2017/05/24

Faria de Vasconcelos - A Escola Nova - Parte II



(Fotografia da Escola Nova Bierges)



“António Sena Faria de Vasconcelos (1880-1939) é um homem desse tempo, sensível às questões educativas e consciente de que só a educação pode tornar os homens livres e ‘iguais’. Preocupação que o irá acompanhar além-fronteiras, marcando, quer na europa, quer na américa latina […], a sua influência em prol da educação e das questões sociais relativas ao desenvolvimento humano” (Sousa Machado, 2016, p. 116).

Como afirma Sousa Machado (2016, p. 116), Faria de Vasconcelos foi um verdadeiro humanista, na medida em que entendeu a transformação social através da educação. Esta pedagogia respeita a individualidade do educando: cada aluno deverá redescobrir interesses próprios e, acima de tudo, desenvolver o espírito crítico e o caminho para a autodeterminação. No entender do próprio e de Faria de Vasconcelos (1918, p. 3), na escola todos os cursos devem respeitar a atividade pessoal e intelectual de cada aluno:

“Conclui-se que a proposta de Faria de Vasconcelos era ampliar o conhecimento dos professores sobre a psicologia da criança, propondo uma nova metodologia com a finalidade de sanar os problemas encontrados no ensino […] buscou comprovar a eficácia dos estudos em psicologia, desenvolvidos ao longo da sua trajetória intelectual […]” (Maques, 2016, p. 9).

O ideal subjacente ao movimento da escola nova [1] foi o combate às desigualdades sociais. Dai a necessidade do conhecimento dos novos modelos de psicopedagogias emergentes, por parte dos educadores, para a compreensão holística da criança. Na comemoração do 10.º aniversário da criação da Escuela Normal Mixta de Preceptores de la República na Bolívia, Faria de Vasconcelos (1929, p. 1), apelou a uma escola aberta, a uma polissemia de culturas e saberes empíricos. Este processo de aprendizagem seria, pois, a preparação dos alunos para uma comunicação vivente e integrada nas soluções do país.

“A prática pedagógica da escola de FV [Faria de Vasconcelos] revela-se actual e pertinente por ser centrada na aprendizagem do aluno, no desenvolvimento do pensamento crítico e criativo e numa educação e formação para a vida e para o trabalho, […]” (Duarte, 2010, p. 20).

Para além desta preocupação – escola aberta –, Faria de Vasconcelos foi autor de uma vastíssima obra teórica. Destacamos por ora a sua colaboração na revista de intervenção Seara Nova, que continua a sua publicação no regime de Salazar e, portanto, se revestiu de grande importância para os futuros movimento de educação aberta. Intelectuais como Jaime Cortesão, Raúl Proença, Vitorino Nemésio, Maria de Castro, António Sérgio, entre outros foram acérrimos colaboradores da Seara Nova. Como bem verificou Cruz (2001, p. 147), os “seareiros” foram uma fonte de inspiração para Faria de Vasconcelos e António Sérgio, tendo colaborado na reforma de João Camoesas. [2]

A primeira grande guerra alterou profundamente a vida intelectual de Faria de Vasconcelos. Com a invasão da Bélgica pelo exército alemão, o pedagogo viu-se forçado a cessar a experiência da Escola de Bierges-Lez-Wawre, rumando a Genève, para o Instituto Jean-Jacques Rousseau. Algum tempo depois, e por diligência de Adolphe Ferrière, rumou a Cuba e depois à Bolívia, onde veio a realizar uma notável obra pedagógica. A sua ação, aliás, estendeu a sua influência a toda a América Latina, com a sua didactica de la escuela nueva (cf. Ferreira, 2010, p. 38):

“A proposta educativa de Faria de Vasconcelos, profundamente marcada pela Educação Nova e na lógica de uma pedagogia científica, pugnava por uma educação integral, no sentido em do desenvolvimento de todas as capacidades do educando e que a escola deveria dar a cada individuo para a intervenção de cada um num futuro melhor” (Ferreira, 2010, p. 38).

