2011/09/30

Exposição Virtual: "1 de outubro - Dia Internacional da Música: o espólio museológico da Escola de Música do Conservatório Nacional"

 

O Dia internacional da Música foi criado em 1975 pelo Presidente do International Music Council, organização não-governamental fundada em 1948 e patrocinada pela Unesco. Através da criação deste dia pretendia promover-se valores fundamentais como a paz e a harmonia através da arte musical. Na verdade, a música e o som constituem uma linguagem universal que dispensa palavras e pode ser compreendida por seres humanos de todas as idades, raças ou nacionalidades. 

A Secretaria-Geral associa-se a esta comemoração através de uma exposição do espólio museológico da Escola de Música do Conservatório Nacional de Lisboa. A criação da Escola de Música é indissociável da figura de João Domingos Bomtempo (1775 – 1842), pianista e compositor português. Cerca de 1820, após uma carreira artística nas capitais europeias, João Bomtempo regressou a Portugal tendo como objetivo implantar reformas profundas ao nível do ensino da Música. Durante décadas, o ensino desta área esteva a cargo do Seminário Patriarcal, focalizando-se na música religiosa. Este projeto concretizou-se em 1835 com o decreto de criação do Conservatório de Música, do qual Bomtempo se tornou diretor. A subida ao poder de D. Pedro IV, e a sua nomeação como professor de D. Maria II contribuíram para o sucesso da sua reforma. 

Da seleção apresentada fazem parte vários instrumentos musicais, indispensáveis ao ensino, como é o caso do piano, da harpa, da guitarra, da flauta, entre outros. No entanto, o espólio desta instituição não se esgota aqui e podemos destacar várias pinturas e desenhos de figuras de destaque do panorama musical português, como é o caso de Marcos Portugal, Augusta Cruz, António Fragoso, Rui Coelho e o próprio João Bomtempo. As esculturas também marcam a sua presença, através de alguma peças que retratam anjos tocando instrumentos. Não faltam igualmente os clássicos bustos de grandes compositores musicais, como Beethoven ou Bach. 


Saxofone

ME/404240/66

Escola de Música do Conservatório Nacional


Harpa

ME/404240/71

Escola de Música do Conservatório Nacional


Órgão de tubos

ME/404240/49

Escola de Música do Conservatório Nacional


Pintura de João Domingos Bontempo

ME/404240/84

Escola de Música do Conservatório Nacional


Desenho de Paganini

ME/404240/34

Escola de Música do Conservatório Nacional


Busto de Bach

ME/404240/74

Escola de Música do Conservatório Nacional


MJS


2011/09/27

Peça do mês de setembro/2011



Pintura


Pintura mural, inventariada com o número ME/401754/146, pertencente à Escola Secundária com 3.º ciclo de Ferreira Dias.

Trata-se de uma pintura mural executada por António Soares em 1964, sobre um painel fixo à parede. Encontra-se profundamente integrada na arquitetura da escola e no espírito da época.

Ao centro temos uma figura feminina, com vestes brancas e uma criança sem roupa aos ombros. Esta criança segura uma placa onde se pode ler "Escola Técnica/ Sintra Cacém". Ao lado desta, encontra-se uma figura masculina, de mais idade, que tem nas mãos um livro.

Do lado esquerdo e direito estão, respetivamente, cinco jovens do sexo masculino e do sexo feminino, que hasteiam bandeiras com símbolos alusivos aos vários cursos técnicos lecionados na escola.

A Escola Secundária com 3.º Ciclo de Ferreira Dias teve a sua origem na Escola Industrial e Comercial de Sintra, criada 1959. O edifício inicial, onde se encontra a referida pintura, não sofreu grandes modificações desde a sua criação.

O autor da obra, Mestre António Soares (1894 – 1978), viveu numa época em que se começam a afirmar em Portugal novas correntes estéticas, ligadas ao modernismo, a par do naturalismo. Não teve qualquer tipo de formação académica e iniciou-se na vida artística através da ilustração. Destacou-se igualmente nas áreas da arquitetura, decoração e cenografia. No âmbito da pintura mural, podemos destacar as pinturas no café lisboeta, A Brasileira.

