Livros. 2006
ROSAS,
Fernando – Portugal entre a Paz e a
Guerra 1939-1945. Lisboa: Editorial Estampa.1995
https://www.publico.pt/2011/11/06/jornal/minas-mineiros-e-guerras-as-corridas-ao-volframio-23357897
https://www.rtp.pt/noticias/mundo/portugal-e-o-dia-d-como-salazar-escapou-por-um-triz_n1152272
Red Hill Mining
Town –
U2 - The Joshua Tree, 1987
Os Senhores da
Guerra –
Madredeus – O Espírito da Paz, 1994
M.M.