Os ideais Faria de Vasconcelos estão editados nas suas Obras completas, que incluem o seu texto emblemático: Une école nouvelle em Belgique, publicado em Genève em 1915, traduzido em 1919 para inglês, em 1920 para castelhano e em 2015 para português, como Uma escola nova na Bélgica.

Fonte (2016) destaca as seguintes investigações de Faria de Vasconcelos: O ensino ético-social das multidões, Lisboa, 1902; La psychologie des foules infantiles, Bruxelas, 1903; Une école nouvelle en Belgique, Neuchatel e Paris, 1915; Problemas escolares, Lisboa, 1921 e 1929; Lições de pedagogia e pedagogia experimental, Lisboa, 1923; Didáctica das ciências naturais, Paris-Lisboa, 1923; Lições de Psicologia Geral, Lisboa, 1924; Ensaio sobre a psicologia da intuição, Lisboa, 1922; O Instituto de Orientação Profissional Maria L. B. de Carvalho, Lisboa, 1926; Problemas escolares, Lisboa, 1935, etc.

Faria de Vasconcelos morreu em Lisboa, na freguesia de Benfica, a 11 de agosto de 1939 com 59 anos de idade.

P. M. 
  

Bibliografia:


ALVES, L. A. M. –  “República e educação: dos princípios da Escola Nova ao manifesto dos pioneiros da educação”. Revista da Faculdade de Letras-História, vol. 11 (2010), p. 165-180.


BANDEIRA, Filomena – Vasconcelos Cabral Azevedo, António Sena Faria de. Dicionário de educadores portugueses. Porto: Asa, 2003.


CRUZ, Maria Gabriel Moreno Bulas – “Antônio de Sena Faria de Vasconcelos (1880-1939): um português no movimento da ‘escola nova’". Educação em Revista, vol. 2, n. 1 (2001), p. 138-149.


DINIZ, Aires Antunes - "Faria de Vasconcelos - um educador da escola nova nas sete partidas do mundo." II Congresso Brasileiro de História da Educação - Intelectuais e memória de educação no Brasil, 2002, p. 1 - 12.


DUARTE, Madalena Luzia Pereira - À descoberta da escola nova de faria de Vasconcelos. Aveiro: [s. n.], 2010. Dissertação de Mestrado apresentada à universidade de Aveiro.


FERREIRA, António Gomes; MOTA, Luís – “Educação e formação de professores do ensino secundário na Primeira Republica”. Exedra, n. 4 (2010), p. 33-48.


FERREIRA MARQUES, J. F. – Faria de Vasconcelos e as suas obras de psicologia e de ciências da educação. Lisboa: Academia de Ciências de Lisboa, 2012.


FIGUEIRA, M. H. –  “A educação Nova em Portugal (1882-1935): semelhanças, particularidades e relações com o movimento homónimo internacional”. História da Educação, vol. 8, n.15 (2004), p. 29-52.


FIGUEIRAS, Manuel Henrique – “A educação nova em Portugal (1882-1935): semelhança, particularidades e relações com o movimento homónimo internacional, parte I”. História da Educação, ASPHE/FaE/UFPel, n. 14 (set. 2003), p. 97-140.


FONTES, Carlos – “Pedagogos portugueses” [em linha]. História da Formação Profissional e da Educação em Portugal e Colónias: século XIX, [2016]
[consult. 25 jan. 2017].


GOMES, J. F. –  “A. Faria de Vasconcelos (1880-1939)”. Revista Portuguesa de Pedagogia, vol. 14 (1980), p. 231-255.


MARQUES, Josiane Acácia de Oliveira – “Medir, diagnosticar e reparar: o que diz o manual pedagógico de Faria de Vasconcelos sobre a aplicação de testes aritméticos”. São Paulo: Educação Matemática na Contemporaneidade: desafios e possibilidades, 2016.


PATRÍCIO, Manuel  F. ­– “A Seara Nova no itinerário pedagógico de Faria de Vasconcelos”. Seara Nova, n. 1712 (verão, 2010). [consult. 25 jan. 2017].