Caracteriza-se por um estilo que lembra Columbano, com grande interesse pela figura e pela sensibilidade e emoção que consegue transmitir. Participou em várias exposições internacionais, entre 1959 e 1967.


MJS

 

Bibliografia e informação adicional:

http://www.mestreantoniosoares.org/

 

Para consultar a história da Escola Secundária com 3.º ciclo de Ferreira Dias:

http://www.ferreiradias.pt/ESCOLA/Historia_Escola.html

 


2011/09/23

Jornadas Europeias do Património 2011 - O Património e a Paisagem Urbana - As cidades universitárias



A construção dos polos universitários portugueses pelo meio de planos parciais de urbanização produziu e transformou profundamente os espaços urbanos em que os mesmos se inseriram. Como estudou Nuno Rosmaninho, as universidades não tiveram sempre uma dimensão urbana significativa. Na Idade Média implantaram-se no coração das cidades, mas sem as modificar substancialmente do ponto de vista físico. Só tardiamente surgiu a ideia de que à organização do ensino universitário devia corresponder um planeamento urbanístico e arquitetónico específico.

As cidades universitárias de Lisboa e de Coimbra, por exemplo, são o fruto de uma política muito recente, prosseguida pelo governo presidido por António Oliveira Salazar, que procurava a concentração das instituições de ensino superior, à semelhança do que se passava nos princípios do século XX em cidades de países europeus como a Itália, a França., a Espanha e a Alemanha. A cidade universitária de Lisboa foi construída como uma “cidade nova” em terrenos livres da zona da Palma de Cima (Campo Grande), de acordo com um Plano Geral (1935 – 1961) da autoria do gabinete dos arquitetos Porfírio Pardal Monteiro e António Pardal Monteiro.

Quanto à cidade universitária de Coimbra, esta foi concebida a partir de um Plano Geral de reestruturação dos espaços escolares já existentes na Velha Alta da cidade. Dirigida pelo arquiteto Cottinelli Telmo nos anos 1941 a 194, foi prosseguida por Cristino da Silva, entre 1949 e 1966. As obras de reestruturação operaram, na verdade, como uma profunda reforma urbanística obrigando a retificar alinhamentos, regularizar largos, alargar ruas, redistribuir espaços escolares e demolir mais de duas centenas de prédios, entre eles imóveis de interesse histórico e artístico (Observatório Astronómico Pombalino, Arco da barbacã de Almedina, um arco do Aqueduto, colégios, etc.).

As demolições extensas de edifícios com valor patrimonial revelam o desrespeito do Estado Novo pelo património antigo sacrificado que lhe preferiu o classicismo monumental que caracteriza os novos edifícios escolares.





Os processos de conceção e realização das cidades universitárias de Lisboa e de Coimbra podem ser estudados a partir da consulta dos fundos documentais produzidos pelos serviços responsáveis pelas instalações do ensino superior. Entre eles, o arquivo da Comissão Administrativa dos Novos Edifícios Universitários (CANEU), renomeada em 1957 como Comissão Administrativa das Novas Instalações Universitárias (CANIU).

Extintas em 1969, aquando da criação da Direção-Geral das Construções Escolares (DGCE), as competências dessas comissões transitaram para a Direção das Instalações Universitárias, nova unidade orgânica da recém-criada DGCE.

Constituídos por processos administrativos, por projetos de arquitetura (incluindo peças desenhadas) e por coleções de fotografias, os fundos documentais atrás citados e valorizados pelo atual Ministério da Educação e Ciência, permitem conhecer e analisar as opções urbanísticas, arquitetónicas e estéticas dos atores das transformações urbanas não só em Lisboa e Coimbra como também no Porto, aquando da construção de edifícios escolares destinados ao Ensino Superior.

As coleções de fotografias relativas ás instalações universitárias produzidas entre 1927 e 1985, são constituídas por 15 álbuns (987 fotografias), 26 sacos (2019 fotografias, 647 negativos, 8 imagens, 3 gravuras, 12 slides), 2 caixas (53 fotografias, 9 imagens).

Têm informação referente à construção arquitetónica dos edifícios escolares (maquetes; edifícios em construção; inauguração dos edifícios construídos), ao mobiliário e aos motivos decorativos dos mesmos (escultura, pintura, tapeçaria, cerâmica e azulejo).

Inclui fotografias da autoria de Horácio Novais, Otto Aver, Fotografia Império, Fotografia Alvão, Teófilo Rego, Abílio Hipólito e Louis Meyer.

Mais se informa que o Ministério da Educação e Ciência tem à sua guarda outro fundo documental de grande interesse. Trata-se do arquivo da Junta Nacional de Educação, cuja 1.ª Subsecção da 6.ª Secção (Belas Artes) é constituída por uma coleção de processos com pareceres de relatores encarregues de se pronunciar sobre o valor estético dos projetos apresentados por entidades do Estado. Refere-se ainda a existência de outra fonte documental relacionada, a Direção-Geral do Ensino Superior e Belas Artes, cujo arquivo é também custodiado pela Secretaria-Geral do extinto Ministério da Educação.






Bibliografia

 

AZEVEDO, Maria Graça –A integração da universidade na cidade. O caso das universidades no continente português. Dissertação de Mestrado em Geografia Humana e Planeamento Regional e Local, FLUL, 1998.

 

COSTA, Sandra Cristina de Jesus Vaz –A Cidade Universitária de Coimbra. Um projeto de modernização cultural. Utopia e realidade. Dissertação de Mestrado em História da Arte Contemporânea. Faculdade de Ciência Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa,1999.

 

MATOS, Madalena A. Cunha As cidades e os campi. Contributo para o estudo dos territórios universitários em Portugal. Dissertação de Doutoramento em Engenharia do Território, Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa, 1999.

 

PASCOAL, Ana Menhert – A cidade do saber. Estudo do património artístico integrado nos edifícios projetados pelo arquiteto Porfírio Pardal Monteiro para a Cidade Universitária de Lisboa (1934-1961). Dissertação de Mestrado em Arte, Património e Teoria do Restauro. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2010.

 

ROSMANINHO, Nuno – O poder da arte. O Estado Novo e a Cidade Universitária de Coimbra. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2006.

 

TORGAL, Luís Reis – A universidade e o Estado Novo (1926-1970). Coimbra: Livraria Minerva, 1998.




2011/09/16

Projetos de construções universitárias nos fundos históricos




A Universidade de Lisboa está a comemorar o seu centenário. Os edifícios da Reitoria e das Faculdades de Letras e de Direito constituem o trio emblemático da Cidade Universitária que se ergueu nos anos 50 com o traço característico do arquiteto Pardal Monteiro. O fundo relativo a construções universitárias inclui projetos de arquitetura e documentação escrita relativa a variadíssimos edifícios, na sua maioria de Lisboa, mas também do Porto e de Coimbra.

Foi recentemente objeto de descrição arquivística pelas técnicas superiores da DSID (Direção de Serviços de Documentação e Informação) estando em breve disponível para consulta para os investigadores com interesse em recuperar a história das construções universitárias.

Essa história faz-se, não apenas dos projetos que resultaram em obras, em espaço edificado e hoje vivenciado, mas também dos processos de intenções, dos planos que, por algum motivo, não tiveram seguimento e que, por isso, refletem as vicissitudes dos processos políticos e decisionais que envolveram a construção dos edifícios universitários ao longo das décadas centrais do Estado Novo.

Um desses projetos nunca concluído é o projeto para a Praça da Universidade da autoria do Arquiteto M. Norberto Corrêa. O espaço que ficou entre estes edifícios hoje parque de estacionamento e relvado, foi objeto, também ele, de um projeto de intervenção urbanística que, a ser construído, lhe teria dado feição bem diferente. O projeto incluía nas suas intenções não apenas o tratamento do espaço central da cidade universitária, hoje ocupado por um extenso relvado, mas também a reorganização dos eixos de circulação envolventes até ao Campo Grande, inclusive.

Os fundos incluem um “Estudo de Composição”, datado de 1958, e um Anteprojeto, bem mais extenso e detalhado, datado de 1960. Mas num deles o arquiteto refere-se a um “Estudo Prévio para um anteplano de urbanização da Cidade Universitária de Lisboa” de 1955.