REIS, Manuel Pires Dias dos – Recenseamento bibliográfico de Faria de Vasconcelos: contributo para um estudo da sua acção pedagógica. Porto [s.sn.], 1972. Dissertação de Licenciatura em Filosofias, apresentada à Faculdade de Letras de Universidade do Porto.


SOUSA MACHADO, Teresa – “Faria de Vasconcelos: um pioneiro no movimento da escola nova na europa e na américa latina”. Revista Argentina de Ciencias del Comportamiento, vol. 8, n. 2 (ago. 2016), p. 115-123.


VACONCELOS, Faria de – “Ecos de la fiesta intelectual y artística de la escuela Normal: discurso-informe del director señor Faria de Vasconcelos.” Revista Pedagógica, n. 7. A. 2 (jun. de 1918), p.1-17.


VASCONCELOS, Faria de – Uma escola nova na Bélgica ; pref. de Adolphe Ferrière. Aveiro: Universidade de Aveiro, 2015.


VASCONCELOS, Faria de - Hacia el mar. Sucre: Taller Tipografico de Darís N. Pórcel, [1929].

VASCONCELOS, Faria de - O Instituto de Orientação Prosissional. Sua finalidade, organização e funcionamento. Lisboa: Oficinas Fernandes, 1935.


VASCONCELOS, Faria de – O que é e o que deve ser a educação física. Lisboa: Papelaria Maia, 1928.


VASCONCELOS, Faria de – “Syllabus” del curso de dirección y organización de las escuelas. Sucre: Escuela Normal Mixta de Preceptores de la Republica [Bolívia], 1919.





[1] O movimento educação aberta propõe a gratuitidade do ensino básico e secundário, a concessão de bolsas para o ensino superior a indivíduos com capacidade e sem recursos, o próprio Ministro da Instrução António Sérgio (1883-1969) defende que é no indivíduo, em cada indivíduo, que a unidade da consciência se manifesta. Neste contexto formulou a sua doutrina sobre o socialismo cooperativista, surgindo-lhe o cooperativismo como a forma de organização social mais consentânea com a sua conceção do homem como ser ativo e criador. Com a proclamação da República (1910/10/05), passou a trabalhar a favor da reforma da educação no nosso país. Maís tarde, na década de 1970, foi marcada por novas práticas de ensino-aprendizagem no ensino de crianças e no advento das universidades abertas. Da mesma maneira, o termo educação aberta é utilizado atualmente no contexto dos chamados Recursos Educacionais Abertos, trazendo consigo uma gama de novas práticas de ensino-aprendizagem que se popularizaram com o advento das tecnologias educacionais.
[2] João José da Conceição Camoesas (1887-1951) foi um médico, jornalista e político que, entre outras funções, foi Ministro da Instrução Pública durante a Primeira República Portuguesa, tendo então protagonizado uma tentativa de reforma do sistema educativo que ficou conhecida por Reforma Camoesas. Pertenceu à Maçonaria e foi opositor ao regime do Estado Novo, tendo em consequência falecido no exílio.

2017/05/17

Peça do mês de maio




Meridiano elástico

Dispositivo de duas lâminas flexíveis, dobradas em circunferência, montadas numa haste por sua vez inserida numa estrutura de madeira com manivela no topo que, ao ser rodada permite explicar o achatamento da Terra nos polos.

Está inventariada com o número ME/400166/63 e pertence ao espólio museológico da Escola Secundária Domingos Sequeira.

O meridiano é uma linha imaginária vertical que se traça para dividir cartograficamente a Terra em diferentes pontos, estabelecendo a latitude, necessária para a localização geográfica.

O meridiano de Greenwich é o chamado meridiano inicial ou de referência, em que a latitude é zero graus. Este divide o planeta em hemisfério oriental e ocidental e estabelece os fusos horários.