Na memória descritiva do Anteprojeto de 1960, Norberto Corrêa esclarece que procurou integrar o seu projeto, tanto quanto possível, na conceção geral do conjunto de edifícios destinado à reitoria e às faculdades de Letras e Direito, que estava previsto, desde há 20 anos, encontrando-se, nesse momento, parcialmente construído.

Refere igualmente que, em 1955, a sua intenção inicial seria desenhar um vasto espaço empedrado destinado a cortejos e cerimónias universitárias, dando total primazia à circulação pedonal e reduzindo ao mínimo o acesso a veículos, privilegiando a noção de “campus universitário”. Mas que, para este seu anteprojeto de 1960, lhe teria sido comunicado um outro sentido programático, que incluía assegurar, em boas condições, o acesso aos edifícios, e conceber um conjunto monumental na zona central.

Dando cumprimento a esta encomenda, o arquiteto apresenta um projeto com uma peça escultórica central, vertical, assente numa base em alvenaria e betão, ladeada por um extenso espelho de água, para o qual são previstos jogos de luz e água.




As dimensões e o volume da peça central foram estudados em função da altimetria dos edifícios envolventes, e em função da possibilidade de ser avistada a grande distância, “desde a ligeira encosta da Avenida [do Brasil] de acesso até à parte fronteira ao Hospital Júlio de Matos”. (p. 11). E “para enquadramento da perspetiva que de longe se abre sobre a avenida de acesso, admitem-se dois volumes de edificações sobre-elevados a rematar a Av. do Brasil”. (p. 9).

O projeto incluiu o estudo de composição de jogos de água, os quais, para dias festivos, incluíam “dois anéis de jactos de água, com orientação definida, rodeando a peça vertical”, e “duas faixas longitudinais, dispostas de cada lado nas restantes curvas, com jactos de água orientáveis” (p. 14). Este movimento seria “acompanhado luminotecnicamente pelo funcionamento de várias fiadas de projectores” (p. 14), estando prevista uma “variabilidade de intensidade, cores e tonalidades” (p. 15) em conjugação com a possibilidade de alterar a dimensão e intensidade dos jogos de água.

No seu conjunto, para além da Memória Descritiva, este Anteprojeto inclui 15 peças desenhadas, desde a planta de localização, à escala 1:2000, até aos desenhos de por menor e esquemas de jogos de água e luz, a 1:100, 1:50 e 1:20.



A proposta inclui ainda uma Estimativa de trabalhos de construção civil, da autoria do Engenheiro J. Ferry Borges, que previa, para a execução deste projeto da “Praça da Universidade”, um orçamento total de 4.300 contos.

Finalmente, este documento permite identificar outras intencionalidades, muito interessantes, qua não fariam parte do âmbito deste projeto de Praça. Assim, concretamente, pela legenda da planta de localização podemos verificar que, para o local onde atualmente se situa o Instituto de Educação e Faculdade de Psicologia, estava prevista uma “Capela da Universidade”; e para o local da atual Torre do Tombo, uma dupla de edifícios destinados a “Hall de Exposições” e “Livraria da Universidade”. Entre os dois, na zona onde o espaço relvado se torna menos largo, estava prevista uma “Estação de Metro com Centro Comercial”.

Caso tivessem sido construídos, estes equipamentos teriam, necessariamente, dado uma configuração diferente a toda a circulação de pessoas e automóveis neste espaço amplo da Cidade Universitária de Lisboa. Teria sido outra a sua vivência, a sua evolução, a sua História. 





2011/08/29

Peça do mês de agosto/2011



Quadro didático de insetos
Quadro didático de uma borboleta, inventariado com o número ME/400841/48, pertencente à Escola Secundária com 3.º ciclo de Anadia.
Trata-se de um quadro didático que servia para estudo e observação nas aulas de Ciências Naturais. É constituído por uma caixa de madeira e vidro onde o espécime foi colocado com pequenos alfinetes, de modo a serem visíveis as suas características anatómicas.
As borboletas, ou lepidópteros, constituem um dos grupos de insetos mais evoluídos, conhecendo-se cerca de 150 000 espécies espalhadas pelo mundo. Em Portugal existem mais de 2.400 espécies, noturnas e diurnas.
As características mais relevantes da espécie são olhos de forma hemisférica e tórax composto por tês segmentos, cada um com um par de patas. Dos segmentos posteriores saem dois pares de asas cobertas por escamas coloridas que criam padrões e cores brilhantes. Possuem uma armadura bucal sugadora, constituída por mandíbulas alongadas e unidas, formando uma tromba enrolada em espiral na posição de descanso e distendida quando absorve os néctares das flores ou outras substâncias líquidas.
As borboletas desenvolvem-se através de quatro fases de metamorfose: ovo, lagarta, crisálida e adulto. O seu contributo para o equilibro ecológico é fundamental, quer para a polinização, quer como elemento fundamental na cadeia alimentar. É uma espécie que se encontra bastante ameaçada devido à poluição excessiva, às alterações climáticas e à frequente captura.

Bibliografia e informação adicional:

http://www.lusoborboletas.org/

http://www.tagis.org/

http://www.borboletasatravesdotempo.com/

 http://lepidopteros.no.sapo.pt/

 

Para consultar a história da Escola Secundária com 3.º ciclo de Anadia:

http://www.secundariaanadia.pt/memorias.htm 


MJS

2011/08/24

Um Manual Escolar Ilustrado: o livro enquanto objecto museológico

A Secretaria-Geral tem à sua guarda diversos fundos documentais que – quer pela natureza, especificidade, ou proveniência – assumem contornos próprios que conduzem à sua “autonomia”. Este património é tecnicamente tratado dentro de uma lógica integrada, reconhecendo e valorizando as idiossincrasias subjacentes a cada coleção mas perspetivando a sua importância.

Os manuais escolares – pela sua natureza e tipologia – constituem uma coleção autónoma e permitem múltiplos olhares e hipóteses de estudo. Uma possível abordagem poderá ser feita olhando ao amplo universo de desenhos e gravuras que caracterizam os livros de cariz didático do denominado período do Estado Novo, em cuja coleção se encontram inúmeros exemplares.

 As imagens que acompanham o presente texto foram retiradas do livro intitulado: “Leituras”.

Dirigido ao Ensino Técnico, composto por dois volumes e realizado por Virgílio Couto, deve a ilustração da capa ao artista de exceção que foi, e é, Almada Negreiros. As ilustrações dos cadernos que o compõem devem-se a outros tantos nomes que, igualmente, se vieram a afirmar no campo das artes gráficas e plásticas em Portugal: Marialmira; Portugal de Lacerda; Pedro Jorge Pinto; Machado da Luz; Rodrigues Neves; Júlio Gil e Fernando Bento.

 

(Imagem a preto e branco de três naus portuguesas)

Datando da década de 1950, o presente exemplar constitui a 4.ª edição da obra. Proporcionando uma série vasta de ilustrações, muito ao sabor da época, marca a narrativa de alguns textos com o curioso recurso ao estilo “banda desenhada” (ver: “Uma Aventura de Fernão Mendes Pinto” ou “De Angola à Contra-Costa – a viagem de Capelo e Ivens”). Estas imagens, muito provavelmente (a maioria dos desenhos que ilustram a obra não se encontram assinados), dever-se-ão a Fernando Bento que tendo iniciado o seu trabalho na década de 30 no teatro de revista fazendo cartazes, cenários e figurinos, passou pela publicidade antes de, em 1938, se ter iniciado na banda desenhada no suplemento infantil do jornal República. Trajeto similar ao de Almada Negreiros, escritor e artista plástico sobejamente conhecido, um dos artistas mais vezes presente em capas e ilustrações, também ele responsável pelo grafismo de muitos livros e autor de cenários e figurinos de peças de teatro.

Podemos interpretar a narrativa ilustrada representando personagens históricas – quase sempre grandes vultos da História Portuguesa (casos de: Luís de Camões, Serpa Pinto, D. João II, Nuno Álvares Pereira) – como uma forma de despertar a curiosidade e o interesse dos alunos para o tema, podendo simultaneamente servir de meio para o professor fomentar o interesse e a motivação para a observação e compreensão de determinado facto ou fenómeno.