MJS



2017/05/02

Seminário Arquitetura Escolar

(Imagem do folheto alusivo ao Seminário de Arquitetura Escolar)



No âmbito do projeto de investigação Atlas of School Buildings in Portugal_Education, Heritage and Challenges, irá decorrer um seminário sobre Arquitetura Escolar, tendo como objetivo a análise da reabilitação das escolas do 1.º ciclo da responsabilidade da Câmara Municipal de Lisboa. Terá lugar no dia 11 de Maio, das 14.30 h às 17.30 h, no auditório do CIUL ( Centro de Informação Urbana de Lisboa - Picoas).

2017/04/26

Projeto Capacitar#2

(Imagem de uma lâmpada acesa)


O projeto Capacitar#2 irá decorrer entre 3 e 5 de maio, promovido pela biblioteca do Instituto de Educação e da Faculdade de Psicologia. Trata-se de um ciclo de debates e várias atividades em torno da arte e da criatividade, enquanto competências de capacitação. A entrada é gratuita e o evento associa-se à Junta de Freguesia de Alvalade (Alvalade - Capital da Leitura). Para mais informações e para consulta do programa clique aqui.


2017/04/19

Peça do mês de abril


Mãos – Modelo Anatómico


Modelo anatómico de duas mãos humanas em caixa de madeira e vidro, utilizado para o estudo dos músculos e do sistema nervoso humano.

Está inventariado com o número ME/ESDJC/1080 e pertence ao espólio museológico da Escola Secundária D. João de Castro.

Os modelos anatómicos foram um dos recursos didáticos por excelência para estudo e observação, a três dimensões, das estruturas internas e externas do corpo humano. Podem representar órgãos, sistemas, partes do corpo etc.

Neste caso específico, não existe qualquer informação ou referência no que respeita ao fabricante ou à origem do modelo. Podemos observar uma textura rica e uma cor intensa, com detalhes e pormenores bastante realistas. Há quase uma clareza chocante e um efeito visual de grande impacto.


MJS



2017/04/12

Nova publicação da BAD: "Os vocabulários controlados na organização e gestão do património cultural"

(Capa da publicação "Os vocabulários controlados na organização e gestão do património cultural")




Esta publicação visa tornar-se uma ferramenta de trabalho em língua portuguesa agregando a terminologia utilizada em instituições de memória. Aqui se podem encontrar os tipos mais comuns de vocabulário e exemplos da sua aplicação. para mais informações aceda aqui ao guia.


2017/04/05

Faria de Vasconcelos - A Escola Nova - Parte I

(Imagem de Faria de Vasconcelos)


No início do século passado, em Portugal, existiram diversos movimentos renovadores no campo da psicologia, pedagogia e assistência social. A Revolução da 1.ª República, a 5 de outubro de 1910, tentou implementar ideais políticos a nível da instrução: a diminuição do analfabetismo através da educação. Neste contexto sociopolítico emergiram reflexões sobre as necessidades de escolarização, o papel dos professores e as pedagogias a adotar nas escolas. Este ideal republicano não foi propriamente novidade, bastar-nos-á recordar o caso dos jesuítas que asseguraram a gratuitamente o ensino. Mesmo após a expulsão desta congregação, no século XVIII, o Marquês de Pombal, em 1772, levou a cabo várias reformas educativas, inclusive, criou escolas por todo o país e ultramar.

Atendendo a estes antecedentes, não admira que a pedagogia, enquanto disciplina, no início do século XX fosse um dos instrumentos didáticos em consolidação e reestruturação. Como verifica Diniz (2002, p. 1), as práticas didáticas neste período têm profunda influência em John Dewey, pedagogo que valoriza sobretudo o conhecimento empírico.[1]  


“A John Dewey teria Faria de Vasconcelos ido beber a ‘doutrina de interesses’, exposta no seu ‘Credo Pedagógico’ e pela qual não se pode sacrificar o aluno a uma adesão artificial pelas matérias, mas estas têm que se estabelecidas por forma a satisfazerem a sua curiosidade. O interesse […] aberto ao pleno desenvolvimento e acção” (Reis, 1972, p. 84).