Em todo o caso, é notória a preocupação dada nesta época à ilustração e ao design enquanto veículo capaz de fazer passar a mensagem política associada ao regime vigente. A ilustração permite visualizar e reforçar o assunto, conduzindo a uma mais rápida apreensão e elucidação do texto. Durante todo o período da ditadura, prevalece a preocupação da formação da criança enquanto “bom cidadão”. Veja-se, a título de exemplo, os textos e respetivas imagens que abrem o livro em questão: “Exortação à Mocidade” ou “Portugal – Destino Imperial.” São características muito comuns numa altura em que a recriação da “História Pátria” passa pela valorização do passado glorioso de Portugal (tema recorrente é o dos Descobrimentos e a subsequente associação do regime a este) e da sua suposta missão civilizadora e evangelizadora. Privilegiavam-se as narrativas biográficas e heroicas de grandes personalidades modelo, pretendendo-se fazer reviver, a um mesmo tempo, as tradições populares portuguesas, o folclore e as glórias do passado.


(Desenho a preto e branco representando Fernão Mendes Pinto a bordo de um navio, oferecendo-se para embarcar)


Constata-se como em livros dirigidos para o ensino, nesta época, há uma tão grande preocupação na ilustração e na composição gráfica. Tal facto denota uma séria preocupação em articular texto e imagem. Mais do que facilitar e veicular o conteúdo e compreensão do texto literário, pretendia-se passar a mensagem dos novos valores nacionalistas e autoritários de um “Estado Forte”. No caso dos mais jovens, o recurso à ilustração pode funcionar como um poderoso meio para despertar e promover a aprendizagem. Além do mais, permite ainda descodificar algum do conteúdo quando ainda não se possui inteiro domínio sobre a palavra escrita.

No que respeita, em concreto, às ilustrações que encontramos ao longo deste volume de “Leituras”, são todas elas a preto e branco, exibindo um traço fino e meticuloso, evidenciando grande detalhe e carregando enorme expressividade. Não há efeitos de cor. Toda a força do texto é veiculada pela força do traço e do desenho. Por vezes, surge-nos apenas uma pequena e discreta figura a dar entrada ou a pontuar o final da narrativa (“A Pomba e a Formiga”; “O Sapateiro Pobre”; “O Leão e o Rato”; “Verdade Premiada”). Nos livros dirigidos à aprendizagem de crianças e jovens é vulgar encontrarem-se textos onde se celebram as virtudes da humildade e do conformismo, da obediência e do sacrifício. O imperioso cumprimento do dever, o amor ao trabalho e à Pátria, eram ideias muito bem sublinhadas nos manuais escolares da época.


(Imagem de vários filiados da Mocidade Portuguesa e Mocidade Portuguesa Feminina, caminhando em direção ao Sol. Abaixo encontra-se a "Exortação à Mocidade)


Os nomes que encontramos por detrás das ilustrações de “Leituras” seguiram todos com assinalável sucesso a carreira das artes, nomeadamente destacando-se na sua carreira profissional enquanto pintores e professores (Escola Superior de Belas Artes de Lisboa; Sociedade Nacional de Belas Artes ou Escola de Artes Decorativas António Arroio), e colaborando, pontualmente, ao longo da vida como aguarelistas e desenhadores de diversas obras de índole literária.


JMG


BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

 

BARREIRA, Cecília – Nacionalismo e Modernismo, de Homem Cristo Filho e Almada Negreiros, ed. Assírio e Alvim, Lisboa, 1981.

GONÇALVES, Rui Mário – Pintura e escultura em Portugal 1940-1980, Instituto de Alta Cultura e Língua Portuguesa, MEC, Lisboa, 1980.

MARQUES, A.H. de Oliveira – História de Portugal, vol. 3.º, 2.ª ed., Palas, Lisboa, 1981.

PORTELA, Artur – Salazarismo e artes plásticas, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, MEU, Lisboa, 1982.