Como verifica Manuel Reis (Reis, 1972, p. 85), Faria de Vasconcelos reconheceu a “doutrina de interesses” de Dewey, no sentido em que apelava ao uso de métodos ativos para incutir nos alunos gosto pelo conhecimento empírico e aprendizagem contínua. À escola competia promover as respetivas práticas de autodisciplina e autonomia de aprendizagem – o professor era visto como guia e modelo do aluno (magistrocentrismo). A educação era, pois, uma arma de transformação social. Esta convicção era comum a todos os pedagogos da école nouvelle[2], ou seja, a educação é por excelência o fator de transformação da sociedade.

O “credo pedagógico” da escola nova influenciou a maneira de (re)pensar a criança: esta é perspetivada na sua ação e autodeterminação. Assim sendo, a dialéctica educação/peda­gogia tornou-se o fundamento epistemológico para a transformação social, ideal este descrito por Faria de Vasconcelos nas suas investigações. Daí a sua importância, não só para Portugal, mas para a compreensão da pedagogia contemporânea:


“En educación y en instrucción el problema de los métodos de trabajo tiene una importancia capital, porque lo que importa para la vida es no solamente saber, tener conocimientos, sino sobre todo, saber utilizarlos, aplicarlos en el momento oportuno, evocarlos en la ocasión necesaria, realizarlos como y cuando la vida lo pide” (Vasconcelos, 1919,  p. 7).

Faria de Vasconcelos é, sem dúvida, um dos educadores portugueses mais conhecidos no estrangeiro. A sua é uma referência obrigatória para quem quer estudar as dinâmicas da educação nova no princípio do século XX.

Será importante salientar que, António de Sena Faria de Vasconcelos Azevedo (1880-1939) era natural do Distrito de Castelo Banco (Idanha-a-Nova), filho e neto de magistrados, tendo concluído os seus estudos secundários no Colégio do Norte, dirigido pelos padres do Espírito Santo. Em 1896 ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, adquirindo o grau de bacharel em 1901. No ano letivo de 1902-1903 matriculou-se na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Nova de Bruxelas, onde obteve uma candidature em sciences. Inscreve-se posteriormente no doctoract en sciences sociales, doutorando-se em 1904, com uma tese intitulada Esquisse d’une théorie de la sensibilité sociale.

“Faria de Vasconcelos tornou-se imediatamente uma figura emblemática do Movimento da Escola Nova à escala internacional. Não fique esquecido o facto de a Escola de Bierges-Lez-Wawre ter sido criada pelo pedagogo português a expensas suas. Ele quis mostrar à Europa e ao mundo a possibilidade e a realidade de uma Escola que realizava integralmente os princípios da pedagogia científica” (Patrício, 2010)

Como verificamos (Patrício, 2010), Faria de Vasconcelos foi um dos pilares do movimento da escola nova. No ano letivo de 1912-1913 surge como diretor da École Nouvelle, de Bierges-lez-Wavre que fundara, em outubro de 1912, no Château des Vallées. Nesta escola aplicou os princípios escola nova, tal como eram defendidos por John Dewey, G. M. Kerchenens-Teiner, E. Claparède, A. Ferrière e outros. Em 1912 tornou-se membro da Sociétè Belge de Pedotechnie. Devido à grande guerra, Faria de Vasconcelos abandonou a Bélgica e fixa-se em Genebra, local onde E. Claparède, P. Bovet e A. Ferrière criaram o Institut Jean-Jacques Rousseau, em 1912.

(Imagem de vários alunos e professores na Biblioteca do Institut Jean-Jacques Rousseau, em 19124)



Faria de Vasconcelos colaborou com Claparède no Laboratório de Psicologia Experimental, onde regeu um curso de pedagogia e secretariou o Bureau International des Écoles Nouvelles, criado por Adolphe Ferrière em 1899, por indicação deste último e de Claparède.

Em 1915, atendendo à solicitação do Ministério da Saúde e Beneficência de Cuba, foi para Havana com o objetivo de aí fundar uma escola nova. Após tal tarefa, em 1917 deixou Cuba e numa missão educativa atravessou a América Latina.

Em 1920 regressou a Portugal participando na Universidade Popular Portuguesa, na fundação da revista Seara Nova (1921), e ingressando na Escola Normal Superior da Universidade de Lisboa. Em 1922 passou a reger a cadeira de psicologia geral. Em 1925 foi nomeado para diretor do então criado Instituto de Orientação Profissional Maria Luísa Barbosa de Carvalho[3]. Em 1930, com Aurélio da Costa Ferreira[4], fundou o efémero Instituto de Reeducação Mental e Pedagogia. Em 1933 na Livraria Clássica Editora criou a Biblioteca de Cultura Pedagógica, para a qual escreverá 15 volumes. 



Bibliografia:


ALVES, L. A. M. –  “República e educação: dos princípios da Escola Nova ao manifesto dos pioneiros da educação”. Revista da Faculdade de Letras-História, vol. 11 (2010), p. 165-180.


BANDEIRA, Filomena – Vasconcelos Cabral Azevedo, António Sena Faria de. Dicionário de educadores portugueses. Porto: Asa, 2003.


CRUZ, Maria Gabriel Moreno Bulas – “Antônio de Sena Faria de Vasconcelos (1880-1939): um português no movimento da ‘escola nova’". Educação em Revista, vol. 2, n. 1 (2001), p. 138-149.

DINIZ, Aires Antunes - "Faria de Vasconcelos - um educador da escola nova nas sete partidas do mundo". II Congresso Brasileiro de História da Educação - Intelectuais e memória de educação no Brasil, 2002, p. 1-12.

DUARTE, Madalena Luzia Pereira - À descoberta da escola nova de Faria de Vasconcelos. Aveiro: [s. n.], 2010. Dissertação de Mestrado apresentada à Universidade de Aveiro
  

FERREIRA, António Gomes; MOTA, Luís – “Educação e formação de professores do ensino secundário na Primeira Republica”. Exedra, n. 4 (2010), p. 33-48.


FERREIRA MARQUES, J. F. – Faria de Vasconcelos e as suas obras de psicologia e de ciências da educação. Lisboa: Academia de Ciências de Lisboa, 2012.


FIGUEIRA, M. H. –  “A educação Nova em Portugal (1882-1935): semelhanças, particularidades e relações com o movimento homónimo internacional”. História da Educação, vol. 8, n.15 (2004), p. 29-52.


FIGUEIRAS, Manuel Henrique – “A educação nova em Portugal (1882-1935): semelhança, particularidades e relações com o movimento homónimo internacional, parte I”. História da Educação, ASPHE/FaE/UFPel, n. 14 (set. 2003), p. 97-140.


FONTES, Carlos – “Pedagogos portugueses” [em linha]. História da Formação Profissional e da Educação em Portugal e Colónias: século XIX, [2016]
[consult. 25 jan. 2017].


GOMES, J. F. –  “A. Faria de Vasconcelos (1880-1939)”. Revista Portuguesa de Pedagogia, vol. 14 (1980), p. 231-255.


MARQUES, Josiane Acácia de Oliveira – “Medir, diagnosticar e reparar: o que diz o manual pedagógico de Faria de Vasconcelos sobre a aplicação de testes aritméticos”. São Paulo: Educação Matemática na Contemporaneidade: desafios e possibilidades, 2016.


PATRÍCIO, Manuel  F. ­– “A Seara Nova no itinerário pedagógico de Faria de Vasconcelos”. Seara Nova, n. 1712 (verão, 2010). [consult. 25 jan. 2017].


REIS, Manuel Pires Dias dos – Recenseamento bibliográfico de Faria de Vasconcelos: contributo para um estudo da sua acção pedagógica. Porto [s.sn.], 1972. Dissertação de Licenciatura em Filosofias, apresentada à Faculdade de Letras de Universidade do Porto.


SOUSA MACHADO, Teresa – “Faria de Vasconcelos: um pioneiro no movimento da escola nova na europa e na américa latina”. Revista Argentina de Ciencias del Comportamiento, vol. 8, n. 2 (ago. 2016), p. 115-123.