Portugal contemporâneo – Direção de António Reis, vol. 4.º, ed. Alfa, Lisboa, 1990.

http://sibme.sg.min-edu.pt/ipac20/ipac.jsp?session=1W14K25D23900.388634&profile=edubib&lang=por&logout=true&startover=true#focus

2011/08/17

Interculturalidade - Fundo documental doado pela Dra. Helena Seabra


(Imagem de uma mão pintada de várias cores com a palavra "interculturalidade" em baixo)



Encontra-se em fase de tratamento o fundo documental doado à Secretaria-Geral pela Dr.ª Helena Seabra. A singularidade deste acervo que, doravante, complementará a área de literatura do fundo geral da referida Secretaria, inclui documentos que denotam uma preocupação intercultural – a língua portuguesa como mediação entre realidades culturais e vivencias. Partido deste suposto exegético, supostamente, foram incluídos no referido acervo várias tipologias documentais, a saber:

 

a.    Relatórios curriculares;

b.    Documentos de ensino especial (gitanos);

c.    Documentação impressa (planificação de estudos portugueses sobre crianças e adolescentes);

d.    Material de apoio programático:

                                                     i.     Comunicação oral;

                                                   ii.     Comunicação escrita

                                                  iii.     Comunicação lúdica;

                                                  iv.     Linguística.

 

e.     Animação pedagógica;

f.    Textos de formação de professores.

 

 

Como verificamos, toda a seleção documental, brevemente disponível aos nossos clientes, assenta na língua portuguesa como veículo educacional vs reintegração intersocial. A documentação, ainda que abrangente, tem uma preocupação comum: o ensino da língua portuguesa na esteira intercultural.

 

Assim, destacam-se manuais escolares e guias tanto para o educando como para o educador. Para além desta polarização, numa aceção intercultural, os documentos vão ao encontro das necessidades de grupos de ensino especial, tais como, gitanos, crianças, adolescentes, etc. Além de mais, são atendidas as várias formas de manusear a linguística – quer ao nível oral e escrito, quer lúdico e científico – a pedagogia é, por assim dizer, o elo de ligação entre as distintas dimensões semânticas.

 

“A educação intercultural, na escola, começa quando o professor ajuda o educando a descobrir-se a si mesmo. Só então este poderá pôr-se no lugar do outro e compreender as suas reacções, desenvolvendo empatias. A educação intercultural consolida-se, quando o professor propicia a igualdade de oportunidades de todos os grupos presentes na escola e o respeito pela pluralidade, num plano democrático de tomada de decisões e de gestão de espaços de diálogo e de comunicação entre todos.” (Bizarro, et al. 2002:58)

 

Bizarro (2002:58) revê a educação intercultural como uma dialética entre o professor/aluno que, a seu modo, consolida igualdade de oportunidades e, acima de tudo, respeita a pluralidade de oportunidades.

 

Segundo entendemos, a língua como veículo intercultural é um corpo em movimento e esta mobilidade caracteriza-se pela assimilação de novos elementos, sejam eles da área da fonologia, da sintaxe, da semântica, do léxico e também da pragmática. Este contacto com outras línguas levar-nos-á a considerar que é a metacognição que temos da nossa própria língua que nos permitirá desenvolver-nos e promover o próprio conhecimento linguístico e o do outro com quem nos deparamos.


P. M.

 


Bibliografia:

 

 

AZEVEDO, Joaquim, et al. (1999). Valores e cidadania: a coesão, a construção identitária e o diálogo intercultural: versão resumida [on-line].

<http://www.acime.gov.pt/docs/Publicacoes/Entreculturas/guia_diversidade.pdf >  [Consulta: 17 Agosto 2011].

 

BARTOLOMÉ PINA, M. (1997). Diagnóstico a la escuela multicultural Barcelona: Cedecs Edit.

 

BIZARRO, Rosa, et al. (2002). Educação intercultural, competência plurilingue e competência pluricultural: novos desafios para a formação de professores de Línguas Estrangeiras [on-line].

<http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4373.pdf [Consulta: 17 Agosto 2011]

 

MONTEIRO, Ana Sofia, et al. /(2207). “Diferenças culturais: respeitar, acolher e integrar”. Cidade solidária;  Ano 10, n.º 18 (Jul. 2007).