VACONCELOS, Faria de – “Ecos de la fiesta intelectual y artística de la escuela Normal: discurso-informe del director señor Faria de Vasconcelos.” Revista Pedagógica, n. 7. A. 2 (jun. de 1918), p.1-17.


VASCONCELOS, Faria de – Uma escola nova na Bélgica ; pref. de Adolphe Ferrière. Aveiro: Universidade de Aveiro, 2015.


VASCONCELOS, Faria de - Hacia el mar. Sucre: Taller Tipografico de Darís N. Pórcel, [1929].


VASCONCELOS, Faria de - O Instituto de Orientação Prosissional. Sua finalidade, organização e funcionamento. Lisboa: Oficinas Fernandes, 1935.


VASCONCELOS, Faria de – O que é e o que deve ser a educação física. Lisboa: Papelaria Maia, 1928.
VASCONCELOS, Faria de – “Syllabus” del curso de dirección y organización de las escuelas. Sucre: Escuela Normal Mixta de Preceptores de la Republica [Bolívia], 1919.



P. M. 





[1] John Dewey tenta sintetizar, criticar e ampliar a filosofia da educação democrática ou proto democrática contidas em Rousseau e Platão. Dewey denota que Rousseau valoriza o indivíduo em si mesmo, enquanto Platão acentuava a influência da sociedade na qual o indivíduo se insere. Dewey contestou esta dicotomia cognitiva. Tal como Vygotsky, Dewey concebia o conhecimento e o desenvolvimento como um processo holístico, numa dialéctica sociedade vs indivíduo.

[2] A Educação Nova foi um movimento que se desenvolveu no espaço europeu ocidental, na América do Norte e do Sul entre finais do século XIX e meados do século XX. O seu pensamento exprime-se sobretudo por práticas pedagógicas inovadoras” e, paralelamente, com um corte radical com o passado, com a educação tradicional. Os primeiros grandes inspiradores da Escola Nova foram o escritor Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) e os pedagogos Heinrich Pestalozzi (1746-1827) e Freidrich Fröebel (1782-1852). O grande nome do movimento na América foi o filósofo e pedagogo John Dewey (1859-1952). O psicólogo Edouard Claparède (1873-1940) e o educador Adolphe Ferrière (1879-1960), entre muitos outros, foram os expoentes na Europa. Em Portugal este movimento atinge o seu expoente máximo Faria de Vasconcelos (1880-1939), por sua vez, no Brasil as ideias da Escola Nova foram introduzidas já em 1882 por Rui Barbosa (1849-1923). A Escola Nova recebeu muitas críticas. Foi acusada principalmente de não exigir nada, de abrir mão dos conteúdos tradicionais e de acreditar ingenuamente na espontaneidade dos alunos. A leitura das obras e a análise das poucas experiências em que, de fato, as ideias dos escolanovistas foram experimentadas com rigor mostram que essas críticas são válidas apenas para interpretações distorcidas do espírito do movimento.

[3] No entender de Faria de Vasconcelos “Para alcançar os objectivos propostos, o Instituto [de Orientação Profissional Maria Luísa Barbosa de Carvalho] dispõe dos recursos indispensáveis, podendo dizer-se, com legítimo orgulho, que sob o ponto de vista da aparelhagem, é um dos melhores da Europa. O instituto dispõe actualmente de 14 laboratórios para os exames e investigações de medicina, fisiologia e psicologia, aplicando o diagnóstico das aptidões dos orientadores e das exigências das actividades profissionais” (Vasconcelos, 1935, p.4).

[4] António Aurélio da Costa Ferreira, natural da freguesia de Santa Luzia do concelho do Funchal, médico, antropólogo, professor e pedagogo de renome, com lugar de relevo na História da Educação em Portugal. Como educador, desempenhou um papel importante na direção da Casa Pia de Lisboa, na formação de professores, na reabilitação e integração de crianças com necessidades educativas especiais, na promoção da laicização do Ensino e na divulgação do movimento da Escola Nova em Portugal (Diário de Notícias, Funchal, 18 de Janeiro de 2004).